segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A Sacola

"Um sorriso pleno, um amor sereno,
  E tudo que o tempo me der."
                                  Lenine

                                       


Ele chegou todo riso e lhe entregou um pacote e disse é pra você!
Ela tirou da sacola e não disse - não precisava

Um bilhete um bombom um chapéu de camelô são  miudezas felizes
que deixam mulher contente porque contam de quem dá.

E enchem de relevância o modo como são vistas
Por isso que a camisola - a que estava na sacola  - agradou tanto a mulher

Lembrou doutra que ganhara depois de um parto no inverno, que foi útil, era quentinha,
rosadinha, de pelúcia

e casta como são as mães e as virgens.

E se não as separassem esta é a de casar, essa me dá tesão, se vissem em uma só o tudo que têm para dar, porque mulher é assim, quando sente a mais valia se multiplica em milhão

Nas coisas do dia a dia ela tem tempo pra tudo quando se sabe importante,
mesmo que o resultado demore muito - ou não venha - se foi bem bem feito tá pago.

E os massacres do dia a dia ficariam para trás assim que o sol fosse embora.

Porque mulher acolhida, bem amada bem querida mostra querer e amor ao amor de sua vida.
Abra um vinho, ligue o som, a convide pra dançar, abuse de um bom bolero e desligue o celular.

Se tiver recurso ou ela, não importa de onde venha, organize uma viagem, olhar o mundo é tão bom!
Viajem juntos, portanto, em casa e em destinos...
Garanto que as rotinas, as que massacram o amor cumprirão sua função:

Existem para que - se atente e se construa - o que faz  felicidade.

  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Qual é a Sua Opinião?

Nem tudo o que é novo é bom porque é novo
E nem tudo que é velho é ruim porque é velho.
                                                   Ditado Popular

Quando eu tinha uns 12/13 anos havia, na escola, a época dos questionários. Sazonal como as estações, gosto de acreditar que surgia com a primavera porque, com as flores, nos ajudava a desabrochar para a vida. Em um caderno comum fazíamos umas 15/ 20 perguntas que eram respondidas pelos colegas. Os da sala e os das outras séries do colégio. Iniciativa feminina, o foco era saber das preferências dos meninos. Os questionários serviam de passaporte para os afetos, possibilitavam as primeiras paixonites, nos jogavam no inferno das profundas desilusões amorosas.

Levávamos o caderno pra casa e no outro dia devolvíamos, respondido. As perguntas eram inocentes como preferência de cor, de filmes, de comidas, esportes, quais os livros que gostava, o que desejava para o futuro e as mais pessoais, se estava gamado (a) por  alguém, se podia dizer por quem e, a última e mais eletrizante  era  "já beijou alguém, pode dizer quem? "
Como sempre, os adolescentes mais populares eram os mais requisitados e tinha os que nunca eram convidados a responder o questionário de ninguém, um bullying que fazia um estrago danado na auto estima da gente.

Lembrei disso porque perguntei a uma pessoa muito, muito próxima a sua opinião sobre o que faz uma pessoa querer ficar com a outra. A resposta me surpreendeu profundamente. O que me fez perceber o quanto projetamos no outro as nossas convicções. Estranhei a resposta porque supus que ela viria alinhada com os meus próprios conceitos. Entendi mais de mim do que dela que, afinal, foi coerente. E compreendi que podemos passar a vida inteira juntos, sem conhecer as pessoas com quem convivemos.

Nesses tempos em que somos bombardeados noite e dia por milhares de informações contraditórias, em que  temos opiniões muitas vezes ferozes sobre tudo - e todo mundo grita e ninguém escuta - penso que o velho questionário tinha uma característica revolucionária. Aprendíamos a perguntar e nos interessava a opinião dos colegas. No exercício da pergunta, praticávamos a resposta, descobríamos o que nos importava e aprendíamos a construir o adulto que viríamos a ser.

Eram as meninas que faziam o jogo andar e se não tivéssemos abandonado a prática do questionário, nós, mulheres, evitaríamos sofrimentos e dissabores em todos os tipos de relações que iniciamos - e terminamos - pela vida. Deveríamos ter mantido o hábito de perguntar e de responder, num passo a passo contínuo que nos manteria próximas de nós.
Qual a sua opinião sobre comprometimento?
E o que você considera que seja traição ?
E de lealdade, o que você pensa?
Como você acredita que se constrói confiança?

Atualizando as respostas de velhas perguntas e atentas as novas questões que surgem o tempo todo, teríamos mais discernimento para ficar - ou sair -  de acordo com o que somos. Nos conhecendo não nos confundiríamos com ninguém. Seria mais fácil e muito melhor para todos.
E caberia  a mais importante e menos lembrada, a mais desprezada das perguntas:
Quais são os seus sonhos? O que você tem feito  para torná-los realidade?

O bom disso tudo é que sempre é tempo de começar....








terça-feira, 23 de outubro de 2018

Errei o Doce

   "Classifico as pessoas em três tipos:
1 - Não deixaria chegar perto da minha comida
2 - Dividiria minha comida
3 - Cozinharia pra você."


Me estranho com as panelas, antes tão perto, centrais
Será  que as uso pouco, já não são fundamentais?
No entanto tenho certeza de que ao redor da mesa
Com diletos comensais somos felizes, iguais

Por isso, no meu caminho, o que abro a cada dia
Penso que não dispenso mesa em boa companhia

Porém, nem sempre é preciso que eu pilote o fogão.

Mil Babetes da alquimia com temperos raros distintos
Fazem festas diferentes no perfume cor sabor
Com antigos rituais num passo a passo apurado
Partilham com toda a gente seu carinho seu valor

Afastei-me delas, verdade, quando a demanda acabou
Mas isso não quer dizer que mudei completamente
Qualquer hora as retomo e cozinho bem contente!

Porque as coisas de mesa são de importância vital
Foi o que fez Jesus Cristo na sua hora final
Convocou os seus discípulos pra Ceia Santa - Universal.



quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Fábrica de Encantamento

 "Força da imaginação vai lá
   Além dos pés e do chão chega lá
   O que a mão ainda não toca
   Coração um dia alcança 
   Força da imaginação..."
                     Dona Ivone Lara



Entrava na cozinha e disparava, às costas da mãe na lida do almoço "mas o meu vestido vai ficar todo sujo." A menina, 4/5 anos que declarava convicta, "quando eu crescer, vou ser cozinheira e noiva" se angustiava com o fato de que cozinhar vestida de noiva não seria fácil. E sacudia Barbies descabeladas, uma em cada mão. A mãe respondia, nem se preocupe, mando fazer um avental bem grandão pra você. Tempo mágico em que as mães sabem todas as respostas, a menina abria um sorriso largo e se mandava satisfeita, como somos nas vezes em que nada impede o que nos impele. Mais tarde, com 8 ou 9 anos o desejo era ser a "sinhazinha de sombrinha"  das festas juninas do colégio e a mãe, sem nenhum talento nas políticas de angariar votos para eleger a filha, frustrou o desejo dela.
Adulta e bem resolvida nas coisas do coração, toca a vida independente e auto suficiente nas praticidades do dia a dia.

Eis que aparece um concurso promovido pelo ARTHA Atelier de Curitiba que, para marcar os dez anos no ofício de interpretar desejos, quis saber porque a pessoa desejava se vestir de noiva.  Aberto a todos, a  única exigência era  que fosse uma boa história. Para isso, as pessoas interessadas deveriam escrever sobre o motivo que as faziam participar do concurso. O prêmio era desfilar com um modelo exclusivo, que levaria o nome de cada uma, e faria parte da nova coleção do atelier.
O Gran Finale seria um desfile do grupo vencedor.
A seleção seria de uma curadoria composta por expertises no assunto.
As dez histórias vencedoras foram publicadas e todas eram bonitas, algumas comoventes.
A moça do sonho infantil contou a história do vestido com avental e foi selecionada.
A Festa do lançamento dos modelos da nova coleção foi terça feira, dia 16/10 no Ca'dore Comida Descomplicada, em Curitiba,
A chuva impiedosa desse mês de outubro colaborou com a festa o com o sonho.
Cedeu - na última hora - o que permitiu o desfile à céu aberto. Generosa, a lua - eterna cúmplice de boas histórias e de finais felizes - apareceu, tímida, e deu uma espiada na festa.

Parabéns à Mariana Basseti e equipe porque procura - e consegue - agregar talento e generosidade nesse ofício maravilhoso de fabricar encantamento.

Foi um show!

Foto: Carol Ritzmann.


domingo, 30 de setembro de 2018

Versos Soltos




Se ele fosse até o Peru e me mandasse dinheiro
Para eu ir a Machu Picchu bem no alto de um camelo?

E se eu ficasse modelo de anunciar margarina
Largaria da manteiga tão presente na rotina?

E se eu estivesse só toda plena dos meus eus
Deixaria que ele entrasse bagunçando o que é meu?

E se eu saísse pra rua e o céu anunciasse chuva
Iria do mesmo jeito sem pegar nem uma blusa?

E se eu dispensasse o carro para andar de bicicleta
Desistia de ir mais longe pra ficar na linha reta?

E se um dia ele voltasse como não tivesse ido
Deixaria que ele entrasse revolvendo o conseguido?

A questão é a seguinte, quanto vale o meu querer?
O meu querer tem o preço que só eu posso saber.

E porque hoje é domingo dia bom de versejar
Aproveito o meu tempo pra aprender a perguntar.







terça-feira, 25 de setembro de 2018

Minha Amiga Me Ligou!

"Aprendi  com as primaveras a deixar-me
   cortar e a voltar sempre inteira."
                               Cecília Meireles


A semana começou animada! Dois eventos parecidos à partir da terça feira. O primeiro foi a festa de apresentação das madrinhas de um Clube de Serviço Internacional, tradicionalíssimo. A função delas era somar esforços para a arrecadação de fundos para as campanhas sociais do Clube. A atual pretende custear exames e óculos às crianças carentes de visão e de recursos. Minha amiga era uma delas e convidou-nos para acompanhá-la.

Fomos recebidas com espumante e fotógrafos.Toalhas brancas e flores frescas antecipavam a primavera e conferiam cor e beleza ao salão do evento. Estandes exibiam produtos do forte comércio da região e atraiam o olhar como um imã. Jovens modelos apresentaram um desfile com a moda primavera/verão e a dúvida era saber se as moças ornavam as roupas ou se as roupas ornavam as moças. Um grupo de folclore russo apresentou um show de danças típicas. Os trajes, um espetáculo à parte.

Depois desfilaram as madrinhas! Um ajuste no olhar me permitiu enxergar a graça, a alegria tímida daquelas mulheres que tiveram poucas ocasiões de desfilar.. Minha amiga não deixou por menos. Adentrou a passarela de vestido pink curto e esvoaçante e, com um sorriso incandescente ofuscou os mil brilhos do  Stiletto que exibia com competência. O sorriso, de orelha a orelha, ofuscou o sapato!
Ela - só alegria - mandava o recado: Olha eu, estou aqui!
Lanche farto e esmerado fechou o evento.

No outro dia, outro lanche, também beneficente,  mais descontraído, num Hotel à beira do mar da Penha, outra praia linda no litoral de S.C. "abençoado por Deus e bonito por natureza."
Saímos cedo para aproveitar a tarde inteira. Nos perdemos assim que chegamos! Minha amiga sabia que o hotel tinha pedra no nome e decidimos perguntar, não sem antes criticar "os homens que morrem, mas não perguntam".

No primeiro lugar em que paramos perguntamos a um morador se sabia onde era o" Hotel Recanto das Pedras"  ao que ele prontamente respondeu, Passei lá de manhã ! Vocês tem que voltar e seguir toda a vida, toda a vida e lá adiante se informar de novo. Depois de uns 8 Km, o GPS deu sinal de vida e nos levou até a Pousada Recanto das Pedras, fechada, parece que não funciona no inverno. Retornamos para a rua principal e uma moradora nos informou que  o Hotel "Pedra da Ilha" ficava logo depois do "Alírio", é só quebrar a esquerda. e ir reto toda a vida, toda a vida que chegaríamos lá. Não nos ocorreu perguntar o que/quem era o Alírio e seguimos adiante. Paramos de novo e perguntamos a dois rapazes se sabiam do Hotel Ilha de Pedra que tem suítes temáticas, tipo da África, do Havaí, e que ficava depois do Olímpio. Os rapazes nos olharam como se estivéssemos loucas e  hã?  A gente não sabe.

Não encontramos o Alírio nem o Olímpio e nem o Hotel .Acertadamente concluímos que perguntar nem sempre dá certo, ainda mais quando não se tem certeza do que se pergunta. Eis que surge um Posto da Polícia Militar à direita!  Minha amiga desceu do carro e, maltratando o salto agulha  na brita que cobria o patio voltou com o policial que nos informou:
O  Hotel " Pedra da Ilha" fica há uns 8 km em linha reta. Agradecemos  e seguimos. Depois de uns  quatro km o  GPS  ressuscitou e nos informou que estávamos a cinco km do destino e nos orientou até o fim. Estacionamos, aliviadíssimas! O gerente saiu do Hotel e nos avisou que o estacionamento reservado ao evento era o segundo, à partir daquele. Erramos a entrada. Coisa pouca, corrigida no ato.

O lanche estava em plena ebulição! Chegamos na hora do café, farto como sempre, e participamos do sorteio de brindes. Ganhei uma roupinha de bebê, que dei pra ela cujo neto está para chegar ainda neste setembro. Benvindo, menino! Você terá uma avó que, no fim das contas, acerta os caminhos... A gente avança e às vezes recua, em tantas retorna e refaz a rota, em muitas se perde e, nesse vai e vem, acaba chegando. Que chato seria viver em linha reta, sem ter a experiência de ver melhor e de sentir diferente a mesma trilha...

Ela acabou de me ligar. Avisou que tem jantar amanhã  na casa de outra amiga, sabe aquela, que mora naquela rua que tem uma árvore bem grande em frente ao prédio?
Vamos de uber, só falta saber o nome da rua e o número do prédio.
A responsabilidade de seguir reto, reto, toda a vida, é do motorista...


sábado, 15 de setembro de 2018

Encantamentos Possíveis

"Batidas na porta da frente, é o tempo
  Eu bebo um pouquinho pra ter argumento"
                                                  Nana Caymmi
                                           
Li um texto, creditado ao jornalista Alexandre Garcia, em que ele conta do encantamento que sentiu
quando, menino, viajou de avião pela primeira vez. Falou da emoção da decolagem e de como ficou maravilhado no momento em que, atravessadas as nuvens, o sol surgiu no horizonte. Depois de centenas de voos e muitos anos passados, só o que ele queria era descer do avião o mais rápido possível. Nunca mais sentou na janela ou olhou por ela. Não queria perder tempo e levantava assim que o desembarque era permitido. Contou que, num último voo de Curitiba para São Paulo - sexta - feira, - ficou com o único assento vago, atrás, na janela. Tarde chuvosa e, passadas as nuvens, o céu surgiu azul e o sol, quase se pondo, lhe trouxe à lembrança o menino que tinha sido e reviveu o mesmo encantamento do  primeiro voo. O texto continua com reflexões sobre como ele vem levando a vida...

Lembrei de Manoel de Barros, o poeta  que mistura o olho que vê com o olho da alma e, como nenhum outro, fala da imensidão das coisas pequenas, dos encantamentos possíveis no corriqueiro dos dias. Gostei do texto porque ando atenta "às alegrias pequenas" que acontecem várias vezes num mesmo dia. É uma decisão racional. Sei de mim e faço o que estiver ao meu alcance para ter um bom dia. Como aprendi que muita coisa não é da minha conta, consigo me situar nas bordas do que não me cabe. Resisto a dar a opinião que não me foi solicitada. Requer treino, exige atenção, mas se torna um hábito, um costume bom.

Moro na praia e me concedo a alegria de olhar o mar, todos os dias. Desde criança sou fascinada pelo mar. Morar sozinha é novidade em minha vida e, de repente, fiquei disponível pra mim. Tem sido compensador.

Aprendi que o tempo não é posse. Não "perdemos " e nem "ganhamos" tempo. Passamos por ele e vamos mudando e nos ajeitando e abrindo caminhos como água entre obstáculos..
Nos moldando, fluímos...
De nosso, mesmo, só temos as decisões tomadas e suas incontornáveis consequências - sempre - dentro dos limites das escolhas possíveis.
A vida acontece nas brechas, nas sobras, em tudo que -  equivocados - pensamos ser "perda de tempo".

Mas sempre é nossa a decisão de escolher como lidar com os fatos.











quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Mulher e Violência.

"Não tiro ninguém da minha vida
  Eu apenas reorganizo as posições e inverto as prioridades."
                                                             Cecília Meireles
                                                           

Tinha uns sete anos quando fomos à Blumenau, meus pais e eu, no meio da semana. Faltei à escola sem estar doente. Não me disseram o que íamos fazer lá e nem me interessava saber. Sentada atrás, eu escorregava de lá prá cá no banco todinho meu. Quem tem irmãos sabe o isso significa. Eu estava feliz da vida!

Chegamos perto do meio dia, passamos na casa da filha de um vizinho nosso e fomos todos almoçar na churrascaria da família. Ela tinha dois filhos pequenos, mais novos do que eu. O marido havia ido mais cedo. Nos recebeu bem e desculpou-se, brincando, que ele "não estava no horário de almoço."  Fazia pouco tempo que tinham comprado o restaurante e ele recebia a clientela. Ainda brincou que "o gado cresce com o olho do dono" e foi trabalhar.
Tenho viva lembrança das cadeiras com assento de palha e das mesas com toalhas brancas. Da luz do sol entrando pelas janelas altas de esquadria de madeira.
Lembro do guaraná que ganhei só pra mim. Eu estava me "achando". As duas crianças permaneciam caladas, olhar baixo. Terminada a refeição nos despedimos do proprietário e fomos embora.

Sentei na frente, entre os meus pais, naqueles bancos inteiros que tinham os carros daquele tempo. Acho que era um Oldsmobile, grandalhão e bege. A moça e as crianças acomodaram-se atrás. Não os deixamos em casa porém, seguiram conosco na volta. Ninguém falava muito. Estávamos no meio do trajeto quando desabou um toró que não nos permitiu continuar. Pernoitamos num hotel de uma cidadezinha perto da rodovia. Me ocorre agora que não tínhamos bagagem, nenhuma sacola com uma muda de roupa. Eram tempos de estrada estreita, sem asfalto e ladeando o rio. Ainda hoje é assim. Apesar de asfaltada, a BR 470 não é duplicada e exige muita atenção do motorista.
De manhã seguimos. Deixamos a moça e os filhos na casa dos pais e fomos para a nossa. Lembro bem do casal, escondendo lágrimas e agradecendo muito. Eram contidas e escondiam emoções as pessoas daquela época. Ainda se educava meninos dizendo que " homem não chora." Chora sim, e deve! Mas isso é tema para outra hora.

Conto isso porque o que fomos fazer em Blumenau foi, a pedido do nosso vizinho, buscar sua  filha e  netos porque ele não poderia ir.  O genro, dono do restaurante, marido da moça e pai dos filhos dela era um homem violento e batia nela porque achava que podia e pronto.
Meu pai era uma pessoa que não se metia na vida de ninguém mas, quando o amigo pediu, ele não teve dúvidas do que precisava fazer. O marido não podia desconfiar de nada, senão todos nós estaríamos em perigo. Andava armado o homem violento. Daí o plano de nos levar junto, minha mãe e eu.
Esta história tem mais de 50 anos e pouca coisa mudou, infelizmente. A mulher que sofre este tipo de abuso tem que se sentir amparada para ter coragem. Pelo Estado, pela família, pelos amigos, pelos vizinhos.
É, sim, assunto nosso, de toda a sociedade.
Existem situações em que, estando ao nosso alcance, precisamos "meter a colher em briga de marido e mulher". 














domingo, 29 de julho de 2018

Vinte Minutos

"A maior riqueza do homem é sua incomplitude.
  Nesse ponto sou abastado."
                                          Manoel de Barros

A moça que conheço foi embora.

Deixou coisas, status e o endereço
Despojou-se, a moça por quem tenho apreço.
Revirou baús, recuperou as pernas, abriu a porta
E com elas partiu, meio bambas, um pouco tortas.

Passados os dias de organizar as coisas de teto e pão, adentrou-se para reavaliar os afetos que continha.
Estavam todos ali, os importantes.
O riso e os olhos e o todo inteiro de cada filho amado, a neta querida, os amigos indispensáveis como a luz do sol.

Tempo de relocar os sentimentos porque as emoções perdidas de seu rumo e de seu destino precisam ser refletidas e expurgadas, senão continuam no mesmo lugar, do mesmo tamanho, a ferir com a mesma dor. É um processo lento que pede tempo, mas tem foco e razão.
Sabia - a moça que conheço e por quem tenho apreço - que sair de lá era coisa de um passo de cada vez e que exigia cuidado para não perder o prumo. E foi soltando - de camada em camada - as cascas que a protegiam e, ao mesmo tempo, lhe tolhiam movimentos e horizontes.
Descascou como uma cebola.
Sentiu abandono, medo e desamparo quando se viu desnuda. Saiu do casulo, a moça que eu conheço.

Encontrei-a, dia desses, se alongando nessas barras que as prefeituras colocam em praças e parques  para uso de quem queira. Alinhada e alegre, aproveitava o sol.
Feliz de encontrá-la a convidei para um café.
Me confidenciou que quando chegou, na confusão generalizada das muitas gentes ocupando todos os espaços e disputando sóis, deixou - se levar de roldão na multidão.

A alertaram, mais de uma vez, que passada a muvuca se veria só, frente a si mesma e sem escudo.

Finda a confusão e a barulheira, abriu a porta e se olhou no espelho.
E me contou, olho no olho, que precisou de vinte minutos para acostumar.
Ouvi tudo sem apartar, sem interromper.
E entendi o tempo gasto que precisou.

Vinte minutos não tem a urgência que tem os quinze, e nem tampouco o alongado da meia  hora.
Vinte minutos é complacente, é compreensivo. Cabe três vezes na hora inteira, é um bom tempo.
De vinte em vinte, este é o segredo para mudar, seguir adiante, perder o medo.











quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Estacionamento do Shopping

"Solidariedade é horizontal, respeita a outra pessoa e aprende com o outro.
   A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas"
                                                                               Eduardo  Galeano



Tenho uma amiga que, quando lê um texto meu, pergunta se o que escrevi é verdade ou invenção.
Brinco com ela que "quem conta um conto aumenta um ponto."
Mas hoje vou contar um fato que pode ser confirmado por testemunha idônea, Antônia, minha neta.
Sabemos que netos são filhos açucarados mas que, como eles, são implacáveis e, ao ouvir uma versão um pouco exagerada de alguma história, desmentem a gente, na lata, sem dó. Comigo acontece, às vezes, porque empolgada com o caso que estou contando me inclino a dar uma versão mais interessante para conferir graça à narrativa. Hoje não preciso inventar nada.
Aconteceu o seguinte:

Ontem fomos, ela e eu, ao Shopping Balneário e, de cara, entrei no estacionamento na contra mão. Procurava uma vaga de Idoso. Ajeitei o rumo assim que consegui e continuei a busca, pressionada por um veículo enorme grudadão em mim. Desisti da vaga que me cabe e estacionei entre duas colunas largas, uma à frente e outra atrás do carro. Era noite quando saímos e o estacionamento estava cheio neste julho de férias escolares. Quando chegamos no lugar em que deixara o meu carro vi que ele estava preso, não tinha como sair da vaga. Estava no meio de quatro veículos e os carros formavam o desenho do cinco, do dominó. O meu carro era a bolinha do meio. O espaço onde estacionei não era uma vaga, mas um lugar do tamanho de uma, pequena, que não pode ser usado. Porque parei ali? Não sei, é óbvio que havia pelo menos outra no entorno, maior e mais fácil de usar.

E agora? O que faço? Entro no Shopping e peço para anunciarem as placas convocando os proprietários para liberar a minha saída?  Penso que não fariam isso. Antônia ria de mim sem compaixão.
Sabe o que aconteceu? Uma família veio em nossa direção e o meu coração se encheu de esperança!
Eram os proprietários de um dos quatro carros. No estacionamento enorme e cheio, as pessoas que estavam partindo eram justamente as que me liberariam a saída. A vaga aberta por eles era de trás e eu teria que sair de ré, o que me dava pouco espaço de manobra por causa das colunas largas. O motorista deu uma olhada no espaço que surgiu e comentou que, "com jeitinho, a senhora sai sem problemas." E foram embora.

Nunca ganhei na loteria mas imagino que a alegria deve ser parecida com o que senti.
Ainda estava manobrando quando eles voltaram. O motorista desceu e me orientou até que consegui sair sem bater nas colunas e nos outros três veículos que continuavam estacionados.
Fiquei profundamente grata àquelas pessoas desconhecidas que, percebendo que seria bem difícil sair dali, decidiram voltar só para me ajudar.