sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Vitalidades

                                   I

Tranca a porta da frente com duas voltas na tetra.

A janela do quarto está com a trava quebrada.

Amanhã ela conserta e amanhã chega e passa. A porta está trancada e a janela aberta.

Está tudo certo, não é assim que Deus funciona?

                                   II

Ela nunca fecha nenhuma tampa direito

Faz assim com o coração, uma fresta, um intento,

Não estaciona, transita, e a si mesma visita

Será costume ou defeito? 

                                  III

As amigas a chamam por versões do seu nome

São tonicidades diferentes, corruptelas, diminutivos contentes 

O nome mesmo, da certidão, só oficialmente

Será que é porque se sabem muitas, cada uma um continente?

                                  IV

E então a amiga liga e no meio da conversa

Assegura, decidida, à outra, imersa em dúvidas:

Aproveite os petiscos que a vida põe no caminho!

E não é de pedacinhos de que a vida inteira é feita?

                                  V

Oi, linda, tudo bem, princesa? Quero te conhecer, sentir seu cheiro, seu gosto

Sonhei com você esta noite, um sonho bom, delicioso

Quanta bobice, quanta chatice! A internet, veloz, não merece a cafonice.

A chamasse de mulher ela ia.


                                               




                                       




                                                               

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ônus e Bônus.


                                                                                 I

Entra no consultório do médico para a revisão da cirurgia e já ergue o braço, se exibindo para receber um elogio. O médico comenta -  espantado - que não supôs que os avanços obtidos fossem tão bons. Ela minimiza a dor que ainda sente e o esforço na fisioterapia de todos os dias para agradar o doutor.  

Reclama, porém, da artrose que maltrata dedos, joelhos e articulações em geral. Informa que não comprou o remédio indicado para a dor porque leu na bula da amostra grátis que o medicamento não engorda, só abre o apetite. O médico concorda e depois escreve três coisas que mostra a ela. Em letra caixa alta - sensato, o doutor - escreveu: CABELO BRANCO RUGAS ARTROSE. Ela lê e olha sem entender. O doutor explica: todos teremos cabelos brancos, rugas e artrose. A senhora fica em casa porque tem cabelo branco e rugas? E acrescenta: artrose é assim, faz parte, maltrata mas não mata.  Ela retruca que pinta os cabelos e que rugas não doem. Sai do consultório com receita para mais 30 sessões de fisioterapia. No caminho de volta pra casa lamenta porque não falou que cabelos - naturais ou pintados - também não doem.

                                                                                   II

A alcateia não se reúne desde o começo da pandemia. Houve um ou outro encontro - incompleto e  breve - quando começaram a pôr o nariz pra fora, vacinadas e mascaradas mas, a turma toda, barulhenta e empolgada faz mais de um ano e meio. No começo, quando a pandemia ainda era susto e dúvida  fizeram meia duzia de encontros virtuais, onde brindavam e brincavam com as dificuldades  de lidar com lives e afins porém, o fato era que o arranjo, se não era o ideal, era o que tinham, e funcionava.  Até que, cientes de que a coisa iria muito mais longe, esmoreceram, as reuniões foram escasseando, a alegria desajeitou-se até que -  desenxabida - se ausentou dos encontros e eles pararam por si. Cada uma focou em se manter bem e saudável, o que não foi pouca coisa.

Sabem, agora mais do que antes - porque a pandemia lhes sonegou um ativo impossível de repor e de precificar - que a manutenção da carcaça vem acompanhada de 3 D - Dói, Demora e Despende. São os ônus de viver. Estão cientes de que os bônus carecem de lentes de aumento, requerem empenho porque estão cada vez mais distantes, cada dia mais escassos. No entanto, a fé na vida faz com que acreditem que irão se reunir em breve e estarão felizes e minimizarão as mazelas e exibirão os resultados, desta vez vez num tributo ao próprio esforço porque cada uma bancou o custo que lhe coube. Acima de tudo, sabem que tiveram sorte. E o uivo em uníssono cortará a noite. Nem todo uivo é lamento.

                                                                                  III

Se achega de banda, se acerca, se engraça. Ela não baixa a guarda, mede as palavras. Aprecia a companhia, aproveita o momento. E compreende que perdão é isso. Não se afastar de si. O perdão é resultado de profundo esforço individual. Confiança não, confiança é troca.

 





sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Vinte Anos Depois

Os guarda-chuvas colidiram na faixa de pedestres num fim de tarde. Na urgência do sinal que amarelava soltaram um "desculpa, desculpa" distraído. Reconheceram-se pela voz. Oi, há quanto tempo! Que bom ver você! Não vamos ser atropelados justo agora, que tal um café? Sem esperar resposta a conduziu pelo braço. O tempo retém as significâncias e resgata o guardado com precisão cirúrgica, se a vida assim dispuser. Lembrou dos anos de dinheiro curto quando, na volta do cinema dividiam um filé no restaurante da esquina. Frente a frente na cafeteria o assunto fugiu. Ela quebrou o silêncio e perguntou, como vai a vida? Ele foi evasivo, tangente. Continua escorregadio, pensou. Casaram jovens, se separaram maduros. O casamento dele terminou antes que o dela. Quando sentiu que a coisa degringolava, ela se agarrou na ilusão do amor eterno. Há de passar, pensou. Não passou. Ele remoçou. Namorou, dourou a pele e coloriu a vida. O basta foi brado dela.

União sem filhos - único laço indestrutível - não houve mais natais nem aniversários, tréguas onde a civilidade, em nome da prole, é obrigatória. Nunca mais se viram até aquele dia chuvoso. O papo se arrastava cheio de vazios, ele alegrinho e sem assunto; ela, com uma enciclopédia na ponta da língua. Onde você mora? Jamais imaginei encontrá-la atravessando a rua. A cafeteria já ia fechar. Temos que ir, ela disse. Percebia que o que entenderam como sucesso na vida tinha absorvido os vinte anos de união. Finda a labuta de comprar o apartamento maior, o carro melhor, havia segurança financeira e um casamento em frangalhos. Ela lutou para ressuscitar o que já não era. Ele não queria mais nada.  

Quando se viu sozinha mudou de cidade, de amigos e de história. Construiu a vida na sua justa medida. Vamos nos encontrar sem hora marcada, foi a sorte que me trouxe você! Olhava para ela, feliz. Vai que dá para sermos amigos, ela pensou. Maduros, não tinham mais premências a atropelar a razão, mas precisava pensar antes de deixá-lo entrar novamente na sua vida. Brincou que iria implicar com ele.Vou me incomodar com o seu cabelo e como você me esconde dos amigos que não me apresenta. Não, não, mudei muito, acredite. Não acreditou, mas ficou tentada a deixar-se iludir. Como quando, fascinados pelos voleios do mágico, enxergamos o que não existe.

Posso ligar para você? Quando ela começava a recitar o número, o celular dele tocou. Não atende, mas inclina a cabeça para digitar uma mensagem. Quando ergue o olhar, desperdiça o sorriso amarelo. Ela não está mais ali.                                                         

                                                          







                                                                                                                       

 

domingo, 9 de maio de 2021

Dias das Mães Diferente

No suspense em que estamos, neste compasso de espera até que "tudo isso  passe",  acreditei que a dor no meu braço, antiga, fosse embora também.  Até que não suportei mais e fui ao médico em meados de abril. Quando, por mais leiga que eu seja, li o resultado da RM, entendi que a encrenca era séria. Nessa altura, já tinha sido encaminhada para o cirurgião de ombro. 

Aguardo, na fila, a chamada do hospital para fazer a cirurgia. A demanda por anestésicos é muito grande e os hospitais só fazem cirurgias eletivas quando as internações de pacientes graves de COVID baixam o suficiente para regular os estoques. Até chegar a minha vez preciso de ajuda. Não consigo fazer quase nada sozinha. Premida pela realidade, aprimoro a minha paciência.

Meus filhos organizaram um sistema de revezamento onde cada um fica comigo uma semana. Não sei quanto tempo precisarei de auxílio até que volte a ter autonomia. Eu moro em B.Camboriú, dois moram em Curitiba e uma em Lisboa, que já chegou.

Combinaram entre si e me comunicaram a escala. Estar no lugar de ser cuidada é, acredito que pela maioria das mulheres, principalmente as da minha geração, estranho e difícil. Não estamos acostumadas a receber sem protestar, somos meio rebeldes, autossuficientes. Eu tenho orgulho de dizer que me viro sozinha porém, neste momento, isto não é verdade. A filha que foi embora ontem ficou a semana inteira e me deixou sopas e comidinhas no freezer.

Hoje à tarde chegam meu filho e minha neta que me assegurou que cresceu e está qualificada para me ajudar. Cresceu mesmo, a minha menina, é de maio como eu e vai fazer dezessete anos. 

Vou almoçar com meu irmão. Não nos vemos há bastante tempo e aceitei o convite dele com alegria. Restamos nós dois, da nossa família de seis. A que construí não se encaixa no modelo da família perfeita da propaganda de margarina. No entanto, vibramos com os sucessos uns dos outros e não medimos esforços para nos socorrer quando as circunstâncias exigem. Cada um de nós vive de acordo com as próprias escolhas. Raramente estamos juntos no almoço de domingo porque moramos em cidades diferentes. 

No Natal fazemos de tudo para juntar a nossa pequena família inteira. No natal passado não foi possível. A pandemia impediu que a filha que mora fora viesse para o Brasil porém, veio o mais rápido que conseguiu assim que soube que eu precisava de ajuda. O fio que nos une é generoso e firme, como entendo que seja o amor.  

Hoje, neste Dia das Mães diferente, eles vão almoçar com o pai e eu fico feliz com isso. Acredito que são gratos a ele pela mãe que têm. Eu também sou grata a ele pelos filhos que tenho. 

O Dia das Mães está quase no fim. Espero que todas as mães tenham tido um dia de alegria e aconchego. Eu tive. A dupla que pegou o bastão neste domingo já chegou.  





   

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Palavras Em Desuso e Neologismos.

As palavras passam por transformações. Isso acontece porque a língua é viva e muda de acordo com os hábitos e costumes da sociedade. Para usar uma expressão bem "da hora" elas sofrem releituras e são substituídas por outras, com o mesmo significado. 

Palavras são esquecidas quando deixam de ser usadas. Continuam a existir apenas nos dicionários porém, nada nos impede de resgatá-las. Neologismos surgem o tempo todo. O start  para este texto foi a palavre "chiste", usada com graça por uma amiga. Comentei com ela que algumas palavras nos situam no tempo com a precisão de um documento. Concordamos que "chiste não é do nosso tempo." Deste diálogo surgiu o texto a seguir, com palavras em desuso. A maioria delas, esclareço, saíram de moda muito antes de termos nascido. Você e eu, óbvio.                                                                              Vamos ao episódio formatado na cachola, o que me faz lembrar de bestunto, palavra muito usada pelo meu sogro que, aliás, tinha um intelecto brilhante. 

Assuntamos de marcar uma tertúlia, um convescote ao ar livre porque este flagelo está nos impedindo de ir às ruas. Consideramos a ideia de fazer um piquenique num parque e alternar o coloquio - quiçá com um jogo de víspora e uns goles de licor - nada que se assemelhe a uma carraspana. Afinal, não somos sirigaitas dadas à fuzarcas inconvenientes.

Espevitadas, formamos um grupo de whatsapp para organizar o sarau. Nosso grupo é pródigo em artes. O esboço do encontro ficou mais ou menos assim: Um pouco de cantoria, outro de teclado, alternados com leituras e análises da conjuntura. Calculamos que a parte artística dar-se-ia na primeira hora. Nem um minuto a mais. As outras três seriam dedicadas aos assuntos gerais.

Quitutes, os clássicos. De bebida, além dos licorosos, um espumante para louvar o ano que começa e agradecer por ter chegado até aqui. Vinho também, é claro. E umas cervejinhas para as adeptas.

Nosso plano ruiu assim que tentamos executá-lo. Foi uma chapoletada, um balde de água fria! O nosso plano supimpa foi impedido pelos filhos que, percebendo a balbúrdia tiveram um faniquito, nos deram um esculacho, sonegaram a nossa galinha com farofa. Foi um quiproquó!  Vocês acham que somos doidivanas? Nada de aglomero, rígido distanciamento social, álcool em gel o tempo todo, ficaremos de máscara. Vão comer de máscara? E beber? Foi um bate-boca.                                      

Nossa reação foi mixuruca. Os argumentos, frouxos. Vocês criam um balacobaco por qualquer mixórdia. Eles, firmes. "Tá louca, mãe!"

Forçadas a contingenciar o plano, impedidas de ir ao parque, completamente impossibilitadas de ir a um boteco dividir vida e petiscos, alteramos o lugar mas mantivemos o encontro. Partimos para o plano B.

Deletado o plano impossível decidimos pelo encontro on line. Compartilhado o link da plataforma digital, era só esperar a hora marcada. Quase esqueço de dizer que o encontro foi alongado. Até que todas conseguissem linkar, clicar e aparecer na tela gastou-se uma hora inteira.

Nosso piquenique virtual foi um sucesso! Sem galinha com farofa. Nem fez falta.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Como Se Não Houvesse Amanhã

"A esperança                                                                                                                                                  Dança na corda bamba de sombrinha                                                                                                      E em cada passo dessa linha                                                                                                                      Pode se machucar"                                                                                                                                                     João Bosco/Aldir Blanc

Adormeço cada vez mais tarde e acordo cada vez mais cedo. Assisto filmes e leio, noite alta, e me apego ao rádio de manhã cedinho. A Educativa Paraná apresenta um programa delicioso, às seis da manhã, chamado Primeiros Acordes. 

Soube que dia 21 seria o aniversário de Altamiro Carrilho e que ele é o brasileiro que mais gravou músicas no Brasil. O celebrado flautista francês Jean-Pierre Rampal - responsável pelo retorno da flauta transversal como instrumento clássico solo - contemporâneo de A.Carilho, o considerava o melhor flautista do mundo. 

Para homenageá-lo, o programa tocou Brasileirinho chorinho maravilhoso de Waldir Azevedo que, além de compositor - era mestre do cavaquinho. A homenageada fui eu.

O programa instiga a minha alma a dançar e eu danço com ela.                                                                  

Toca Procissão, que Gilberto Gil canta rezando e a seguir, Renato Teixeira reza cantando a sua  Romaria. Desconfio que as duas sejam gêmeas, têm o mesmo DNA. Penso que quem fez a seleção das músicas também sente assim. Toda a programação musical da Paraná Educativa é primorosa. Contempla o melhor das mais variadas vertentes, de todos os gêneros.

E lembro do Tico-Tico no Fubá de Zequinha de Abreu, outro mestre do choro, exímio na flauta e no clarinete. Mesmo que Tico-Tico no Fubá fosse a sua única obra, ela já nos deixa, como povo, mais ricos. 

E uma amiga me conta, coração apertado, que se sente impotente quando um filho tem uma dor, dessas de que a vida não nos poupa. Disse que a sensação é a de estar um teatro lotado, instalada num camarote, enquanto o filho enfrenta o seu quinhão de embates sozinho no palco.                                       Não posso ajudar e nem interferir, acrescenta. Respondo que somos impotentes para resolver as querelas dos filhos adultos porém, o filho sabe que ela está lá e que pode contar com ela.

Neste ano de assombro e medo todos, e nunca "todos" foi tão literal, nos sentimos assim, observadores da própria vida, usurpada por um vírus que continua ganhando o jogo. Estamos estáticos como a imagem de um filme que interrompemos para assistir mais tarde, à partir da cena congelada. São duas vidas correndo paralelas. A vida como ela é. E a vida como ela está. É uma experiência inédita e uma oportunidade extraordinária para aprender a ter resiliência - filha dolorosamente parida da experiência - mas que nos capacita a fazer escolhas melhores.                

Neste ano desafiador sem abraço e sem olho no olho, oriento o próprio olhar à procura de delicadezas possíveis. Não desperdiço um gesto de carinho, mesmo que a circunstância o deixe inacabado. Em tempos áridos a garimpagem gera muito cascalho até que se encontre uma pepita de felicidade. Um sorvete ligeiro no quiosque da esquina faz um bem danado. Conversar com uma amiga, mesmo pelo celular, inunda a alma de alegria por uma semana inteira. Mais do nunca, este é um tempo de correr atrás do que, de fato, importa na vida de cada um. Fazer um mea-culpa,  faz um bem enorme.                                                          

Neste ano em que desejar saúde quase significa dizer "espero que você continue vivo", em que o amor precisa ser expandido e vivido além do cercadinho das nossas vontades individuais espero, talvez ingenuamente, que as radicalidades consigam conversar, se não através do afeto, que seja pela civilidade e, ouso sonhar um pouco mais, pela empatia.                                                                            

Aguardo, ansiosamente, a distribuição da vacina no Brasil todo. E lembro do meu pai a me ensinar, minha filha, "na vida quem não sabe ajudar, então que não atrapalhe"

Desejo que este natal diferente seja de paz e alegria para todos.                                                                  Que 2021 nos traga mais soluções do que problemas.                                                                                   Feliz Ano Novo!

 

                   


                                                                                     




  








terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Incomplitudes

 -Você é casada ou solteira? 

 (Pergunta limitante, esta.)

 -Fui quase todos os estados civis.

 -Por quê, quase? 

-Não fui viúva. Muito tempo, casada. Um tempo curto, fui namorada. E você?

-Sempre solteiro. A vida toda. E uma urgência, uma premência de companheira.

-Ah! Companheira!.

-Você, experiente, pode ser a companheira que procuro.

-Não posso. Experiência não se transfere. 

-O que você acha de tentar?

-Tentativas são prerrogativas das ciências, da pesquisa. Exigem dedicação absoluta, empenho total até      acertar.

-Estou disposto a tudo isso!

-Eu, não.




  



Neste Natal, presenteie com um livro!

O livro nos transporta para outros lugares, amplia nosso olhar e nos faz companhia.

Boas Festas!

Clévia Westphalen 


Contatos:
cleviawest@gmail.com
41 999535550
*Entrega gratuita em Curitiba.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Motel dos Amantes

Recebi uma proposta inusitada e interessante. Uma pessoa das minhas relações, aliás, bem próxima, viveu uma experiência tão constrangedora quanto engraçada. Antes de começar a narrativa que dispensa exageros, pediu-me que a mantivesse anônima, o que faz todo o sentido, como veremos a seguir.  Massageou-me o ego acrescentando que eu saberia contar a história com verve e graça. Apreciei o elogio, mas aumentou a minha responsabilidade.                                                                        Sem maiores delongas, vamos aos fatos: 

Voltavam, duas amigas, de um fim de semana prolongado em que agarraram todas as oportunidades de diversão segura. Colheram mirtilos em cestinhas de vime num lugar chamado, apropriadamente, de "Vale dos Mirtilos".  Almoçaram em um restaurante escondido em uma mata ao som de cachoeiras, convidadas por  um casal de amigos comuns que inauguravam o seu completo e confortável motor home.                                                                                                                                                            Beberam vinho, passearam mais, retornavam felizes.

No meio da viagem, justamente no trecho em que não tinha nada na beira da estrada, nem um mísero posto de gasolina para uma parada de emergência, ela começou a sentir lancinantes dores de barriga. Esperou o quanto pôde, até que gemou para a amiga "preciso que você pare assim que aparecer qualquer muquifo para eu ir ao banheiro".

Não demorou e, após uma curva da estrada, surgiu um placa anunciando um shopping cujo desvio de acesso distava três km. Ah, animou-se a motorista, é pertinho, já a gente chega. Tem um túnel que dá acesso ao shopping, eu conheço, e acrescentou "olha, lá está".  E apontou para um cilindro branco que despontava ao longe. É lá, faz parte do edifício.Você aguenta, perguntou? Ela assentiu com a cabeça. Um pio, ali, seria arriscado. 

Atravessaram o túnel e o prédio crescia a cada metro rodado. Ela estranhou a subidinha de terra batida, mas nem comentou. Era um motel de beira de estrada, com dois pombinhos de biquinhos unidos num beijinho e um coração vermelho. Na fachada. "Motel dos Amantes" escrito no mesmo vermelho do coração. Ai, gemeu, é um motel.

A amiga, calma, explicou que descendo a ruazinha chegariam à entrada do shopping. Desceram e caíram na contramão da BR 101. Carretas e caminhões davam sinais de luz ao mesmo tempo em que buzinavam, freneticamente. Sorte que, do motel à BR tinha uns 50 m de acostamento até a estrada. Certo que na contramão, mas não caíram direto no meio do trânsito pesado da rodovia.

Voltaram de ré até o acesso ao motel. Vamos entrar no motel, não quero nem saber, que pensem o que quiserem. Tô nem aí.

A amiga, sem premências a lhe alterar o raciocínio lógico, ponderou: os trâmites para entrar no motel vão demorar mais do que descer o declive entre a ruazinha e o milharal. Não é melhor? Tenho papel higiênico no porta luvas. Ela assentiu com a cabeça e pegou o papel. 

Escorregou pelo morrinho curto, mas íngreme, e se viu num plano, coberto de palha, milharal à esquerda. Antes que a visão da amiga saísse da sua vista ainda perguntou, será que tem vaca? ou cobra? 

Vencida a primeira etapa, impôs-se a segunda. Levantar, sem ajuda das mãos e segurando os jeans. Catou o resto de dignidade, a transformou em impulso e se ergueu, firme. A garrafinha de água e o álcool gel encerraram a questão. A amiga se admirou com a rapidez com que ela tinha resolvido o assunto.   

A urgência, minha amiga, não admite titubeios. Sufoco assim, só quando nasceu meu filho há mais de 40 anos. Mas, esta é outra  - e nobre - história.

Transcrevi, ipsis litteris, a narrativa da pessoa que me deu o tema deste conto. Pediu-me para agradecer, uma vez mais, à previdente companheira de viagem cujo prosaico rolo de papel higiênico permitiu que a aventura tivesse um final feliz. Espero que ela goste do que lerá. Tentei ser o mais fiel possível aos fatos. No entanto - como é  de domínio público - talvez eu tenha acrescentado um ponto.





                                                                                       

 



segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A Vacina

  

Três amigas foram passar um dia de sol na casa de praia de uma delas. Precisamos tomar sol para absorver a vitamina D, disseram. Estamos restringidas, presas em casa, somos o elo frágil da corrente. Além disso temos que cuidar do emocional, solidão demais faz mal. 

Reclinadas nas cadeiras fincaram os pés na areia. A que controlava o relógio para que não torrassem ao sol repetia, "a diferença entre o remédio e o veneno é a dose."
Passado o tempo da exposição terapêutica se esbaldaram na jacuzzi instalada ao lado de um sombreiro cujas folhas desenhavam um rendado de luz e sombra ao redor.
Espumante e camarão grelhado à disposição, faziam um balanço das próprias vidas e concordavam que os acertos foram maiores do que os erros. Depois do primeiro brinde sabemos que abre-se um portal. As coisas boas da vida se atropelam numa fila imaginária na ânsia de ser brindadas. Generosas, atenderam a fila inteira, com direito a inserções de última hora e de primeira importância.

Repetiam surrados chavões - verdadeiros  - "é a gente é quem cuida da gente", "os filhos têm a vida deles", "bom mesmo são as amigas, porque os caminhos são diferentes, mas as histórias convergem" e o versátil e abrangente "só muda o endereço."

Fim de tarde, na volta para casa, felizes, bronzeadas, eis que toca o celular de uma e, no viva voz, o filho informa que está com COVID.  Passamos o último feriado juntos, tomamos caipirinha do mesmo copo, apavorou-se a mãe. Tá tudo bem, mãe, calma!

Imediatamente as três estavam de máscara. Naquela altura pouco adiantaria, mas pouco é mais que nada. Vamos esfriar a cabeça. Amanhã cedo vou fazer o teste e aviso vocês. Reviram o dia cuidadosamente, argumentaram que estiveram ao ar livre, que não misturaram copos e desenvolveram condescendentes manobras mentais para ludibriar a razão.

Susto ainda pela metade e fazendo mil conjecturas, garantindo que respeitaram o distanciamento, as janelas do carro abertas para renovar o ar quando uma pede, aflita, fechem as janelas, por favor é o meu telefone que toca agora. O barulho do trânsito pesado da rodovia a impedia de ouvir. 

Era a filha informando que estava chegando com as crianças. Ela nem teve tempo de responder e a moça emendou, nos falamos mais tarde, mãe. Vou ficar uns dias com você. Depois eu decido o que vou fazer. Meu casamento acabou. 

Ficaram o resto do trajeto emudecidas. Passar da felicidade solar ao ao medo abissal sorveu-lhes a energia recém adquirida.

Quando ela ligou apavorada porque o exame deu positivo, a terceira, que saíra incólume daquele dia, ao ouvir a notícia deixou o telefone cair das mãos. Calma, calma, estou confundindo os sentidos. Perde-se o olfato, não o tato. Respira, respira!

As outras duas não manifestaram nenhum sintoma. Mãe e filho se recuperaram da COVID.  A filha se entendeu com o marido. 
Encontrei-as no drive thru na fila da vacina. Felizes, imunizadas, combinaram de passar um dia na praia. Urge recuperar as energias.