sábado, 29 de julho de 2017

A Viagem Que Não Fiz

 "Não queiras gostar de mim
    Sem que eu te peça
    Nem me dês nada que ao fim
    Eu não mereça..."
                         Artur Ribeiro   

Entendi que decidiram ir atrás de vinho e bacalhau e todos os et cetera e tal - que tem lá - em Portugal. Não sei ao certo, porque as coisas que nos chegam vem com o olhar de quem nos conta. Enfim, queriam que eu escrevesse sobre a viagem que elas fizeram. Ora, se eu não fui, como posso descrever como foi?  Sim, sim, mas a gente conta tudo direitinho e você organiza a narrativa. E começaram a falar, todas juntas, uma começava a contar um caso e a outra continuava ou interrompia, do jeito que só mulher sabe fazer e entender... E a cada lembrança, a cada história narrada, riam e se divertiam com o deleite das boas vivências. Contaram que cantaram fado - no palco - junto com a fadista e que, voltando a pé para o hotel, depois de um jantar animadíssimo, foram surpreendidas por uma chuva repentina e chegaram com cabelos e roupas pingando e se acabando de rir; que comeram bacalhau por uma vida inteira e que, de vinho, não se fartaram...
Munida das informações, dispensei-as. Espero corresponder às expectativas...

A primeira coisa que fiz foi ouvir uns fados para entrar no clima - os mais conhecidos - na voz de Amália Rodrigues e Francisco José e escolhi o De Quem Eu Gosto  - para me inspirar - porque todo mundo conhece, muita gente gravou e tem uma letra maravilhosa. O compositor é Artur Ribeiro, nascido na cidade do Porto em 1924, com mais de mil obras entre canções e letras.
De modos que cá estou embebida de fado e acompanhada do Porto ou embebida de Porto e acompanhada do fado - tanto faz - no esforço de verter uma história que não é minha. É a primeira vez que conto uma viagem que não fiz e estou curtindo bastante; tá certo que me acompanha a nostalgia do canto e tenho a ajuda do vinho que me trouxeram - sabem das coisas -  essas meninas.

Foi bonita e divertida a viagem que fizeram essas sete mulheres maduras de idades variadas. Têm a habilidade de viver que a experiência confere e legitima. Cometeram erros e revisaram certezas. Recomeçaram muitas vezes. Levantaram outras tantas. Têm a percepção serena de que a finitude é inevitável e que devem a si mesmas as alegrias que dão sentido à existência. Sabem como levar a vida de um jeito bom. E levam!
Viagens boas são as que estamos em boa companhia a começar pela própria.

























                  

domingo, 23 de julho de 2017

...e me arrisco num soneto.

 Escrever e publicar é um desnudar-se que exige coragem.
 Escrever versos e publicá-los é uma ousadia e um risco.
                                                                                 C.W.

       
             O Que Consigo

É no descompasso do meu próprio passo
Que perco o rumo, saio do traço.
É no desacerto do que sinto certo
Que me desconecto, que me desacerto.

É no impulso que me carrega
É no devaneio da minha entrega
Que me atrapalho, que me embaralho
E me contenho, mas dá trabalho.

E fico atenta, não me distraio
Me dá trabalho, mas não me traio.
Então eu sonho e me iludo
Num luxo meu, só meu, contudo.

E me deixo ir por tempo curto
por que é preciso, são meus anseios.
E me recomponho, contenho o surto.












quinta-feira, 20 de julho de 2017

Dia do Amigo

"Ter muitos amigos é não ter nenhum"
                                             Aristóteles 

                              
O Dia do Amigo e Dia Internacional da Amizade foi criado pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro. Com a chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969, Febbraro enviou cerca de quatro mil cartas para diversos países e idiomas com o intenção de instituir o Dia do Amigo. Acreditava que a união em torno de um objetivo comum poderia promover o bem de todos. Aos poucos a data foi sendo adotada em outros países e hoje, em quase todo o mundo, o dia 20 de julho é o Dia do Amigo. Foi criado por decreto, na Argentina, em 1979 ( Decreto  235/79 /Fonte: Wikipédia) 

No Brasil comemoramos o Dia do Amigo em 20/07 e em 18/04. Não consegui descobri o motivo. Se alguém souber me informe, por gentileza. Em 04/02 é o Dia do Amigo do Facebook. Coisa de brasileiro... Mas não é uma jabuticaba... 

Idealista, a intenção do argentino tem o mérito de acreditar nos bons sentimentos humanos de solidariedade e boa vontade. Mirou num ponto e acertou em outro. Acredito que o maior mérito da criação do Dia do Amigo seja o resgate do adjetivo "velho".  Para muita gente, ser chamado de velho é pior do que um palavrão. A palavra velho se transformou no adjetivo que qualifica - ou desqualifica - coisas, objetos, lixos... trapo velho, chinelo velho, carro velho e por aí vai...
Quando se refere a pessoas, usa-se eufemismos, os mais criativos, para substituir a palavra velho.
Das gentes, diz-se que estamos na "Melhor Idade, na  Feliz Idade" ( não sei o que é pior)  que temos o espírito jovem - tolice entre as tolices -  e há, entre nós - os que acreditam e se esforçam e se misturam com os jovens de fato, como se a proximidade com eles fosse suficiente para voltar no tempo e recuperar a juventude passada, não creio que tenha sido perdida.

Mas o amigo não! Nada tem mais valor, mais significância do que um velho amigo. Aquele, de longa data, de infância, de juventude. É, ao mesmo tempo, um velho amigo e um amigo velho. Aqui, o adjetivo é tão valorizado que se desdobra em dois. Velhos amigos são pessoas velhas. São preciosos, por isso são raros. O significado de velho, na amizade, é de tal importância que nos referimos a eles assim:

"Tenho um velho amigo que, quando nos reencontramos, é tão boa e tão fresca a nossa amizade que parece que voltamos- lá - no tempo de ontem, como se não tivesse passado nem um dia..."
"Tenho um novo amigo que, quando nos encontramos, é tão boa e tão fresca a nossa amizade que parece que nos conhecemos de vida inteira." 

Eu tenho o privilégio de ter amigos assim e é para eles que escrevo este texto, com gratidão e afeto.
Feliz Dia do Amigo!



                           



sábado, 8 de julho de 2017

O Que Espero De Mim?

"Tinha de lá chegar primeiro,
só depois havia de deixar-me ir."
                " a máquina de fazer espanhóis"
                  Valter Hugo Mãe

Do Bom Humor:
Quando nossas andanças coincidem - eu sozinha - elas em dupla, nos cumprimentamos com simpatia. Somos amigas de parque. Impossível não nota-las, porque caminham e conversam e falam sem parar, munidas de galhos caídos que usam como cajado.  Andam com postura ereta, cajado à frente do pé direito e pé esquerdo alinhado com ele. É assim que se faz, ouço uma explicar à outra...e, logo em seguida, as vejo cortando o ar, brandindo os cajados como " Quixotes"ensandecidas atacando secretos moinhos de vento. Depois os colocam no porta malas do carro e vão embora. Dia desses, as encontrei à procura de cajados novos, e me explicaram que o carro tinha ido para a revisão e voltara limpo e sem os galhos. A dona do carro me explicou que ligou e perguntou porque deram fim ao cajado dela. Foi uma confusão! Explica daqui e procura dali, informaram que só jogaram fora uns galhos tortos e secos que estavam no porta malas." Pois é, pois é, era isso mesmo". E se divertem imaginando que viraram assunto do pessoal da agência. Sabe-se lá quantas coisas estranhas as pessoas esquecem nos carros! E riem, felizes," devem comentar de uma doida que carrega pau seco no carro." Aquele dia rendeu risos e reiterei a certeza de que bom humor é de graça e é insuperável na defesa da saúde. Baixa a ansiedade e controla o estresse.

Das Expectativas:
No meu grupo de canto coral, o Tempo Certo, eu gostaria de cantar como a Mônica Salmaso, o que me daria prestígio e reconhecimento imediatos, mas me tiraria dali. Eu não caberia mais ali, ficaria grande demais. Pesando prós e contras do que me interessa e importa, sem dúvida eu sairia perdendo. Então, pés fincados no chão e olho enfiado em mim, entendi que a minha expectativa seria a de cantar melhor do que eu. O que tem sido dificílimo, não porque eu cante bem, mas porque, tirando a facilidade que tenho em decorar as letras das músicas, tudo o mais me é difícil - afinação, uso do diafragma, respiração correta e no momento certo, postura no palco e por aí vai. Minhas amigas dizem que tenho melhorado bastante. Sem desconsiderar a opinião delas, me sentiria mais segura com a chancela do nosso querido regente. Aguardo.

Das Legitimidades:
Quando me lastreio como faço agora - por necessidade e correção de rota - me socorro de mim - e, ciente dos meus recursos, faço um caldo de cozimento brando, reduzo, decanto e decido o próximo passo. É tempo de seguir devagar, sem enfrentamentos. A velhice - não tenho pudores em usar a palavra certa - é tempo de relações legítimas, de clareza, de escolhas que nos façam bem, de profundo amor próprio.
É tempo de lealdade e confiança!


  




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não Para Abrir Vidros de Palmito

"Fica, oh brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar."
                          Eu e a Brisa
                          Johnny Alf


Jesus sabia de vinho, de peixe, de pão e de compaixão. Sabia tanto que os multiplicava de acordo com a demanda. Maria sabia do filho e entendia de amor e de dor. E tem São Longuinho, a quem apelo sempre que perco óculos, chaves, celular... e me ponho a procurar diligentemente, pois as coisas de pedir ajuda funcionam muito bem quando fazemos a nossa parte e, ao encontrar o que perdi, lhe pago os três pulinhos acertados. Dever pra Santo não é uma boa ideia porque, logo ali, precisaremos de seus préstimos. A Maria, peço proteção para mim e para os meus, porque de bençãos as mães entendem. De promessas, fico com os pulinhos contratados com o Santo que encontra coisas perdidas. Ciosa com as dívidas, só contrato as que posso pagar. A Jesus não peço nada, porque ele já deu tudo. Dia desses fiz um peixe fresco, que comi com um pão escuro e bebi um vinho bom. Alinhei ideia e coração e sumiram tumulto e descompasso. Me senti bem.

Quando a vida muda o rumo e não manda aviso, a gente se embaralha um pouco, mas sabe que deve prestar atenção, até descobrir aonde será o nosso lugar no rearranjo novo. No mais das vezes só precisa trocar de pensamento, por isso eu acho que quem envelhece é mais adaptável do que os mais novos, pois isso, de mudar sentimento e pensamento, é coisa pra quem aprendeu um pouco da vida.
Porém, na mudança, a gente se leva toda. Nada de deixar, pelo caminho, nenhum pedaço de si. Como o espírito, e aqui discordo de novo com o lugar comum de que " velho bacana tem espírito jovem". Nada disso! Meu espírito e eu nascemos no mesmo dia e estamos a fazer aniversário por por mais de 60 anos, sempre juntos. Claro que, quando nos mudamos, ele leva as manias que adquiriu. Coisa de querer um espaço para se instalar com o conforto que ele sabe que o meu corpo necessita e que eu, mulher de poucas dores, não tenho muitas exigências. Mas é imprescindível que bata sol, entre luz e caibam meus livros, minhas panelas e meus amores.

De uns tempos para cá, os vidros de palmito vêm com um lacre na tampa que, removido com facilidade, permite a entrada do ar e a tampa abre sem esforço. O palmito entra na salada e acompanha do peixe à picanha. Os vinhos, com os novos saca rolhas, também dispensam força física e contém, em si, o que prometem.
Tudo o mais é bônus.
Precisamos, uns dos outros - para as imprecisões e as partilhas -  foi Jesus que falou!
Para consertar  coisas, a gente chama um técnico.
 

















quarta-feira, 7 de junho de 2017

Depois da Aula

" Nada do que foi será
   De novo do jeito que já foi um dia
   Tudo passa 
   Tudo sempre passará"
             Lulu Santos

Estamos, salvo as honrosas exceções de sempre, massacrando Tom Jobim para uma agendada apresentação da Escola, no segundo semestre. O professor, abnegado como são os convictos, se empenha e ensaia e insiste.
Intimamos família e amigos para assistir, numa destemida prova de coragem. Meus filhos, avisados, já disseram que, infelizmente, não poderão comparecer, pois têm compromisso neste dia. Vocês nem sabem qual é a data, aleguei. Reafirmaram o compromisso. Desconfio que seja um caso de vergonha alheia...
Contenho os voleios das mãos, depois do professor me alertar, "não faça a regência, por favor!" Como nunca uso roupas sem bolsos, depois daquele aviso, deixo as mãos contidas, neles...mas de pouco adianta, sacolejo e remelexo e penso que o professor tenha se arrependido do que disse...

Depois da aula, merecidamente, vamos relaxar que ninguém é de ferro. A escolha do lugar é feita de acordo com o clima, assim como o que vamos beber. Nas noites de agora, mais frias, a escolha vai para sopas e vinhos e os assuntos são todos... e sempre saímos com os problemas resolvidos. Se não os nossos, os das outras, porque, como dizia meu pai, "fácil é resolver o problema alheio"


Num desses dias, assistimos a uma apresentação de Fado, de uma portuguesa bonita que cantava lindamente, "De quem eu gosto, nem às paredes confesso"... e nós, sem vergonha e sem noção, com o vinho a nos dar coragem, fazíamos coro à interpretação da moça. Divertidíssimo!
Como já fazia um tempo razoável daquele dia, decidimos voltar lá. A informação que tínhamos era que a moça voltara para Portugal e que o lugar não estava mais apresentando shows.
No entanto, logo ao chegar, a mais sagaz de nós observou "a moça que nos recebeu não é a   fadista? " É mesmo! Ela, porém, não demonstrou que nos reconhecera. Talvez tenha se preservado para não correr o risco de nos ouvir cantar e não nos interessava, nem um pouco, que ela nos reconhecesse. O encanto daquele canto ficou naquela noite, daquele dia. Uma lembrança boa para nós. Para ela, foi parte do trabalho.
Quando a vida acontece assim, fluida e leve como deve, é muito bom. É outro momento, outra percepção.
Um sentimento novo.

                           

sábado, 27 de maio de 2017

Palavras em Desuso

"Com que grandeza
  Ele se elevou
  Às maiores baixezas!"
        Millôr Fernandes

Circula, nas redes sociais, um vídeo onde a poeta, professora e gente de bem, a mineira Adélia Prado, pede, ao auditório lotado reunido para ouvi-la "um minuto de silêncio, um encontro com a nossa coisa mais profunda e nesse minuto de silêncio a gente pedir pelo Brasil" e convida o auditório a rezar um Pai Nosso cantado, junto com ela." É a primeira vez que faço isso," diz, com verdade absoluta. É emocionante.

Evito usar a expressão "no meu tempo" porque, além de um auto descarte que não precisamos cometer, esse, de nos colocar deliberadamente à margem da estrada antes da hora, tem quem o faça por nós, com absoluta competência. Nada contra envelhecer, considerando-se a alternativa. É que hoje lembrei de uma palavra lá, das antigas, que não ouço há muito tempo e que se usava bastante. Lambança!  que lembra lambuza. Podemos dizer que quem faz lambança se lambuza.

No Brasil de nossos dias a lambança generalizada deixa o país todo lambuzado. A corrupção e a roubalheira são tão grandes e diversificadas, que sugiro aos políticos de bem, numa reação às listas de investigados que não param de aumentar, que se reúnam e elaborem, uma lista dos políticos que não aparecem em lista nenhuma! Serviria de sinalizador, para que nós, eleitores, tivéssemos em quem votar nas próximas eleições. Além de alento para os que acreditam que há muito politico comprometido com o bem comum. Eu sou uma destas pessoas. Acredito que existam políticos ilibados (outra palavra que quase não se usa). A divulgação do nome deles seria um serviço que prestariam ao País, de graça, custo zero. É só divulgar nas redes sociais. É um começo.

As lambanças, quando descobertas, expõem  o lambanceiro à execração pública! Ele deveria sentir uma coisa, também em desuso, que se chama Vergonha. Tudo bem, não teve vergonha de se envolver na roubalheira, era o esquema, não tinha como escapar, enfim... mas o que vemos é que o sujeito não sente vergonha, nenhum constrangimento mesmo com o nome exposto, mesmo detido, condenado, preso!
Penso  nas mães e nos pais desses políticos, orgulhosos com a carreira do filho, que, não raro, moram em cidadezinhas pequenas deste Brasil tão grande e que agora sentem, eles, a vergonha que os filhos deveriam sentir, e talvez se perguntem," onde foi que eu errei?"

Recuso-me a acreditar que somos corruptos por natureza e que" político é tudo ladrão," não aceito o conformismo dos que dizem, "sempre foi assim, vem desde Cabral"....Qual?...
Acredito que o Brasil passa por um profundo processo de mudança, e que o caminho para melhorar é através da Política Comprometida com o Bem do Brasil e dos Brasileiros. Acredito que a nossa jovem democracia precisa urgentemente de cuidado e zelo, muito trabalho e empenho de todas as pessoas de boa vontade.
Não levanto bandeiras e nem defendo ideologias. Sei de mim,  não sou corrupta, não roubo, não participo de conluios e nem sei como se faz para subornar alguém.
Passo por ingênua, (será?) mas tenho absoluta convicção de que o Brasil precisa, urgentemente, que as pessoas de bem se manifestem e se posicionem. Nesse momento, não existe nenhuma ideologia política no País. É um salve-se quem puder!
Precisamos de paz, foco e trabalho!








                      

sábado, 20 de maio de 2017

Por Que É Maio e Quando Três é Multidão


É hoje a cerimônia de formatura da minha filha - Mariana - no curso de Doutorado em História da Arte em Dallas, nos EUA. Foi um longo caminho o que ela percorreu. Estudiosa e disciplinada, desde sempre foi atrás de aprender. Lembro do dia em que, menina de 9 ou 10 anos, aluna de pintura do Prof. Luiz Carlos de Andrade Lima, ele me disse : " Não sei o que essa menina vai ser, no futuro, mas sei que será alguma coisa ligada à arquitetura, à arte, aos museus." Lamento que ele não esteja mais aqui para saber que a previsão se cumpriu, inteirinha.

De mim, sei que gostaria muito de estar lá, presente, para celebrar com ela. Nós, as mães, acreditamos que formaturas, casamentos, nascimentos de netos, esses acontecimentos marcantes na vida dos filhos são ocasiões em que estaremos presentes e ponto. Mas nem sempre é assim. Nas voltas que a vida dá, tem horas em que oceanos e fuso horário nos separam, mas coração e pensamento, que não precisam de avião nem passaporte, voam e chegam junto e ficamos felizes como se estivéssemos lá.
É o que importa.

Quando Três É Multidão 

O estabelecido é que o grupo comemore uma vez na semana. Esse é o Estatuto.
Nossa constituição é escrita sem letras e o papel é inexistente. E como funciona! A dinâmica muda de acordo com a composição do dia. A base é o prazer de estar junto. E como é rica de intuição e de sextos sentidos uma pessoa que aprende com o que sente, com o que troca, com o que descarta....
Só não tem sessão, é claro, se acontecer de ficar uma só, mas isso nunca aconteceu.
Quando garantimos nosso próprio divertimento, fortalecemos o coração e a imunidade. Ficamos aptos para enfrentar dificuldades e perceber alegrias. Esse tipo de alegria que sinto hoje, misturada com um orgulho bom pela formatura da minha filha, mesmo que eu não tenha ido.
Peço emprestados à Alice, os votos que ela postou, e os repito aqui:
"Guria!! Sobe naquele palco e arrasa na caminhada com sua roupa de doutora!"



















sábado, 13 de maio de 2017

Continue Sendo!

"Qual seria a sua idade se você não 
  soubesse quantos anos você tem? "
                                      Confúcio

O uso inadequado e abusivo do gerúndio, do que reclamamos tanto e com razão, como
a " senhora vai estar participando", ou " nós vamos estar lhe comunicando" e outras expressões similares, deu à  Forma Nominal  do verbo uma fama injusta e imerecida. A característica principal do gerúndio é que ele indica uma ação contínua, que está, esteve ou estará em andamento. É a ação acontecendo! Digo isso porque quero defende-lo, por injustiçado.

Li uma entrevista com o ator Marco Nanini,  em que ele fala sobre envelhecimento e suas sequelas com a naturalidade dos que aprenderam com a vida, ... "nada me assusta porque são coisas esperadas."  Tão certo como não saber o que o futuro nos reserva, é saber que, com o tempo, a nossa manutenção, digamos assim, fica mais frequente e abrangente. Ir ao médico é uma atitude necessária, porém destemida. O primeiro que consultamos, após checar os nossos exames e nos medicar, nos encaminha para outro, que, por sua vez, nos encaminha para um terceiro. Faz parte. O consenso é que precisamos caminhar muito, beber pouco, comer menos, fumar nada. Por isso, sugiro que comecemos a mudar a maneira como trocamos cumprimentos. Ao felicitar pessoas que queremos bem, fica bom dizer: Desejo que você continue sendo! Nos acostumamos a desejar que a pessoa continue sendo tão amiga ou divertida ou prestativa. etc.... É muito! Continuar sendo não é pouco. Do contrário, é tudo. É a grande questão! Sendo o que é, sendo o que acredita. Devemos desejar sorte também, para todo o resto.  A gente vai indo, cuidando aqui, mantendo ali... e vai levando...

De Mães e de Filhos

Minha sogra dizia - de filhos - "desde que, nunca mais". São eles que nos fazem  mães e sempre será deles o nosso amor sem medida. São objetos do nosso orgulho, dos nossos pedidos de proteção e bençãos. Desejamos que tenham todos os sucessos e que a vida os trate com justiça e gentileza. Foi neles que pousamos - maravilhadas - o primeiro olhar de mãe e serão seus olhos que buscaremos com o derradeiro olhar.

As mães vem sendo santificadas e enaltecidas há muito tempo e de várias formas. Confesso que não gostaria de "padecer no paraíso" e também não acho bacana a versão "supermãe", a que dá conta de tudo. Uma nos coloca num sofrimento inescapável. A outra exige mais do que temos condições de dar.
Levemos a vida, mães e filhos, nos querendo bem, respeitando espaços e escolhas, nos socorrendo quando for preciso, sendo independentes e confiantes.

 Desejo que, neste domingo, Mães e Filhos comemorem com alegria,  porque um só existe por causa do outro. Aos que passarem o dia juntos, que o façam por mútuo querer, sem pressão e sem cobrança. Os que estão separados, que seja somente pela  distância física.










  

   





quarta-feira, 3 de maio de 2017

São Roupas Passadas....

"Escrever é ter a companhia
 do outro de nós que escreve."
                    Vergílio Ferreira

Ele se apresentou como "Apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior"... e se estabeleceu e contribuiu enormemente para o brilho e a importância da nossa música popular. Nos deixou, em 30 de abril, e já faz falta. Foi imprescindível nas playlist  da juventude dos anos 60/70 - quando gravávamos fitas cassetes que rebobinávamos com o auxílio de uma caneta Bic  e sabíamos todas as letras de cor.  Ainda sabemos. Belchior  percebeu, muito jovem, que o "passado é uma roupa que não nos serve mais"... que Elis Regina cantava lindamente.

Recebi o pedido gentil para "fazer parte de suas amizades" de uma leitora de Ribeirão Preto - Fátima - com a alegação de que "gosto muito do que você escreve", e trocamos informações onde ela diz que chegou aos meus escritos através da irmã  - Aparecida - e que "que fico feliz com tudo o que você posta". E como a felicidade é sempre generosa, fiquei feliz também. Nos conhecemos, dona Aparecida e eu, em um bazar de roupas usadas organizado pelas famílias dos cantores infanto-juvenis do Papo Coral  na Paidéia Escola de Música, cujo objetivo foi o de angariar fundos para viabilizar a aceitação do convite recebido da Câmara de Trento - na Itália - para que o Coral participe de um intercâmbio cultural no mês de junho. O neto dela e a minha neta fazem parte do Grupo.

Nestes tempos de sustentabilidade necessária, bazares de roupas usadas são um sucesso e proliferam em todo lugar. A ideia é boa e uma boa ideia é sempre um bom começo. Abrimos espaço em armários atulhados, nos livramos de coisas que não nos servem e que servirão para outra pessoa. Remanejamos e reciclamos. Arejamos casa e armário. É um movimento de vai e vem, porque também encontramos alguma pechincha que é a nossa cara. 

Acredito que, quando Belchior  compara os sentimentos que trazemos a uma roupa que não nos serve mais, ele nos convida a olhar para dentro para identificar o que nos atrapalha. Tem sentimentos que ficaram puídos e gastos e não suportam mais remendo. Tem aquele que nunca serviu direito, e sempre foi um desconforto usá-lo. Tem até um que usamos por empréstimo e passa da hora de devolver.
Fica o que é bom e trazemos conosco. Somos acumuladores, mas só de viver.