"Tinha de lá chegar primeiro,
só depois havia de deixar-me ir."
" a máquina de fazer espanhóis"
Valter Hugo Mãe
Do Bom Humor:
Quando nossas andanças coincidem - eu sozinha - elas em dupla, nos cumprimentamos com simpatia. Somos amigas de parque. Impossível não nota-las, porque caminham e conversam e falam sem parar, munidas de galhos caídos que usam como cajado. Andam com postura ereta, cajado à frente do pé direito e pé esquerdo alinhado com ele. É assim que se faz, ouço uma explicar à outra...e, logo em seguida, as vejo cortando o ar, brandindo os cajados como " Quixotes"ensandecidas atacando secretos moinhos de vento. Depois os colocam no porta malas do carro e vão embora. Dia desses, as encontrei à procura de cajados novos, e me explicaram que o carro tinha ido para a revisão e voltara limpo e sem os galhos. A dona do carro me explicou que ligou e perguntou porque deram fim ao cajado dela. Foi uma confusão! Explica daqui e procura dali, informaram que só jogaram fora uns galhos tortos e secos que estavam no porta malas." Pois é, pois é, era isso mesmo". E se divertem imaginando que viraram assunto do pessoal da agência. Sabe-se lá quantas coisas estranhas as pessoas esquecem nos carros! E riem, felizes," devem comentar de uma doida que carrega pau seco no carro." Aquele dia rendeu risos e reiterei a certeza de que bom humor é de graça e é insuperável na defesa da saúde. Baixa a ansiedade e controla o estresse.
Das Expectativas:
No meu grupo de canto coral, o Tempo Certo, eu gostaria de cantar como a Mônica Salmaso, o que me daria prestígio e reconhecimento imediatos, mas me tiraria dali. Eu não caberia mais ali, ficaria grande demais. Pesando prós e contras do que me interessa e importa, sem dúvida eu sairia perdendo. Então, pés fincados no chão e olho enfiado em mim, entendi que a minha expectativa seria a de cantar melhor do que eu. O que tem sido dificílimo, não porque eu cante bem, mas porque, tirando a facilidade que tenho em decorar as letras das músicas, tudo o mais me é difícil - afinação, uso do diafragma, respiração correta e no momento certo, postura no palco e por aí vai. Minhas amigas dizem que tenho melhorado bastante. Sem desconsiderar a opinião delas, me sentiria mais segura com a chancela do nosso querido regente. Aguardo.
Das Legitimidades:
Quando me lastreio como faço agora - por necessidade e correção de rota - me socorro de mim - e, ciente dos meus recursos, faço um caldo de cozimento brando, reduzo, decanto e decido o próximo passo. É tempo de seguir devagar, sem enfrentamentos. A velhice - não tenho pudores em usar a palavra certa - é tempo de relações legítimas, de clareza, de escolhas que nos façam bem, de profundo amor próprio.
É tempo de lealdade e confiança!
sábado, 8 de julho de 2017
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Não Para Abrir Vidros de Palmito
"Fica, oh brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar."
Eu e a Brisa
Johnny Alf
Jesus sabia de vinho, de peixe, de pão e de compaixão. Sabia tanto que os multiplicava de acordo com a demanda. Maria sabia do filho e entendia de amor e de dor. E tem São Longuinho, a quem apelo sempre que perco óculos, chaves, celular... e me ponho a procurar diligentemente, pois as coisas de pedir ajuda funcionam muito bem quando fazemos a nossa parte e, ao encontrar o que perdi, lhe pago os três pulinhos acertados. Dever pra Santo não é uma boa ideia porque, logo ali, precisaremos de seus préstimos. A Maria, peço proteção para mim e para os meus, porque de bençãos as mães entendem. De promessas, fico com os pulinhos contratados com o Santo que encontra coisas perdidas. Ciosa com as dívidas, só contrato as que posso pagar. A Jesus não peço nada, porque ele já deu tudo. Dia desses fiz um peixe fresco, que comi com um pão escuro e bebi um vinho bom. Alinhei ideia e coração e sumiram tumulto e descompasso. Me senti bem.
Quando a vida muda o rumo e não manda aviso, a gente se embaralha um pouco, mas sabe que deve prestar atenção, até descobrir aonde será o nosso lugar no rearranjo novo. No mais das vezes só precisa trocar de pensamento, por isso eu acho que quem envelhece é mais adaptável do que os mais novos, pois isso, de mudar sentimento e pensamento, é coisa pra quem aprendeu um pouco da vida.
Porém, na mudança, a gente se leva toda. Nada de deixar, pelo caminho, nenhum pedaço de si. Como o espírito, e aqui discordo de novo com o lugar comum de que " velho bacana tem espírito jovem". Nada disso! Meu espírito e eu nascemos no mesmo dia e estamos a fazer aniversário por por mais de 60 anos, sempre juntos. Claro que, quando nos mudamos, ele leva as manias que adquiriu. Coisa de querer um espaço para se instalar com o conforto que ele sabe que o meu corpo necessita e que eu, mulher de poucas dores, não tenho muitas exigências. Mas é imprescindível que bata sol, entre luz e caibam meus livros, minhas panelas e meus amores.
De uns tempos para cá, os vidros de palmito vêm com um lacre na tampa que, removido com facilidade, permite a entrada do ar e a tampa abre sem esforço. O palmito entra na salada e acompanha do peixe à picanha. Os vinhos, com os novos saca rolhas, também dispensam força física e contém, em si, o que prometem.
Tudo o mais é bônus.
Precisamos, uns dos outros - para as imprecisões e as partilhas - foi Jesus que falou!
Para consertar coisas, a gente chama um técnico.
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar."
Eu e a Brisa
Johnny Alf
Jesus sabia de vinho, de peixe, de pão e de compaixão. Sabia tanto que os multiplicava de acordo com a demanda. Maria sabia do filho e entendia de amor e de dor. E tem São Longuinho, a quem apelo sempre que perco óculos, chaves, celular... e me ponho a procurar diligentemente, pois as coisas de pedir ajuda funcionam muito bem quando fazemos a nossa parte e, ao encontrar o que perdi, lhe pago os três pulinhos acertados. Dever pra Santo não é uma boa ideia porque, logo ali, precisaremos de seus préstimos. A Maria, peço proteção para mim e para os meus, porque de bençãos as mães entendem. De promessas, fico com os pulinhos contratados com o Santo que encontra coisas perdidas. Ciosa com as dívidas, só contrato as que posso pagar. A Jesus não peço nada, porque ele já deu tudo. Dia desses fiz um peixe fresco, que comi com um pão escuro e bebi um vinho bom. Alinhei ideia e coração e sumiram tumulto e descompasso. Me senti bem.
Quando a vida muda o rumo e não manda aviso, a gente se embaralha um pouco, mas sabe que deve prestar atenção, até descobrir aonde será o nosso lugar no rearranjo novo. No mais das vezes só precisa trocar de pensamento, por isso eu acho que quem envelhece é mais adaptável do que os mais novos, pois isso, de mudar sentimento e pensamento, é coisa pra quem aprendeu um pouco da vida.
Porém, na mudança, a gente se leva toda. Nada de deixar, pelo caminho, nenhum pedaço de si. Como o espírito, e aqui discordo de novo com o lugar comum de que " velho bacana tem espírito jovem". Nada disso! Meu espírito e eu nascemos no mesmo dia e estamos a fazer aniversário por por mais de 60 anos, sempre juntos. Claro que, quando nos mudamos, ele leva as manias que adquiriu. Coisa de querer um espaço para se instalar com o conforto que ele sabe que o meu corpo necessita e que eu, mulher de poucas dores, não tenho muitas exigências. Mas é imprescindível que bata sol, entre luz e caibam meus livros, minhas panelas e meus amores.
De uns tempos para cá, os vidros de palmito vêm com um lacre na tampa que, removido com facilidade, permite a entrada do ar e a tampa abre sem esforço. O palmito entra na salada e acompanha do peixe à picanha. Os vinhos, com os novos saca rolhas, também dispensam força física e contém, em si, o que prometem.
Tudo o mais é bônus.
Precisamos, uns dos outros - para as imprecisões e as partilhas - foi Jesus que falou!
Para consertar coisas, a gente chama um técnico.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
Depois da Aula
" Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará"
Lulu Santos
Estamos, salvo as honrosas exceções de sempre, massacrando Tom Jobim para uma agendada apresentação da Escola, no segundo semestre. O professor, abnegado como são os convictos, se empenha e ensaia e insiste.
Intimamos família e amigos para assistir, numa destemida prova de coragem. Meus filhos, avisados, já disseram que, infelizmente, não poderão comparecer, pois têm compromisso neste dia. Vocês nem sabem qual é a data, aleguei. Reafirmaram o compromisso. Desconfio que seja um caso de vergonha alheia...
Contenho os voleios das mãos, depois do professor me alertar, "não faça a regência, por favor!" Como nunca uso roupas sem bolsos, depois daquele aviso, deixo as mãos contidas, neles...mas de pouco adianta, sacolejo e remelexo e penso que o professor tenha se arrependido do que disse...
Depois da aula, merecidamente, vamos relaxar que ninguém é de ferro. A escolha do lugar é feita de acordo com o clima, assim como o que vamos beber. Nas noites de agora, mais frias, a escolha vai para sopas e vinhos e os assuntos são todos... e sempre saímos com os problemas resolvidos. Se não os nossos, os das outras, porque, como dizia meu pai, "fácil é resolver o problema alheio"
Num desses dias, assistimos a uma apresentação de Fado, de uma portuguesa bonita que cantava lindamente, "De quem eu gosto, nem às paredes confesso"... e nós, sem vergonha e sem noção, com o vinho a nos dar coragem, fazíamos coro à interpretação da moça. Divertidíssimo!
Como já fazia um tempo razoável daquele dia, decidimos voltar lá. A informação que tínhamos era que a moça voltara para Portugal e que o lugar não estava mais apresentando shows.
No entanto, logo ao chegar, a mais sagaz de nós observou "a moça que nos recebeu não é a fadista? " É mesmo! Ela, porém, não demonstrou que nos reconhecera. Talvez tenha se preservado para não correr o risco de nos ouvir cantar e não nos interessava, nem um pouco, que ela nos reconhecesse. O encanto daquele canto ficou naquela noite, daquele dia. Uma lembrança boa para nós. Para ela, foi parte do trabalho.
Quando a vida acontece assim, fluida e leve como deve, é muito bom. É outro momento, outra percepção.
Um sentimento novo.
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará"
Lulu Santos
Estamos, salvo as honrosas exceções de sempre, massacrando Tom Jobim para uma agendada apresentação da Escola, no segundo semestre. O professor, abnegado como são os convictos, se empenha e ensaia e insiste.
Intimamos família e amigos para assistir, numa destemida prova de coragem. Meus filhos, avisados, já disseram que, infelizmente, não poderão comparecer, pois têm compromisso neste dia. Vocês nem sabem qual é a data, aleguei. Reafirmaram o compromisso. Desconfio que seja um caso de vergonha alheia...
Contenho os voleios das mãos, depois do professor me alertar, "não faça a regência, por favor!" Como nunca uso roupas sem bolsos, depois daquele aviso, deixo as mãos contidas, neles...mas de pouco adianta, sacolejo e remelexo e penso que o professor tenha se arrependido do que disse...
Depois da aula, merecidamente, vamos relaxar que ninguém é de ferro. A escolha do lugar é feita de acordo com o clima, assim como o que vamos beber. Nas noites de agora, mais frias, a escolha vai para sopas e vinhos e os assuntos são todos... e sempre saímos com os problemas resolvidos. Se não os nossos, os das outras, porque, como dizia meu pai, "fácil é resolver o problema alheio"
Num desses dias, assistimos a uma apresentação de Fado, de uma portuguesa bonita que cantava lindamente, "De quem eu gosto, nem às paredes confesso"... e nós, sem vergonha e sem noção, com o vinho a nos dar coragem, fazíamos coro à interpretação da moça. Divertidíssimo!
Como já fazia um tempo razoável daquele dia, decidimos voltar lá. A informação que tínhamos era que a moça voltara para Portugal e que o lugar não estava mais apresentando shows.
No entanto, logo ao chegar, a mais sagaz de nós observou "a moça que nos recebeu não é a fadista? " É mesmo! Ela, porém, não demonstrou que nos reconhecera. Talvez tenha se preservado para não correr o risco de nos ouvir cantar e não nos interessava, nem um pouco, que ela nos reconhecesse. O encanto daquele canto ficou naquela noite, daquele dia. Uma lembrança boa para nós. Para ela, foi parte do trabalho.
Quando a vida acontece assim, fluida e leve como deve, é muito bom. É outro momento, outra percepção.
Um sentimento novo.
sábado, 27 de maio de 2017
Palavras em Desuso
"Com que grandeza
Ele se elevou
Às maiores baixezas!"
Millôr Fernandes
Circula, nas redes sociais, um vídeo onde a poeta, professora e gente de bem, a mineira Adélia Prado, pede, ao auditório lotado reunido para ouvi-la "um minuto de silêncio, um encontro com a nossa coisa mais profunda e nesse minuto de silêncio a gente pedir pelo Brasil" e convida o auditório a rezar um Pai Nosso cantado, junto com ela." É a primeira vez que faço isso," diz, com verdade absoluta. É emocionante.
Evito usar a expressão "no meu tempo" porque, além de um auto descarte que não precisamos cometer, esse, de nos colocar deliberadamente à margem da estrada antes da hora, tem quem o faça por nós, com absoluta competência. Nada contra envelhecer, considerando-se a alternativa. É que hoje lembrei de uma palavra lá, das antigas, que não ouço há muito tempo e que se usava bastante. Lambança! que lembra lambuza. Podemos dizer que quem faz lambança se lambuza.
No Brasil de nossos dias a lambança generalizada deixa o país todo lambuzado. A corrupção e a roubalheira são tão grandes e diversificadas, que sugiro aos políticos de bem, numa reação às listas de investigados que não param de aumentar, que se reúnam e elaborem, uma lista dos políticos que não aparecem em lista nenhuma! Serviria de sinalizador, para que nós, eleitores, tivéssemos em quem votar nas próximas eleições. Além de alento para os que acreditam que há muito politico comprometido com o bem comum. Eu sou uma destas pessoas. Acredito que existam políticos ilibados (outra palavra que quase não se usa). A divulgação do nome deles seria um serviço que prestariam ao País, de graça, custo zero. É só divulgar nas redes sociais. É um começo.
As lambanças, quando descobertas, expõem o lambanceiro à execração pública! Ele deveria sentir uma coisa, também em desuso, que se chama Vergonha. Tudo bem, não teve vergonha de se envolver na roubalheira, era o esquema, não tinha como escapar, enfim... mas o que vemos é que o sujeito não sente vergonha, nenhum constrangimento mesmo com o nome exposto, mesmo detido, condenado, preso!
Penso nas mães e nos pais desses políticos, orgulhosos com a carreira do filho, que, não raro, moram em cidadezinhas pequenas deste Brasil tão grande e que agora sentem, eles, a vergonha que os filhos deveriam sentir, e talvez se perguntem," onde foi que eu errei?"
Recuso-me a acreditar que somos corruptos por natureza e que" político é tudo ladrão," não aceito o conformismo dos que dizem, "sempre foi assim, vem desde Cabral"....Qual?...
Acredito que o Brasil passa por um profundo processo de mudança, e que o caminho para melhorar é através da Política Comprometida com o Bem do Brasil e dos Brasileiros. Acredito que a nossa jovem democracia precisa urgentemente de cuidado e zelo, muito trabalho e empenho de todas as pessoas de boa vontade.
Não levanto bandeiras e nem defendo ideologias. Sei de mim, não sou corrupta, não roubo, não participo de conluios e nem sei como se faz para subornar alguém.
Passo por ingênua, (será?) mas tenho absoluta convicção de que o Brasil precisa, urgentemente, que as pessoas de bem se manifestem e se posicionem. Nesse momento, não existe nenhuma ideologia política no País. É um salve-se quem puder!
Precisamos de paz, foco e trabalho!
Ele se elevou
Às maiores baixezas!"
Millôr Fernandes
Circula, nas redes sociais, um vídeo onde a poeta, professora e gente de bem, a mineira Adélia Prado, pede, ao auditório lotado reunido para ouvi-la "um minuto de silêncio, um encontro com a nossa coisa mais profunda e nesse minuto de silêncio a gente pedir pelo Brasil" e convida o auditório a rezar um Pai Nosso cantado, junto com ela." É a primeira vez que faço isso," diz, com verdade absoluta. É emocionante.
Evito usar a expressão "no meu tempo" porque, além de um auto descarte que não precisamos cometer, esse, de nos colocar deliberadamente à margem da estrada antes da hora, tem quem o faça por nós, com absoluta competência. Nada contra envelhecer, considerando-se a alternativa. É que hoje lembrei de uma palavra lá, das antigas, que não ouço há muito tempo e que se usava bastante. Lambança! que lembra lambuza. Podemos dizer que quem faz lambança se lambuza.
No Brasil de nossos dias a lambança generalizada deixa o país todo lambuzado. A corrupção e a roubalheira são tão grandes e diversificadas, que sugiro aos políticos de bem, numa reação às listas de investigados que não param de aumentar, que se reúnam e elaborem, uma lista dos políticos que não aparecem em lista nenhuma! Serviria de sinalizador, para que nós, eleitores, tivéssemos em quem votar nas próximas eleições. Além de alento para os que acreditam que há muito politico comprometido com o bem comum. Eu sou uma destas pessoas. Acredito que existam políticos ilibados (outra palavra que quase não se usa). A divulgação do nome deles seria um serviço que prestariam ao País, de graça, custo zero. É só divulgar nas redes sociais. É um começo.
As lambanças, quando descobertas, expõem o lambanceiro à execração pública! Ele deveria sentir uma coisa, também em desuso, que se chama Vergonha. Tudo bem, não teve vergonha de se envolver na roubalheira, era o esquema, não tinha como escapar, enfim... mas o que vemos é que o sujeito não sente vergonha, nenhum constrangimento mesmo com o nome exposto, mesmo detido, condenado, preso!
Penso nas mães e nos pais desses políticos, orgulhosos com a carreira do filho, que, não raro, moram em cidadezinhas pequenas deste Brasil tão grande e que agora sentem, eles, a vergonha que os filhos deveriam sentir, e talvez se perguntem," onde foi que eu errei?"
Recuso-me a acreditar que somos corruptos por natureza e que" político é tudo ladrão," não aceito o conformismo dos que dizem, "sempre foi assim, vem desde Cabral"....Qual?...
Acredito que o Brasil passa por um profundo processo de mudança, e que o caminho para melhorar é através da Política Comprometida com o Bem do Brasil e dos Brasileiros. Acredito que a nossa jovem democracia precisa urgentemente de cuidado e zelo, muito trabalho e empenho de todas as pessoas de boa vontade.
Não levanto bandeiras e nem defendo ideologias. Sei de mim, não sou corrupta, não roubo, não participo de conluios e nem sei como se faz para subornar alguém.
Passo por ingênua, (será?) mas tenho absoluta convicção de que o Brasil precisa, urgentemente, que as pessoas de bem se manifestem e se posicionem. Nesse momento, não existe nenhuma ideologia política no País. É um salve-se quem puder!
Precisamos de paz, foco e trabalho!
sábado, 20 de maio de 2017
Por Que É Maio e Quando Três é Multidão
É hoje a cerimônia de formatura da minha filha - Mariana - no curso de Doutorado em História da Arte em Dallas, nos EUA. Foi um longo caminho o que ela percorreu. Estudiosa e disciplinada, desde sempre foi atrás de aprender. Lembro do dia em que, menina de 9 ou 10 anos, aluna de pintura do Prof. Luiz Carlos de Andrade Lima, ele me disse : " Não sei o que essa menina vai ser, no futuro, mas sei que será alguma coisa ligada à arquitetura, à arte, aos museus." Lamento que ele não esteja mais aqui para saber que a previsão se cumpriu, inteirinha.
De mim, sei que gostaria muito de estar lá, presente, para celebrar com ela. Nós, as mães, acreditamos que formaturas, casamentos, nascimentos de netos, esses acontecimentos marcantes na vida dos filhos são ocasiões em que estaremos presentes e ponto. Mas nem sempre é assim. Nas voltas que a vida dá, tem horas em que oceanos e fuso horário nos separam, mas coração e pensamento, que não precisam de avião nem passaporte, voam e chegam junto e ficamos felizes como se estivéssemos lá.
É o que importa.
Quando Três É Multidão
O estabelecido é que o grupo comemore uma vez na semana. Esse é o Estatuto.
Nossa constituição é escrita sem letras e o papel é inexistente. E como funciona! A dinâmica muda de acordo com a composição do dia. A base é o prazer de estar junto. E como é rica de intuição e de sextos sentidos uma pessoa que aprende com o que sente, com o que troca, com o que descarta....
Só não tem sessão, é claro, se acontecer de ficar uma só, mas isso nunca aconteceu.
Quando garantimos nosso próprio divertimento, fortalecemos o coração e a imunidade. Ficamos aptos para enfrentar dificuldades e perceber alegrias. Esse tipo de alegria que sinto hoje, misturada com um orgulho bom pela formatura da minha filha, mesmo que eu não tenha ido.
Peço emprestados à Alice, os votos que ela postou, e os repito aqui:
"Guria!! Sobe naquele palco e arrasa na caminhada com sua roupa de doutora!"
sábado, 13 de maio de 2017
Continue Sendo!
"Qual seria a sua idade se você não
soubesse quantos anos você tem? "
Confúcio
O uso inadequado e abusivo do gerúndio, do que reclamamos tanto e com razão, como
a " senhora vai estar participando", ou " nós vamos estar lhe comunicando" e outras expressões similares, deu à Forma Nominal do verbo uma fama injusta e imerecida. A característica principal do gerúndio é que ele indica uma ação contínua, que está, esteve ou estará em andamento. É a ação acontecendo! Digo isso porque quero defende-lo, por injustiçado.
soubesse quantos anos você tem? "
Confúcio
O uso inadequado e abusivo do gerúndio, do que reclamamos tanto e com razão, como
a " senhora vai estar participando", ou " nós vamos estar lhe comunicando" e outras expressões similares, deu à Forma Nominal do verbo uma fama injusta e imerecida. A característica principal do gerúndio é que ele indica uma ação contínua, que está, esteve ou estará em andamento. É a ação acontecendo! Digo isso porque quero defende-lo, por injustiçado.
Li uma entrevista com o ator Marco Nanini, em que ele fala sobre envelhecimento e suas sequelas com a naturalidade dos que aprenderam com a vida, ... "nada me assusta porque são coisas esperadas." Tão certo como não saber o que o futuro nos reserva, é saber que, com o tempo, a nossa manutenção, digamos assim, fica mais frequente e abrangente. Ir ao médico é uma atitude necessária, porém destemida. O primeiro que consultamos, após checar os nossos exames e nos medicar, nos encaminha para outro, que, por sua vez, nos encaminha para um terceiro. Faz parte. O consenso é que precisamos caminhar muito, beber pouco, comer menos, fumar nada. Por isso, sugiro que comecemos a mudar a maneira como trocamos cumprimentos. Ao felicitar pessoas que queremos bem, fica bom dizer: Desejo que você continue sendo! Nos acostumamos a desejar que a pessoa continue sendo tão amiga ou divertida ou prestativa. etc.... É muito! Continuar sendo não é pouco. Do contrário, é tudo. É a grande questão! Sendo o que é, sendo o que acredita. Devemos desejar sorte também, para todo o resto. A gente vai indo, cuidando aqui, mantendo ali... e vai levando...
De Mães e de Filhos
Minha sogra dizia - de filhos - "desde que, nunca mais". São eles que nos fazem mães e sempre será deles o nosso amor sem medida. São objetos do nosso orgulho, dos nossos pedidos de proteção e bençãos. Desejamos que tenham todos os sucessos e que a vida os trate com justiça e gentileza. Foi neles que pousamos - maravilhadas - o primeiro olhar de mãe e serão seus olhos que buscaremos com o derradeiro olhar.
As mães vem sendo santificadas e enaltecidas há muito tempo e de várias formas. Confesso que não gostaria de "padecer no paraíso" e também não acho bacana a versão "supermãe", a que dá conta de tudo. Uma nos coloca num sofrimento inescapável. A outra exige mais do que temos condições de dar.
Levemos a vida, mães e filhos, nos querendo bem, respeitando espaços e escolhas, nos socorrendo quando for preciso, sendo independentes e confiantes.
Desejo que, neste domingo, Mães e Filhos comemorem com alegria, porque um só existe por causa do outro. Aos que passarem o dia juntos, que o façam por mútuo querer, sem pressão e sem cobrança. Os que estão separados, que seja somente pela distância física.
As mães vem sendo santificadas e enaltecidas há muito tempo e de várias formas. Confesso que não gostaria de "padecer no paraíso" e também não acho bacana a versão "supermãe", a que dá conta de tudo. Uma nos coloca num sofrimento inescapável. A outra exige mais do que temos condições de dar.
Levemos a vida, mães e filhos, nos querendo bem, respeitando espaços e escolhas, nos socorrendo quando for preciso, sendo independentes e confiantes.
Desejo que, neste domingo, Mães e Filhos comemorem com alegria, porque um só existe por causa do outro. Aos que passarem o dia juntos, que o façam por mútuo querer, sem pressão e sem cobrança. Os que estão separados, que seja somente pela distância física.
quarta-feira, 3 de maio de 2017
São Roupas Passadas....
"Escrever é ter a companhia
do outro de nós que escreve."
Vergílio Ferreira
Ele se apresentou como "Apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior"... e se estabeleceu e contribuiu enormemente para o brilho e a importância da nossa música popular. Nos deixou, em 30 de abril, e já faz falta. Foi imprescindível nas playlist da juventude dos anos 60/70 - quando gravávamos fitas cassetes que rebobinávamos com o auxílio de uma caneta Bic e sabíamos todas as letras de cor. Ainda sabemos. Belchior percebeu, muito jovem, que o "passado é uma roupa que não nos serve mais"... que Elis Regina cantava lindamente.
Recebi o pedido gentil para "fazer parte de suas amizades" de uma leitora de Ribeirão Preto - Fátima - com a alegação de que "gosto muito do que você escreve", e trocamos informações onde ela diz que chegou aos meus escritos através da irmã - Aparecida - e que "que fico feliz com tudo o que você posta". E como a felicidade é sempre generosa, fiquei feliz também. Nos conhecemos, dona Aparecida e eu, em um bazar de roupas usadas organizado pelas famílias dos cantores infanto-juvenis do Papo Coral na Paidéia Escola de Música, cujo objetivo foi o de angariar fundos para viabilizar a aceitação do convite recebido da Câmara de Trento - na Itália - para que o Coral participe de um intercâmbio cultural no mês de junho. O neto dela e a minha neta fazem parte do Grupo.
Nestes tempos de sustentabilidade necessária, bazares de roupas usadas são um sucesso e proliferam em todo lugar. A ideia é boa e uma boa ideia é sempre um bom começo. Abrimos espaço em armários atulhados, nos livramos de coisas que não nos servem e que servirão para outra pessoa. Remanejamos e reciclamos. Arejamos casa e armário. É um movimento de vai e vem, porque também encontramos alguma pechincha que é a nossa cara.
Acredito que, quando Belchior compara os sentimentos que trazemos a uma roupa que não nos serve mais, ele nos convida a olhar para dentro para identificar o que nos atrapalha. Tem sentimentos que ficaram puídos e gastos e não suportam mais remendo. Tem aquele que nunca serviu direito, e sempre foi um desconforto usá-lo. Tem até um que usamos por empréstimo e passa da hora de devolver.
Fica o que é bom e trazemos conosco. Somos acumuladores, mas só de viver.
do outro de nós que escreve."
Vergílio Ferreira
Ele se apresentou como "Apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior"... e se estabeleceu e contribuiu enormemente para o brilho e a importância da nossa música popular. Nos deixou, em 30 de abril, e já faz falta. Foi imprescindível nas playlist da juventude dos anos 60/70 - quando gravávamos fitas cassetes que rebobinávamos com o auxílio de uma caneta Bic e sabíamos todas as letras de cor. Ainda sabemos. Belchior percebeu, muito jovem, que o "passado é uma roupa que não nos serve mais"... que Elis Regina cantava lindamente.
Recebi o pedido gentil para "fazer parte de suas amizades" de uma leitora de Ribeirão Preto - Fátima - com a alegação de que "gosto muito do que você escreve", e trocamos informações onde ela diz que chegou aos meus escritos através da irmã - Aparecida - e que "que fico feliz com tudo o que você posta". E como a felicidade é sempre generosa, fiquei feliz também. Nos conhecemos, dona Aparecida e eu, em um bazar de roupas usadas organizado pelas famílias dos cantores infanto-juvenis do Papo Coral na Paidéia Escola de Música, cujo objetivo foi o de angariar fundos para viabilizar a aceitação do convite recebido da Câmara de Trento - na Itália - para que o Coral participe de um intercâmbio cultural no mês de junho. O neto dela e a minha neta fazem parte do Grupo.
Nestes tempos de sustentabilidade necessária, bazares de roupas usadas são um sucesso e proliferam em todo lugar. A ideia é boa e uma boa ideia é sempre um bom começo. Abrimos espaço em armários atulhados, nos livramos de coisas que não nos servem e que servirão para outra pessoa. Remanejamos e reciclamos. Arejamos casa e armário. É um movimento de vai e vem, porque também encontramos alguma pechincha que é a nossa cara.
Acredito que, quando Belchior compara os sentimentos que trazemos a uma roupa que não nos serve mais, ele nos convida a olhar para dentro para identificar o que nos atrapalha. Tem sentimentos que ficaram puídos e gastos e não suportam mais remendo. Tem aquele que nunca serviu direito, e sempre foi um desconforto usá-lo. Tem até um que usamos por empréstimo e passa da hora de devolver.
Fica o que é bom e trazemos conosco. Somos acumuladores, mas só de viver.
domingo, 23 de abril de 2017
A Festa da Beta
Entrou no salão de festas de bolsinha dourada à tiracolo, sandália dourada de saltinho e um sorriso aberto iluminando tudo. Chegou explicando o porquê da bolsinha atravessada no peito: "guardo as chaves, o celular e os controles para acionar os aparelhos de ar condicionado, é prático, mantenho os braços livres para acolher abraços." Acho que bolsinhas sejam do agrado de Elisabeth porque me lembrei de outra - tão nobre quanto - que as combina com chapéus e que servem de especulação para jornalistas do mundo inteiro "o que contém a bolsinha da rainha?" De minha parte penso que, nesta, também cabe o celular, e arrisco supor que abrigue um batom para retocar a maquiagem, e talvez um lencinho para secar uma ou outra lágrima necessária. Acredito que mulheres, todas diferentes, têm em comum mais coisas do que mostramos à primeira vista.
Estavam lá, os da família e eu - que sou apresentada como a filha postiça - numa deferência e consideração que me comove e que agradeço. Dos quatro que formavam os dois casais de amigos de todas as horas, ela é a única que continua firme e forte e é admirável o entusiasmo com que organizou a própria festa para celebrar os 80 anos. Lembro, adolescente, indo passar o verão inteiro com eles no sobrado grande, de madeira, pintado de cor de rosa, quando a Rua 2000 - em Camboriú - era longe de tudo e a gente ia até o mar, pisando o chão clarinho, sem calçamento, sem meio fio e sem calçada. A casa tinha nome próprio, chamava-se Raimunda, era ampla e confortável, e havia sido construída sem nenhuma preocupação com a estética. Era feia de cara! Nada de cerca ou muro, era só sair e depois de cinco minutos nos regalávamos com sol e mar!
Depois do almoço gostoso e farto, ficamos por ali, papeando e bebericando e lembrando histórias divertidas dos ausentes o que, numa festa de oitenta anos, é assunto inevitável. Acho que eternidade é um pouco isso, ser lembrado pelas histórias que partilhamos e que os amigos contam e aumentam um ponto e sentem saudades e dizem ah! lembram daquela?
Pelo meio da tarde foram chegando mais amigos para comer o bolo e cantar o Parabéns e foi um tal de "nossa, nunca reconheceria você se o encontrasse na rua " o que é, ao mesmo tempo, nostalgia e privilégio. Revi pessoas que não via há mais de quarenta anos e troçamos uns dos outros concluindo que estávamos todos ótimos!
Parabéns e vida longa à dona Beta com votos de que se cumpra o que ela própria se desejou ao apagar as velas, aquelas que teimam em reacender na melhor metáfora do que é viver. Entre uma soprada e outra manifestou a vontade de chegar aos noventa e, precavida, adiantou: quando chegar lá, reviso a meta!
Estavam lá, os da família e eu - que sou apresentada como a filha postiça - numa deferência e consideração que me comove e que agradeço. Dos quatro que formavam os dois casais de amigos de todas as horas, ela é a única que continua firme e forte e é admirável o entusiasmo com que organizou a própria festa para celebrar os 80 anos. Lembro, adolescente, indo passar o verão inteiro com eles no sobrado grande, de madeira, pintado de cor de rosa, quando a Rua 2000 - em Camboriú - era longe de tudo e a gente ia até o mar, pisando o chão clarinho, sem calçamento, sem meio fio e sem calçada. A casa tinha nome próprio, chamava-se Raimunda, era ampla e confortável, e havia sido construída sem nenhuma preocupação com a estética. Era feia de cara! Nada de cerca ou muro, era só sair e depois de cinco minutos nos regalávamos com sol e mar!
Depois do almoço gostoso e farto, ficamos por ali, papeando e bebericando e lembrando histórias divertidas dos ausentes o que, numa festa de oitenta anos, é assunto inevitável. Acho que eternidade é um pouco isso, ser lembrado pelas histórias que partilhamos e que os amigos contam e aumentam um ponto e sentem saudades e dizem ah! lembram daquela?
Pelo meio da tarde foram chegando mais amigos para comer o bolo e cantar o Parabéns e foi um tal de "nossa, nunca reconheceria você se o encontrasse na rua " o que é, ao mesmo tempo, nostalgia e privilégio. Revi pessoas que não via há mais de quarenta anos e troçamos uns dos outros concluindo que estávamos todos ótimos!
Parabéns e vida longa à dona Beta com votos de que se cumpra o que ela própria se desejou ao apagar as velas, aquelas que teimam em reacender na melhor metáfora do que é viver. Entre uma soprada e outra manifestou a vontade de chegar aos noventa e, precavida, adiantou: quando chegar lá, reviso a meta!
quarta-feira, 12 de abril de 2017
De Rosas e Rolhas
"A saudade é uma tatuagem na alma:
só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós."
Mia Couto
Das mil rosas roubadas que Cazuza usou para se desculpar das "mentiras e mancadas" no ato exagerado que nomeia a música, meu pensamento sempre vai para a ocasião em que meu pai estacionou na garagem de casa, à hora do almoço, e retirou um volume enorme do porta malas, e sorridente, me perguntou "adivinha o que é isto?" Pela facilidade com que ele ergueu o pacotão dava para saber que a coisa era leve. Nem deu tempo para pensar em nada porque ele declarou, exultante: comprei mil rolhas! Foi um tempo em que ele andava às voltas com a construção de uma adega, com os nichos revestidos de isopor e paredes e piso de cimento - rústica - erguida fora da casa e que funcionou muito bem. Tinha um termômetro que oscilava entre 13 e 14 graus numa região de verões escaldantes e invernos muito frios. Difícil foi convencer minha mãe da necessidade de tanta rolha. É que - ele explicava - o padre da "Tifa das Cobras" me telefonou hoje dizendo que o vinho deles promete, porque choveu quando devia e não choveu quando não precisava, de modos que a uva ficou supimpa e isso e mais aquilo, e eu reservei o excedente. Coisa pouca, comprei só 500 garrafas. A esta altura a coisa pegou fogo! Ela ficou furiosa, porque o negócio complicava cada vez mais. Minha mãe gostava de padres, na missa, rezando e repartindo o pão e meu pai gostava de padres, fora da missa, dividindo o vinho.
Não lembro como a discussão terminou, mas eles ficaram uns dias sem se falar, pelo menos na nossa frente. Depois de um tempo ele montou uma linha de engarrafamento na mesa grande da churrasqueira, para, depois de engarrafada e arrolhada, mergulhar cada garrafa na cera derretida para
vedá-la, e só então colocar na adega para maturar. Fui convocada para ajudar e até achei divertido. Só não gostei das mil abelhas que vieram revindicar a cera que lhes pertencia, e lembro de que com elas a negociação foi um pouco mais difícil do que com a minha mãe.
Bebemos muito daquele vinho, em domingos ensolarados de churrasco e riso. À mim cabia o privilégio de, "para dar sorte", atirar e quebrar, de costas, o cálice vazio nas brasas da churrasqueira. Minha mãe ia e vinha, com os doces de figo, ambrosia, de cubos brilhantes de abóbora, excelentes, como nunca fiz igual.
Hoje acredito que "a sorte" se dava ali, naquele momento e naquele dia. E que também tiveram "sorte" as pessoas que resgataram as garrafas que boiaram, nas águas daquele rio que encheu tanto que levou os vinhos e levou meu pai.
só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós."
Mia Couto
Das mil rosas roubadas que Cazuza usou para se desculpar das "mentiras e mancadas" no ato exagerado que nomeia a música, meu pensamento sempre vai para a ocasião em que meu pai estacionou na garagem de casa, à hora do almoço, e retirou um volume enorme do porta malas, e sorridente, me perguntou "adivinha o que é isto?" Pela facilidade com que ele ergueu o pacotão dava para saber que a coisa era leve. Nem deu tempo para pensar em nada porque ele declarou, exultante: comprei mil rolhas! Foi um tempo em que ele andava às voltas com a construção de uma adega, com os nichos revestidos de isopor e paredes e piso de cimento - rústica - erguida fora da casa e que funcionou muito bem. Tinha um termômetro que oscilava entre 13 e 14 graus numa região de verões escaldantes e invernos muito frios. Difícil foi convencer minha mãe da necessidade de tanta rolha. É que - ele explicava - o padre da "Tifa das Cobras" me telefonou hoje dizendo que o vinho deles promete, porque choveu quando devia e não choveu quando não precisava, de modos que a uva ficou supimpa e isso e mais aquilo, e eu reservei o excedente. Coisa pouca, comprei só 500 garrafas. A esta altura a coisa pegou fogo! Ela ficou furiosa, porque o negócio complicava cada vez mais. Minha mãe gostava de padres, na missa, rezando e repartindo o pão e meu pai gostava de padres, fora da missa, dividindo o vinho.
Não lembro como a discussão terminou, mas eles ficaram uns dias sem se falar, pelo menos na nossa frente. Depois de um tempo ele montou uma linha de engarrafamento na mesa grande da churrasqueira, para, depois de engarrafada e arrolhada, mergulhar cada garrafa na cera derretida para
vedá-la, e só então colocar na adega para maturar. Fui convocada para ajudar e até achei divertido. Só não gostei das mil abelhas que vieram revindicar a cera que lhes pertencia, e lembro de que com elas a negociação foi um pouco mais difícil do que com a minha mãe.
Bebemos muito daquele vinho, em domingos ensolarados de churrasco e riso. À mim cabia o privilégio de, "para dar sorte", atirar e quebrar, de costas, o cálice vazio nas brasas da churrasqueira. Minha mãe ia e vinha, com os doces de figo, ambrosia, de cubos brilhantes de abóbora, excelentes, como nunca fiz igual.
Hoje acredito que "a sorte" se dava ali, naquele momento e naquele dia. E que também tiveram "sorte" as pessoas que resgataram as garrafas que boiaram, nas águas daquele rio que encheu tanto que levou os vinhos e levou meu pai.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Sete no Mexe-Mexe
"Não perdi a memória.
Só não lembro onde botei."
Millôr Fernandes
O evento vai se chamar Mexe-Mexe 500! A data não está marcada, mas é certo que será no princípio de dezembro quando todas já cumpriram os aniversários e a soma das idades chegar a 500 anos. Começaram jogando canastra, mas quando uma faltava impedia o jogo da parceira. Eram tempos de muitas demandas e os imprevistos eram frequentes. Uma correria! aquele "leva e trás" da criançada para a escola, trabalho, compromissos e a semana voava e a vida escoava. Aparentadas entre si, as sete resolveram se dar uma tarde para colocar o papo em dia enquanto jogavam carteado e dividiam o lanche. Passaram para o Mexe-Mexe por ser jogo de cada um por si e a ausência de uma não impediria o jogo da outra. Não lembram exatamente quando começaram. Uma alega que foi assim que voltou da primeira viagem que fez ao exterior, com o marido, sem as crianças e sem ansiedades. Outra diz que foi quando passou no concurso e começou a lecionar na faculdade, a terceira afirma que não, foi quando a mãe dela faleceu, tem certeza absoluta! Provavelmente todas estejam certas porque mulher é assim: pontua a vida pelas relevâncias do que viveu, situa-se pelo que lhe marcou a alma e gravou na memória e, para se localizar no tempo, recorre às lembranças que vem compondo a bagagem. Acho que é por isso que temos a fama de não esquecer de datas o que gera piadinhas de maridos e namorados. As pessoas - não só as mulheres - esperam do outro as mesmas reações que têm diante da experiência compartilhada. Mas não é assim que funciona. Cada um reage de maneira única e pessoal. Acho que é daí que vem as dificuldades nos relacionamentos. Mas isso não é assunto para agora.
Comecei a escrever com a intenção de contar de cada uma delas, mas os textos, como a vida, nem sempre admitem controle. Queria falar da mais velha, que beira os 90 e que repete, divertida, que escolheram jogar Mexe-Mexe para não esquecer de outras "Mexidas", nada inocentes, que deram na vida. Outra contesta, de pronto, "fale por você que eu ainda não estou em fase de lembrar". Tem aquela que, ao receber as outras, sempre faz quitutes demais e tem quem os faz de menos. Tem até quem nunca faz e tem quem sempre faz a mesma coisa. Duas se divorciaram e as duas que enviuvaram repetem, passada a dor do luto, "que são as únicas que sabem onde os maridos estão". As três que continuam casadas seguem implicando com os maridos e eles continuam implicando com elas. Mas se apoiam e se ajudam e se querem como deve ser. Elas também implicam entre si e criticam umas às outras. E se ajudam e se cuidam e se divertem quando é para se divertir e choram juntas quando é tempo de chorar. Possuem o bem precioso da amizade madura e sabem que podem contar umas com as outras em qualquer situação.
Foi por tudo isso e porque aprenderam que celebrar é um privilégio, que decidiram que era hora de fazer uma festa com a família toda e com os amigos de sempre para comemorar o aniversário dessa reunião que dura há tantas décadas. Mas como não conseguiram chegar ao consenso de quando começaram a jogar, concordaram em esperar que a soma dos anos delas chegasse a 500. Depois conto como foi a festa!
Só não lembro onde botei."
Millôr Fernandes
O evento vai se chamar Mexe-Mexe 500! A data não está marcada, mas é certo que será no princípio de dezembro quando todas já cumpriram os aniversários e a soma das idades chegar a 500 anos. Começaram jogando canastra, mas quando uma faltava impedia o jogo da parceira. Eram tempos de muitas demandas e os imprevistos eram frequentes. Uma correria! aquele "leva e trás" da criançada para a escola, trabalho, compromissos e a semana voava e a vida escoava. Aparentadas entre si, as sete resolveram se dar uma tarde para colocar o papo em dia enquanto jogavam carteado e dividiam o lanche. Passaram para o Mexe-Mexe por ser jogo de cada um por si e a ausência de uma não impediria o jogo da outra. Não lembram exatamente quando começaram. Uma alega que foi assim que voltou da primeira viagem que fez ao exterior, com o marido, sem as crianças e sem ansiedades. Outra diz que foi quando passou no concurso e começou a lecionar na faculdade, a terceira afirma que não, foi quando a mãe dela faleceu, tem certeza absoluta! Provavelmente todas estejam certas porque mulher é assim: pontua a vida pelas relevâncias do que viveu, situa-se pelo que lhe marcou a alma e gravou na memória e, para se localizar no tempo, recorre às lembranças que vem compondo a bagagem. Acho que é por isso que temos a fama de não esquecer de datas o que gera piadinhas de maridos e namorados. As pessoas - não só as mulheres - esperam do outro as mesmas reações que têm diante da experiência compartilhada. Mas não é assim que funciona. Cada um reage de maneira única e pessoal. Acho que é daí que vem as dificuldades nos relacionamentos. Mas isso não é assunto para agora.
Comecei a escrever com a intenção de contar de cada uma delas, mas os textos, como a vida, nem sempre admitem controle. Queria falar da mais velha, que beira os 90 e que repete, divertida, que escolheram jogar Mexe-Mexe para não esquecer de outras "Mexidas", nada inocentes, que deram na vida. Outra contesta, de pronto, "fale por você que eu ainda não estou em fase de lembrar". Tem aquela que, ao receber as outras, sempre faz quitutes demais e tem quem os faz de menos. Tem até quem nunca faz e tem quem sempre faz a mesma coisa. Duas se divorciaram e as duas que enviuvaram repetem, passada a dor do luto, "que são as únicas que sabem onde os maridos estão". As três que continuam casadas seguem implicando com os maridos e eles continuam implicando com elas. Mas se apoiam e se ajudam e se querem como deve ser. Elas também implicam entre si e criticam umas às outras. E se ajudam e se cuidam e se divertem quando é para se divertir e choram juntas quando é tempo de chorar. Possuem o bem precioso da amizade madura e sabem que podem contar umas com as outras em qualquer situação.
Foi por tudo isso e porque aprenderam que celebrar é um privilégio, que decidiram que era hora de fazer uma festa com a família toda e com os amigos de sempre para comemorar o aniversário dessa reunião que dura há tantas décadas. Mas como não conseguiram chegar ao consenso de quando começaram a jogar, concordaram em esperar que a soma dos anos delas chegasse a 500. Depois conto como foi a festa!
Assinar:
Postagens (Atom)









