"Um dia todos iremos morrer, Snoopy! (Charlie)"
"Verdade, mas em todos os outros dias não. (Snoopy)"
Na entrada da cidade já se avista o cemitério. Situado no alto do morro que minha mãe chamava de Morro do Hadlich, toda vez que - dramática - bradava: "Só vou descansar quando estiver no Morro do Hadlich!" Tento ser o mais fiel possível aos fatos e peço para a minha amiga e assessora das urbanidades de Rio do Sul, a arquiteta e professora Maristela Macedo Poleza, que me dê uma luz sobre o assunto. Ela me informa que o morro do cemitério é conhecido como Morro dos Ledra e, ela esclarece - foi rebatizado com o sugestivo nome de Ladeira da Eternidade. Faz sentido e é bonito, pensei, porque quem descansa no alto já está mais perto do céu. Provavelmente, os Hadlich foram anteriores aos Ledra. Cercada de morros, a cidade cresceu na confluência dos rios Itajaí do Sul e Itajaí do Oeste que, juntos, se transformam no rio Itajaí-Açu.
Estacionei logo na entrada, na parte plana e calçada em frente ao prédio da administração onde ficam os livros com os registros dos que estão sepultados ali.
Munida de uma braçada de dálias - alaranjadas, dobradas, vermelhas, rosadas - comecei a subida quando um funcionário do cemitério me advertiu: Dona, não pode colocar flores com água por causa da dengue. Só flor de plástico ou de pano, a senhora compra no Vavá, sabe onde é? A senhora é daqui? perguntou, esticando o olho para a placa do carro. Larguei as flores, conformada. Vale a intenção, pensei. Dos rituais que criamos para dar significâncias à existência, nenhum é mais legítimo na intenção do que o ato de levar flores aos mortos. Vou até o túmulo dos meus, sem flor, então. Retomei a subida certa de que localizaria o lugar. Sentia o sol a me queimar o rosto e o olhar dos três a me queimar as costas. Sabia que ficava perto da rua principal, acima da cruz, do lado esquerdo.
Andei, procurei, subi, desci, fui para a direita, voltei pra esquerda. Desisti.
Ao descer vi que os funcionários continuavam de olho pregado em mim. Dia calmo, nenhum enterro, os coveiros estavam à toa. Achou? perguntou o mais falante. Não, não sei, mudou muito.
Ah, a senhora sabe o dia do enterro do último parente? Sei, disse. É fácil, a gente procura no livro, entra aqui. Pelo menos, dentro do escritório tinha uma sombra benfazeja. Informei a data e eis que o sujeito grita: A senhora é parente do fulano? e do ciclano? Sim, sou irmã deles. Ah, meu Deus do Céu, eu conheci a tua família! (intimidade instalada de imediato, acabara a curiosidade que a placa de Curitiba despertara) eu te levo lá, sei onde fica.
Nossa Senhora! Eita família que se acabou! Morreu tudo! Não, eu estou viva, e tenho um irmão vivo também.
Subimos, ele falando sem parar, insistindo na desgraceira das mortes dos meus, até que chegamos e o moço, num repente de respeito disse, vou te deixar sozinha, pra rezares um pouco, tá? assenti com a cabeça e agradeci. Ele se afastou uns três ou quatro passos, voltou-se e perguntou -Vem cá, não vais me perguntar como eu conheço todo mundo? teu pai, tua mãe, teus irmãos?
Acho que você vai me contar de qualquer jeito, respondi. E ele, abrindo um sorriso largo - eu era jardineiro na casa de vocês, boba! tua mãe me contratou quando o fulano (jardineiro famoso na cidade) começou a se "achar" e cobrar muito caro. Também fui jardineiro do teu tio. Nossa Senhora! E aquele teu primo, hein?
domingo, 15 de outubro de 2017
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Males Que Vêm Pra Bem
Homem Para Casar
A manicure, olhos vermelhos, fazia seu trabalho de cabeça baixa, sem olhar para o lado. A mulher, freguesa antiga, estranhou tanto silêncio e perguntou: O que houve? Você parece tão triste. E a moça desabou. Casamento marcado, vestido de noiva já na segunda prova, todo mundo convidado e o noivo desistiu de tudo. Do casório e dela. Alegou ser muito jovem, que ela era "moça pra casar", e não se sentia preparado para a responsabilidade de assumir família. A última coisa que queria era magoá-la "você não merece", desejo todas as felicidades na sua vida, etceteras e tais... e sumiu.
Minha vida acabou! disse a moça, entre lágrimas e borrões nas unhas da freguesa.
Acabou coisa nenhuma, menina bonita! Hoje você não enxerga, está humilhada, mas saiba que foi bom. Ele desistiu quase na porta da igreja, concordo. Vai dar trabalho e já deu prejuízo, mas passa. Do machismo, o mais pernicioso é o que vem disfarçado de um enganoso elogio. Moça pra casar, depois recatada e do lar, a mulher é colocada num nicho para que se acomode e não incomode. De moças para não casar, conheço as freiras, celibatárias, por exigência da religião e total anuência delas.
Jovem como é, essa desilusão é o impulso que precisa para não cair na armadilha dos rótulos. Dê atenção ao homem que vê em você uma mulher, sem apostos.
Uma mulher para tudo. Para confiar, confidenciar, para amar, enfim.
Ao encontrar um moço assim, invista nele. Pode ser que vocês decidam se casar. Ou não.
Bom Uso da Fé
A diarista ligou, aflita, justificando a falta porque estava no hospital, internando o pai da filha. Ele me chamou, está com muita febre, tremendo todo e foi direto para a UTI. A senhora acha que ele vai morrer? Está medicado, disse a patroa, vamos ver como a coisa evolui.
Apareceu na semana seguinte, abatida e com um papel na mão, que entregou em silêncio. Era o resultado - negativo - de um exame de HIV que havia feito. Ele estava com o vírus, disse. Ficou internado três dias e não resistiu. Faz anos que a gente se separou, mas fiquei com medo, fiz o exame. Eu pedi tanto a Deus para que ele mudasse, voltasse pra mim, cuidasse da filha. Fiz promessa, fiz novena. Certo que tinha vários filhos, de mães diferentes, mas ele dizia que gostava tanto de mim...
Agora, veja a senhora como Deus é bom! Por mais que eu pedisse, Ele não me atendia. Me reservou outro destino. Me queria com saúde, para que eu cuidasse bem da menina.
Com certeza, concordou a patroa. Deus sempre sabe o que faz.
A manicure, olhos vermelhos, fazia seu trabalho de cabeça baixa, sem olhar para o lado. A mulher, freguesa antiga, estranhou tanto silêncio e perguntou: O que houve? Você parece tão triste. E a moça desabou. Casamento marcado, vestido de noiva já na segunda prova, todo mundo convidado e o noivo desistiu de tudo. Do casório e dela. Alegou ser muito jovem, que ela era "moça pra casar", e não se sentia preparado para a responsabilidade de assumir família. A última coisa que queria era magoá-la "você não merece", desejo todas as felicidades na sua vida, etceteras e tais... e sumiu.
Minha vida acabou! disse a moça, entre lágrimas e borrões nas unhas da freguesa.
Acabou coisa nenhuma, menina bonita! Hoje você não enxerga, está humilhada, mas saiba que foi bom. Ele desistiu quase na porta da igreja, concordo. Vai dar trabalho e já deu prejuízo, mas passa. Do machismo, o mais pernicioso é o que vem disfarçado de um enganoso elogio. Moça pra casar, depois recatada e do lar, a mulher é colocada num nicho para que se acomode e não incomode. De moças para não casar, conheço as freiras, celibatárias, por exigência da religião e total anuência delas.
Jovem como é, essa desilusão é o impulso que precisa para não cair na armadilha dos rótulos. Dê atenção ao homem que vê em você uma mulher, sem apostos.
Uma mulher para tudo. Para confiar, confidenciar, para amar, enfim.
Ao encontrar um moço assim, invista nele. Pode ser que vocês decidam se casar. Ou não.
Bom Uso da Fé
A diarista ligou, aflita, justificando a falta porque estava no hospital, internando o pai da filha. Ele me chamou, está com muita febre, tremendo todo e foi direto para a UTI. A senhora acha que ele vai morrer? Está medicado, disse a patroa, vamos ver como a coisa evolui.
Apareceu na semana seguinte, abatida e com um papel na mão, que entregou em silêncio. Era o resultado - negativo - de um exame de HIV que havia feito. Ele estava com o vírus, disse. Ficou internado três dias e não resistiu. Faz anos que a gente se separou, mas fiquei com medo, fiz o exame. Eu pedi tanto a Deus para que ele mudasse, voltasse pra mim, cuidasse da filha. Fiz promessa, fiz novena. Certo que tinha vários filhos, de mães diferentes, mas ele dizia que gostava tanto de mim...
Agora, veja a senhora como Deus é bom! Por mais que eu pedisse, Ele não me atendia. Me reservou outro destino. Me queria com saúde, para que eu cuidasse bem da menina.
Com certeza, concordou a patroa. Deus sempre sabe o que faz.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Questões Existenciais e Suas Soluções Mágicas.
"A mente que se abre a uma nova
ideia, jamais voltará ao seu tamanho original"
ideia, jamais voltará ao seu tamanho original"
Albert Einstein
Além do domingo oficial - o outro, que determinei que fosse - é nas terças-feiras e dobra as minhas chances do que esperamos dele - do domingo - a cada sete dias. Fiz isso porque andava desiludida com o retorno do oficial e também porque, no acumulado dos anos, aprendemos a ser previdentes. Somado ao casaquinho e o guarda chuva, não sou pega desprevenida; e a terça-feira, sem a obrigação de nos prover de felicidade, sempre dá mais do que se espera dela. É aí que aprendo mais uma. Desobrigo o domingo e ele tem me surpreendido. Uma chance de 100 % de ganho por semana é um investimento fabuloso! Invisto em mim e cabe a mim gerenciar os meus ativos. O índice de ganhos é altíssimo! Meus planos são individuais, mas não solitários, e sempre de curto prazo. Sem esperar nenhum desdobramento as adesões acontecem, espontâneas.
Numa terça feira dessas, neste setembro quente - ideal pra boteco e chopp - nos instalamos em mesa ao ar livre ao lado de um grupo grande, com o papo já engrenado. Impossível não ouvir o assunto. Discutiam sobre sorte e azar, fatalidade e destino, escolhas e suas consequências e cada um argumentava na defesa do seu ponto de vista. Sem perceber e por isso mesmo sem disfarçar, partimos do ponto em que estavam e começamos a concordar e a discordar com um e com outro numa apropriação indevida de assunto alheio. Até que eles perceberam, pararam de falar de repente e olharam para nós. O grupo todo! O constrangimento durou só uns segundos, porque um deles falou: Ótimo! Vamos ouvir opiniões diferentes, outros pontos de vista e foi abrindo a roda, puxando cadeira, nos convidando a participar da discussão. Pegamos o fio da conversa no ato e foi muito divertido resolver essas grandes questões existenciais como só acontece em mesa de bar. Gosto de filosofia de boteco porque tudo se resolve, tudo se ajeita, desde que ninguém se dê muita importância, muita seriedade. Vale pela diversão que é, e vale muito. Certezas absolutas são prerrogativas dos jovens. Já tivemos as nossas.
Quando acordei, aquele sonho me pareceu tão possível, tão viável, que custei a aceitar que tenha sido isso - um sonho bom. E me lembrei da igrejinha onde casei, numa outra vida, tão distante, mas que já fez parte da minha. Acima do altar, em letras góticas, pretas, está escrito:
"Paz Na Terra Aos Homens De Boa Vontade" (Lucas 2:14)
Nesses tempos de posições polarizadas, é disso que precisamos. Boa Vontade uns com os outros.
Não custa nada e por isso não tem preço.
Quando acordei, aquele sonho me pareceu tão possível, tão viável, que custei a aceitar que tenha sido isso - um sonho bom. E me lembrei da igrejinha onde casei, numa outra vida, tão distante, mas que já fez parte da minha. Acima do altar, em letras góticas, pretas, está escrito:
"Paz Na Terra Aos Homens De Boa Vontade" (Lucas 2:14)
Nesses tempos de posições polarizadas, é disso que precisamos. Boa Vontade uns com os outros.
Não custa nada e por isso não tem preço.
sábado, 16 de setembro de 2017
Como a Minha Avó Virou um Furacão
"Não ignoro as ameaças que o futuro encerra,
como também não ignoro que é o meu passado
que define a minha abertura para o futuro.
O meu passado é a referência que me projeta
e que eu devo ultrapassar."
Simone de Beauvoir - Carambolas Azuis
Minha avó era alta, magra e austera. Quando meu avô desistiu de tudo, ela se viu viúva com seis filhos, o mais velho por volta dos 10 anos. Mal entrara nos trinta numa época em que - à mulher - cabia obedecer pai ou marido, e na falta deles, o homem que fosse o parente mais próximo. Criou os filhos com a ajuda da família e - eles casados - passava temporadas ora com um, ora com outro. Morava mais tempo conosco e lembro dela às voltas com lãs e linhas, a tecer colchas e toalhas de crochê numa demanda que me parecia eterna. Costurava bem. Também plantava ervilhas - lembro de mim, abrindo as favas e as comendo cruas, ali, na horta. Nesses tempos de comida saudável não consigo imaginar nada mais orgânico do que aquilo. E plantava aipim e milho e flor. Precisei de muitos anos para entender o privilégio que era comer a sua moranga com açúcar mascavo que servia com costeletas de porco.
Aprendeu a falar a ler e a escrever em alemão - português em paralelo - até que, nos tempos intolerantes da segunda guerra, nunca mais falou alemão, não ensinou aos filhos, os netos não aprenderam e perdemos todos. Adolescente, estudei por uns tempos, fiz aulas particulares, mas não levei a sério, achei difícil, mas ela me confiou os cadernos que preservara de sua meninice, escritos à nanquim, com letras góticas desenhadas com beleza e arte, e a minha pouca idade não permitiu que eu entendesse a dimensão do gesto e a importância que tinham aqueles escritos.
Mas foi com ela - minha avó que não desperdiçava nada, nem risos, nem lágrimas - que construí a primeira relação de cumplicidade. Numa das vezes em que voltou, veio com uma novidade. Aprendera a fumar com um tio meu, o que criou uma encrenca enorme lá em casa. Minha mãe não suportava o cheiro e ela decidiu fumar escondido, numa rebeldia tardia.Vigiadas que éramos - ela por causa do cigarro e eu por causa de tudo um pouco ou por um pouco de tudo - nos unimos para enfrentar o inimigo comum. Eu comprava o cigarro e, antes de entrar em casa, jogava o maço para dentro do quarto dela, de maneira que ela não saia para comprá-los, mas fumava. Não se conheciam os malefícios do tabaco, ou não eram divulgados. Resisti à pressão da minha mãe que queria saber quem a abastecia, e me fez muito bem aquela transgressão que me conectava à minha avó. Foi ali que aprendi sobre confiança e lealdade. Cumplicidades são construções delicadas e preciosas que acontecem poucas vezes na vida.
Contida e discreta, minha avó jamais lembraria um furacão.
Mas seu nome era Irma.
como também não ignoro que é o meu passado
que define a minha abertura para o futuro.
O meu passado é a referência que me projeta
e que eu devo ultrapassar."
Simone de Beauvoir - Carambolas Azuis
Minha avó era alta, magra e austera. Quando meu avô desistiu de tudo, ela se viu viúva com seis filhos, o mais velho por volta dos 10 anos. Mal entrara nos trinta numa época em que - à mulher - cabia obedecer pai ou marido, e na falta deles, o homem que fosse o parente mais próximo. Criou os filhos com a ajuda da família e - eles casados - passava temporadas ora com um, ora com outro. Morava mais tempo conosco e lembro dela às voltas com lãs e linhas, a tecer colchas e toalhas de crochê numa demanda que me parecia eterna. Costurava bem. Também plantava ervilhas - lembro de mim, abrindo as favas e as comendo cruas, ali, na horta. Nesses tempos de comida saudável não consigo imaginar nada mais orgânico do que aquilo. E plantava aipim e milho e flor. Precisei de muitos anos para entender o privilégio que era comer a sua moranga com açúcar mascavo que servia com costeletas de porco.
Aprendeu a falar a ler e a escrever em alemão - português em paralelo - até que, nos tempos intolerantes da segunda guerra, nunca mais falou alemão, não ensinou aos filhos, os netos não aprenderam e perdemos todos. Adolescente, estudei por uns tempos, fiz aulas particulares, mas não levei a sério, achei difícil, mas ela me confiou os cadernos que preservara de sua meninice, escritos à nanquim, com letras góticas desenhadas com beleza e arte, e a minha pouca idade não permitiu que eu entendesse a dimensão do gesto e a importância que tinham aqueles escritos.
Mas foi com ela - minha avó que não desperdiçava nada, nem risos, nem lágrimas - que construí a primeira relação de cumplicidade. Numa das vezes em que voltou, veio com uma novidade. Aprendera a fumar com um tio meu, o que criou uma encrenca enorme lá em casa. Minha mãe não suportava o cheiro e ela decidiu fumar escondido, numa rebeldia tardia.Vigiadas que éramos - ela por causa do cigarro e eu por causa de tudo um pouco ou por um pouco de tudo - nos unimos para enfrentar o inimigo comum. Eu comprava o cigarro e, antes de entrar em casa, jogava o maço para dentro do quarto dela, de maneira que ela não saia para comprá-los, mas fumava. Não se conheciam os malefícios do tabaco, ou não eram divulgados. Resisti à pressão da minha mãe que queria saber quem a abastecia, e me fez muito bem aquela transgressão que me conectava à minha avó. Foi ali que aprendi sobre confiança e lealdade. Cumplicidades são construções delicadas e preciosas que acontecem poucas vezes na vida.
Contida e discreta, minha avó jamais lembraria um furacão.
Mas seu nome era Irma.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Vamos falar de Sagu
"A Paixão Passa. O Amor Lava e Cozinha"
Domínio Público
Ganhei dois vinhos. Num, a recomendação "P/sagu"
E agora? pensei - das coisas que não aprendi, uma delas é preparar sagu.
Tentei muitas receitas. Segui o passo a passo de cada uma. O resultado era o Sagu Solidário, versão Unidos Venceremos. Coisa para comer de garfo e faca. Com o tempo, evolui para o Sagu Carnavalesco, O Que Vinha Em Blocos... até que desisti. Desse desaprendizado aprendi que quando não dá - não adianta! Tem hora que é melhor reconhecer que a coisa não vai. Como pode ser tão difícil acertar o ponto dessa sobremesa corriqueira que reina, absoluta, em churrascarias de beira de estrada e é onipresente em todos os restaurantes por quilo? Comum em todo o sul, o sagu brasileiro é extraído da fécula da mandioca - ou aipim ou macaxeira - depende de onde você mora.
Falo isso porque existe outro - extraído de algumas espécies de palmeiras - curiosamente chamadas de saguzeiros e é consumido em larga escala, lá pras bandas do Extremo Oriente.
O nosso sagu, acertada a receita, fica com as bolinhas brilhantes e transparentes, tingidas de roxo pelo vinho e que se unem por afinidade e se separam por individualidade. Cada uma é inteira como tudo deveria ser. Não sei fazer sagu, mas é até possível filosofar com ele - daqui - da mesa da minha cozinha.
Das lembranças fortuitas que trazemos, lembro de uma ocasião em que eu, indecisa em frente de uma vitrine de confeitaria, vi se aproximar um menino de uns seis ou sete anos que, liberado para escolher pediu, taxativo, à moça atrás do balcão: Vou ficar com o saguzinho! A atendente explicou que aquilo era uma calda de frutas vermelhas, o que deixou o menino, antes tão seguro, completamente confuso e decepcionado. Que sabia ele de frutas vermelhas nesse nosso Brasil de bananas e melancias?
Demorou para se convencer de que não tinha sagu na confeitaria e com o olhar conformado, disse, "então vai um brigadeiro". Faz tempo isso, ainda não havia brigadeiros gourmet, o que teria sido uma covardia com o menino. Deve ser adulto agora e espero que continue sabendo o que quer.
Persistia a questão de como usar o vinho, que era muito superior a qualquer um que se usa para fazer sagu. Optei por sobrecoxas de galinha caipira que, na falta de conhaque, flambei com cachaça Boazinha e cozinhei devagar no vinho Ficou bom. Servi com polenta mole, cozida no fogo baixo em panela grossa.
O prato fez bonito na companhia do vinho - o outro - que, por sua vez, se comportou muito bem!
Só para esclarecer, a sobremesa não foi sagu.
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Resposta à Carta
Quando a gente anda sempre
em frente, não pode ir muito longe...
Saint Exupèry
Não lembrava dela, da amiga que me enviou uma carta pelo correio escrita em papel fino. Nada sabia da vida que levou, das escolhas que fez, de como está agora.
Contou de si. Falou que casou cedo, teve filhos nova, largou emprego, mudou de casa. Foi e voltou. Acompanhou marido, criou os filhos, socorreu netos, perdeu e ganhou.
Na vida corrida esqueci da carta, não respondi.
Me escreveu outra, falou dos sonhos que partilhamos, do que queríamos da vida, me fez lembrar dos planos, dos vinte anos...me desafiou e insistiu. Foi entrando devagarinho, essa amiga que mexe comigo. Me perguntou de amores, de trocas, de dores. Quis saber como me saí, nessas coisas de sentir. Me irritou, briguei com ela, mandei-a ir. Ela voltou, impertinente, e declarou: Daqui não saio. Daqui ninguém me tira! Me recolhi, não dei-lhe ouvidos. Qual é a dela? me perguntei. O que acha que pode? Como me invade, tumultua minh'alma, me faz cobranças? E ela ficou, me incomodou e decretou: Me ouça, é a sua chance! Resgate-se e siga adiante! Falou de nós - chata, insistente.
Cedi, enfim! Me invada agora, então lhe disse: Do que precisa para deixar-me em paz, obstinada?
E ela, então: Nada preciso, você que assuma o que a consome, lhe dê o nome.
E respondi, de pronto, assim, num jorro só:
Perdi confiança, perdi caminhos, o chão faltou.
Amigo vão é o que eu tinha, sem ilusão.
Amor ausente, amor descrente, tudo acabou!
Ficou feliz, a minha amiga, ao fim de tudo.
Argumentou "é isso aí o que é preciso"
Realidade, sem ilusão, sem esperança.
Amor não era, nem amizade, e nem confiança.
E me fez bem esse rompante, o desabafo.
Tinha razão a amiga chata, perseverante.
Fechar história, dar-lhe um final, desembaraça.
É o que permite, viabiliza, seguir adiante.
em frente, não pode ir muito longe...
Saint Exupèry
Não lembrava dela, da amiga que me enviou uma carta pelo correio escrita em papel fino. Nada sabia da vida que levou, das escolhas que fez, de como está agora.
Contou de si. Falou que casou cedo, teve filhos nova, largou emprego, mudou de casa. Foi e voltou. Acompanhou marido, criou os filhos, socorreu netos, perdeu e ganhou.
Na vida corrida esqueci da carta, não respondi.
Me escreveu outra, falou dos sonhos que partilhamos, do que queríamos da vida, me fez lembrar dos planos, dos vinte anos...me desafiou e insistiu. Foi entrando devagarinho, essa amiga que mexe comigo. Me perguntou de amores, de trocas, de dores. Quis saber como me saí, nessas coisas de sentir. Me irritou, briguei com ela, mandei-a ir. Ela voltou, impertinente, e declarou: Daqui não saio. Daqui ninguém me tira! Me recolhi, não dei-lhe ouvidos. Qual é a dela? me perguntei. O que acha que pode? Como me invade, tumultua minh'alma, me faz cobranças? E ela ficou, me incomodou e decretou: Me ouça, é a sua chance! Resgate-se e siga adiante! Falou de nós - chata, insistente.
Cedi, enfim! Me invada agora, então lhe disse: Do que precisa para deixar-me em paz, obstinada?
E ela, então: Nada preciso, você que assuma o que a consome, lhe dê o nome.
E respondi, de pronto, assim, num jorro só:
Perdi confiança, perdi caminhos, o chão faltou.
Amigo vão é o que eu tinha, sem ilusão.
Amor ausente, amor descrente, tudo acabou!
Ficou feliz, a minha amiga, ao fim de tudo.
Argumentou "é isso aí o que é preciso"
Realidade, sem ilusão, sem esperança.
Amor não era, nem amizade, e nem confiança.
E me fez bem esse rompante, o desabafo.
Tinha razão a amiga chata, perseverante.
Fechar história, dar-lhe um final, desembaraça.
É o que permite, viabiliza, seguir adiante.
domingo, 13 de agosto de 2017
O Incunábulo
"Onde quer que você esteja,
esse é o ponto de partida."
Kabir Kabir- Índia 1440/1518
Empoleirada na cadeira alta da lanchonete do posto de gasolina - o carro na fila da ducha grátis -
mordisco um salgado e zapeio no celular. Entra uma mensagem da amiga que, da Alemanha, comenta da emoção que sente ao ler um livro - que já li - abastecidas de boas leituras que somos, ambas, por uma amiga comum. Tão feliz está com o precioso livro que zela para não amassar-lhe as páginas e comenta comigo "É um incunábulo"! Quando entra outra mensagem me desafiando a descobrir o significado de tão esdrúxulo vocábulo, eu já havia me socorrido do Sr. Google que me esclareceu: Substantivo masculino. 1. momento inicial, começo, origem, berço.
Adjetivo substantivo masculino. 2. diz-se de/ou livro impresso que data dos primeiros tempos da imprensa (até o ano de 1500)
Sendo do primeiro significado que falamos aqui, pergunto a ela: E não é de incunábulos em incunábulos que são feitos os nossos dias? Viver, enfim, não é um constante começar?
Dos guardanapos ordinários do posto de gasolina onde registro esses sentires, reflito que já não o são como antigamente...especialmente esses, de 15x15 cm, impermeáveis de um lado que, se não cumprem sua função primeira, se revelam adequadíssimos para receber os meus rabiscos pois, não sendo porosos e nem macios, resistem à fúria com que a caneta corre sobre eles.
Sempre achei fascinante escrever em guardanapos de bares e botecos - em impulsos incontroláveis - e é a terceira ou quarta vez que faço isso.Tenho gostado.
Em paralelo, mantenho uma conversa com a filha que está longe e ela pergunta:
Já almoçou, mãe?
E eu: estou comendo um salgado no posto de gasolina.
Ela, que adora "coxinha"(sem trocadilho) é uma coxinha, pelo menos?
Respondo: é um salgado integral de alho poró e frango, mas a cerveja redimiu o ultraje.
Salgado gurmê de posto, diz ela. Então, é coisa phina.
Me chamam. O carro está pronto. Ganhei o dia. E a vida segue....
esse é o ponto de partida."
Kabir Kabir- Índia 1440/1518
Empoleirada na cadeira alta da lanchonete do posto de gasolina - o carro na fila da ducha grátis -
mordisco um salgado e zapeio no celular. Entra uma mensagem da amiga que, da Alemanha, comenta da emoção que sente ao ler um livro - que já li - abastecidas de boas leituras que somos, ambas, por uma amiga comum. Tão feliz está com o precioso livro que zela para não amassar-lhe as páginas e comenta comigo "É um incunábulo"! Quando entra outra mensagem me desafiando a descobrir o significado de tão esdrúxulo vocábulo, eu já havia me socorrido do Sr. Google que me esclareceu: Substantivo masculino. 1. momento inicial, começo, origem, berço.
Adjetivo substantivo masculino. 2. diz-se de/ou livro impresso que data dos primeiros tempos da imprensa (até o ano de 1500)
Sendo do primeiro significado que falamos aqui, pergunto a ela: E não é de incunábulos em incunábulos que são feitos os nossos dias? Viver, enfim, não é um constante começar?
Dos guardanapos ordinários do posto de gasolina onde registro esses sentires, reflito que já não o são como antigamente...especialmente esses, de 15x15 cm, impermeáveis de um lado que, se não cumprem sua função primeira, se revelam adequadíssimos para receber os meus rabiscos pois, não sendo porosos e nem macios, resistem à fúria com que a caneta corre sobre eles.
Sempre achei fascinante escrever em guardanapos de bares e botecos - em impulsos incontroláveis - e é a terceira ou quarta vez que faço isso.Tenho gostado.
Em paralelo, mantenho uma conversa com a filha que está longe e ela pergunta:
Já almoçou, mãe?
E eu: estou comendo um salgado no posto de gasolina.
Ela, que adora "coxinha"(sem trocadilho) é uma coxinha, pelo menos?
Respondo: é um salgado integral de alho poró e frango, mas a cerveja redimiu o ultraje.
Salgado gurmê de posto, diz ela. Então, é coisa phina.
Me chamam. O carro está pronto. Ganhei o dia. E a vida segue....
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Agosto
"Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos
são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento."
Miryan Lucy de Resende
De agosto, lembro dos ventos, naqueles dias em que as brincadeiras tinham época certa. Agosto era mês de pandorgas. Para mim durou dos onze, quando ainda temos um pé na infância, até os treze ou catorze anos. A meninada, já toda crescida, usava a brincadeira como pretexto para se encontrar.
Eram os começos das primeiras paqueras, das paixonites agudas que duravam uma semana. Precisávamos de um motivo muito bem explicado para sair de casa e jogar conversa fora com os meninos, dois, três anos mais velhos.
Não lembro o nome do papel que usávamos. Era brilhante e fino e colava bem. Fervíamos araruta e água, o que resultava numa cola transparente que grudava tudo. Era mais garantida que a goma arábica, a mesma que ainda tem nos correios, naqueles potes de vidro com um pincel preso na tampa. A estrutura que fixava o papel tinha que ser de madeira fina e flexível e o ideal era o bambu. Tínhamos, na minha casa rolôs de bambu. Essas persianas ficavam atrás das cortinas de tecido para protegê-las do pó e escurecer o ambiente. Não era coisa de ficar à mostra, numa região onde a madeira abundante era a maior riqueza. São assim as coisas fartas, por mais especias que sejam não valem muito, até que escasseiem. Hoje esses rolôs são caros e continuam lindos.
Para mim era uma vantagem e tanto! Consegui respeito entre a meninada porque as pandorgas que eu fazia subiam bem, retas, impávidas, por conta da excelente estrutura de bambu que as deixava leves e robustas. Uma arte! Eu afrouxava o barbante fino e forte que unia as varetas das persianas da sala e as puxava com cuidado para não quebrá-las, ao mesmo tempo que torcia, desesperadamente, para que a minha mãe não descobrisse. Com a lógica própria da idade, achava que se eu tirasse aqui e ali, em cima e mais embaixo, um dia de uma, outro de outra, ficaria mais difícil da minha mãe perceber. O fato é que estraguei todas até que ela descobriu...mas isso é outra história...
Um dos meninos mais velhos, habilidoso na marcenaria, me deu de presente uma carretilha grande, de manivela firme e madeira avermelhada - lixada e linda - que abasteci de linha número 10 e que expandiu meus limites de céu. Foi um dos melhores presentes que ganhei na vida, não só pela evidente praticidade da engenhoca, mas pela distinção de ter sido escolhida para usar uma ferramenta que só os meninos possuíam. Foi maravilhoso me sentir uma igual.
Minha pandorga subia até eu perdê-la de vista e então eu a recolhia e ela começava a aparecer como um pontinho preto que eu reconhecia e ela vinha vindo, elegante, balançando a rabiola de argolas engatadas umas nas outras numa corrente colorida.
Escrevendo o texto que os ventos deste agosto me trouxe à lembrança, me dou conta de que nunca esqueci essa história, não tanto pela habilidade que tinha de confeccionar e empinar pandorgas e nem pela destruição das persianas da minha casa. O que me invade é a memória do que senti ao receber o presente que me colocava em pé de igualdade com os meninos empinadores de pipa.
são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento."
Miryan Lucy de Resende
De agosto, lembro dos ventos, naqueles dias em que as brincadeiras tinham época certa. Agosto era mês de pandorgas. Para mim durou dos onze, quando ainda temos um pé na infância, até os treze ou catorze anos. A meninada, já toda crescida, usava a brincadeira como pretexto para se encontrar.
Eram os começos das primeiras paqueras, das paixonites agudas que duravam uma semana. Precisávamos de um motivo muito bem explicado para sair de casa e jogar conversa fora com os meninos, dois, três anos mais velhos.
Não lembro o nome do papel que usávamos. Era brilhante e fino e colava bem. Fervíamos araruta e água, o que resultava numa cola transparente que grudava tudo. Era mais garantida que a goma arábica, a mesma que ainda tem nos correios, naqueles potes de vidro com um pincel preso na tampa. A estrutura que fixava o papel tinha que ser de madeira fina e flexível e o ideal era o bambu. Tínhamos, na minha casa rolôs de bambu. Essas persianas ficavam atrás das cortinas de tecido para protegê-las do pó e escurecer o ambiente. Não era coisa de ficar à mostra, numa região onde a madeira abundante era a maior riqueza. São assim as coisas fartas, por mais especias que sejam não valem muito, até que escasseiem. Hoje esses rolôs são caros e continuam lindos.
Para mim era uma vantagem e tanto! Consegui respeito entre a meninada porque as pandorgas que eu fazia subiam bem, retas, impávidas, por conta da excelente estrutura de bambu que as deixava leves e robustas. Uma arte! Eu afrouxava o barbante fino e forte que unia as varetas das persianas da sala e as puxava com cuidado para não quebrá-las, ao mesmo tempo que torcia, desesperadamente, para que a minha mãe não descobrisse. Com a lógica própria da idade, achava que se eu tirasse aqui e ali, em cima e mais embaixo, um dia de uma, outro de outra, ficaria mais difícil da minha mãe perceber. O fato é que estraguei todas até que ela descobriu...mas isso é outra história...
Um dos meninos mais velhos, habilidoso na marcenaria, me deu de presente uma carretilha grande, de manivela firme e madeira avermelhada - lixada e linda - que abasteci de linha número 10 e que expandiu meus limites de céu. Foi um dos melhores presentes que ganhei na vida, não só pela evidente praticidade da engenhoca, mas pela distinção de ter sido escolhida para usar uma ferramenta que só os meninos possuíam. Foi maravilhoso me sentir uma igual.
Minha pandorga subia até eu perdê-la de vista e então eu a recolhia e ela começava a aparecer como um pontinho preto que eu reconhecia e ela vinha vindo, elegante, balançando a rabiola de argolas engatadas umas nas outras numa corrente colorida.
Escrevendo o texto que os ventos deste agosto me trouxe à lembrança, me dou conta de que nunca esqueci essa história, não tanto pela habilidade que tinha de confeccionar e empinar pandorgas e nem pela destruição das persianas da minha casa. O que me invade é a memória do que senti ao receber o presente que me colocava em pé de igualdade com os meninos empinadores de pipa.
sábado, 29 de julho de 2017
A Viagem Que Não Fiz
"Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça..."
Artur Ribeiro
Entendi que decidiram ir atrás de vinho e bacalhau e todos os et cetera e tal - que tem lá - em Portugal. Não sei ao certo, porque as coisas que nos chegam vem com o olhar de quem nos conta. Enfim, queriam que eu escrevesse sobre a viagem que elas fizeram. Ora, se eu não fui, como posso descrever como foi? Sim, sim, mas a gente conta tudo direitinho e você organiza a narrativa. E começaram a falar, todas juntas, uma começava a contar um caso e a outra continuava ou interrompia, do jeito que só mulher sabe fazer e entender... E a cada lembrança, a cada história narrada, riam e se divertiam com o deleite das boas vivências. Contaram que cantaram fado - no palco - junto com a fadista e que, voltando a pé para o hotel, depois de um jantar animadíssimo, foram surpreendidas por uma chuva repentina e chegaram com cabelos e roupas pingando e se acabando de rir; que comeram bacalhau por uma vida inteira e que, de vinho, não se fartaram...
Munida das informações, dispensei-as. Espero corresponder às expectativas...
A primeira coisa que fiz foi ouvir uns fados para entrar no clima - os mais conhecidos - na voz de Amália Rodrigues e Francisco José e escolhi o De Quem Eu Gosto - para me inspirar - porque todo mundo conhece, muita gente gravou e tem uma letra maravilhosa. O compositor é Artur Ribeiro, nascido na cidade do Porto em 1924, com mais de mil obras entre canções e letras.
De modos que cá estou embebida de fado e acompanhada do Porto ou embebida de Porto e acompanhada do fado - tanto faz - no esforço de verter uma história que não é minha. É a primeira vez que conto uma viagem que não fiz e estou curtindo bastante; tá certo que me acompanha a nostalgia do canto e tenho a ajuda do vinho que me trouxeram - sabem das coisas - essas meninas.
Foi bonita e divertida a viagem que fizeram essas sete mulheres maduras de idades variadas. Têm a habilidade de viver que a experiência confere e legitima. Cometeram erros e revisaram certezas. Recomeçaram muitas vezes. Levantaram outras tantas. Têm a percepção serena de que a finitude é inevitável e que devem a si mesmas as alegrias que dão sentido à existência. Sabem como levar a vida de um jeito bom. E levam!
Viagens boas são as que estamos em boa companhia a começar pela própria.
Sem que eu te peça
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça..."
Artur Ribeiro
Entendi que decidiram ir atrás de vinho e bacalhau e todos os et cetera e tal - que tem lá - em Portugal. Não sei ao certo, porque as coisas que nos chegam vem com o olhar de quem nos conta. Enfim, queriam que eu escrevesse sobre a viagem que elas fizeram. Ora, se eu não fui, como posso descrever como foi? Sim, sim, mas a gente conta tudo direitinho e você organiza a narrativa. E começaram a falar, todas juntas, uma começava a contar um caso e a outra continuava ou interrompia, do jeito que só mulher sabe fazer e entender... E a cada lembrança, a cada história narrada, riam e se divertiam com o deleite das boas vivências. Contaram que cantaram fado - no palco - junto com a fadista e que, voltando a pé para o hotel, depois de um jantar animadíssimo, foram surpreendidas por uma chuva repentina e chegaram com cabelos e roupas pingando e se acabando de rir; que comeram bacalhau por uma vida inteira e que, de vinho, não se fartaram...
Munida das informações, dispensei-as. Espero corresponder às expectativas...
A primeira coisa que fiz foi ouvir uns fados para entrar no clima - os mais conhecidos - na voz de Amália Rodrigues e Francisco José e escolhi o De Quem Eu Gosto - para me inspirar - porque todo mundo conhece, muita gente gravou e tem uma letra maravilhosa. O compositor é Artur Ribeiro, nascido na cidade do Porto em 1924, com mais de mil obras entre canções e letras.
De modos que cá estou embebida de fado e acompanhada do Porto ou embebida de Porto e acompanhada do fado - tanto faz - no esforço de verter uma história que não é minha. É a primeira vez que conto uma viagem que não fiz e estou curtindo bastante; tá certo que me acompanha a nostalgia do canto e tenho a ajuda do vinho que me trouxeram - sabem das coisas - essas meninas.
Foi bonita e divertida a viagem que fizeram essas sete mulheres maduras de idades variadas. Têm a habilidade de viver que a experiência confere e legitima. Cometeram erros e revisaram certezas. Recomeçaram muitas vezes. Levantaram outras tantas. Têm a percepção serena de que a finitude é inevitável e que devem a si mesmas as alegrias que dão sentido à existência. Sabem como levar a vida de um jeito bom. E levam!
Viagens boas são as que estamos em boa companhia a começar pela própria.
domingo, 23 de julho de 2017
...e me arrisco num soneto.
Escrever e publicar é um desnudar-se que exige coragem.
Escrever versos e publicá-los é uma ousadia e um risco.
C.W.
O Que Consigo
É no descompasso do meu próprio passo
Que perco o rumo, saio do traço.
É no desacerto do que sinto certo
Que me desconecto, que me desacerto.
É no impulso que me carrega
É no devaneio da minha entrega
Que me atrapalho, que me embaralho
E me contenho, mas dá trabalho.
E fico atenta, não me distraio
Me dá trabalho, mas não me traio.
Então eu sonho e me iludo
Num luxo meu, só meu, contudo.
E me deixo ir por tempo curto
por que é preciso, são meus anseios.
E me recomponho, contenho o surto.
Escrever versos e publicá-los é uma ousadia e um risco.
C.W.
O Que Consigo
É no descompasso do meu próprio passo
Que perco o rumo, saio do traço.
É no desacerto do que sinto certo
Que me desconecto, que me desacerto.
É no impulso que me carrega
É no devaneio da minha entrega
Que me atrapalho, que me embaralho
E me contenho, mas dá trabalho.
E fico atenta, não me distraio
Me dá trabalho, mas não me traio.
Então eu sonho e me iludo
Num luxo meu, só meu, contudo.
E me deixo ir por tempo curto
por que é preciso, são meus anseios.
E me recomponho, contenho o surto.
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