quarta-feira, 6 de maio de 2020

A LIVE!

A primeira live é como o primeiro tudo!  Quando passa a gente se pergunta, então é isso?
E fica a frustração da performance  e/ou da resposta brilhante, sempre tardia, sempre depois.
Quando a Inverso me ligou dizendo que eu tinha sido selecionada, entre outras escritoras, para participar de uma live  com a intenção de  promover títulos que remetessem ao universo materno - nesses dias que antecedem o Dia das Mães - aceitei de pronto.

Sem ideia de como a coisa funciona, o primeiro que fiz foi arranjar tinta para pintar o cabelo!
Nada de desleixo, do relaxo que o isolamento facilita.
Isso resolvido, tratei de aprender.

Pedi socorro  aos filhos, amigos e amigas e, todos diziam a mesma coisa - ah, é fácil!
O mais difícil você já fez, que foi escrever - e eu pensava que o mais difícil era ouvir que era fácil. Meus escritos são um condensado de vida inteira, decantados, marinados e que se materializam sem a urgência do já, do pra ontem, sem a premência que a live exige.
Escrevo com o uso da vida, com o manejo do viver.
De  lives, de insta, de briefing, não tenho traquejo nenhum.

Não sou competitiva, mas não fujo da raia. Meus embates são comigo mesma. E encarei a coisa do mesmo jeito que encaro a vida. Fazer o que deve ser feito. Quase sempre dói. Sempre alivia.
A pressão maltrata, mas empurra.
Entre sobressaltos, suores, taquicardias, chegou o dia!

Tudo pronto, conexão efetuada, caindo, caída, recuperada, sumindo, a saída foi continuar sem imagem, só com voz. E foi assim com a primeira entrevistada e a segunda.
Eu era a terceira.

Nessas alturas, eu lamentava não ter pegado um guardanapo de papel para retorcer, dobrar, amassar e rasgar em pedacinhos. Quem me conhece bem, sabe do que estou falando. Até entrada de cinema já perdi porque - filme bom, fila grande, ao chegar a minha vez de apresentar o ingresso ele estava todo torturado, todo picado.
Eis que me chamam e eu apareço! Que bom que não estou picando papel. Ufa!

Meu tema era o da mãe madura, com filhos adultos, tocando a própria vida. Ela e eles.

Gosto do conceito da mãe desnecessária. Sou uma mãe desnecessária.
Entendo que, entre erros e acertos, acertamos mais do que erramos.
Ficamos na tangente - observando -  prontas a ajudar, nunca a intervir.
Oh! Aprendizado difícil!

Acredito que somos desnecessárias, porém imprescindíveis. Creio que somos bem vindas, amadas, queridas. Penso que somos boas companhias e que os filhos desejam o nosso bem estar e - na faixa contrária da via dupla de que a vida é feita - nos observam com o mesmo olhar atento com que os observamos e que não medirão esforços em nos atender e nos cuidar.
E tenho a convicção - adquirida em décadas de prática - de que é tempo de não ser disponível.
Nem aos filhos, nem a ninguém.

Feliz Dia das Mães para todas as mães do mundo e que cada uma de nós se sinta próxima dos filhos, mesmo que não esteja perto.








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