"Solidariedade é horizontal, respeita a outra pessoa e aprende com o outro.
A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas"
Eduardo Galeano
Tenho uma amiga que, quando lê um texto meu, pergunta se o que escrevi é verdade ou invenção.
Brinco com ela que "quem conta um conto aumenta um ponto."
Mas hoje vou contar um fato que pode ser confirmado por testemunha idônea, Antônia, minha neta.
Sabemos que netos são filhos açucarados mas que, como eles, são implacáveis e, ao ouvir uma versão um pouco exagerada de alguma história, desmentem a gente, na lata, sem dó. Comigo acontece, às vezes, porque empolgada com o caso que estou contando me inclino a dar uma versão mais interessante para conferir graça à narrativa. Hoje não preciso inventar nada.
Aconteceu o seguinte:
Ontem fomos, ela e eu, ao Shopping Balneário e, de cara, entrei no estacionamento na contra mão. Procurava uma vaga de Idoso. Ajeitei o rumo assim que consegui e continuei a busca, pressionada por um veículo enorme grudadão em mim. Desisti da vaga que me cabe e estacionei entre duas colunas largas, uma à frente e outra atrás do carro. Era noite quando saímos e o estacionamento estava cheio neste julho de férias escolares. Quando chegamos no lugar em que deixara o meu carro vi que ele estava preso, não tinha como sair da vaga. Estava no meio de quatro veículos e os carros formavam o desenho do cinco, do dominó. O meu carro era a bolinha do meio. O espaço onde estacionei não era uma vaga, mas um lugar do tamanho de uma, pequena, que não pode ser usado. Porque parei ali? Não sei, é óbvio que havia pelo menos outra no entorno, maior e mais fácil de usar.
E agora? O que faço? Entro no Shopping e peço para anunciarem as placas convocando os proprietários para liberar a minha saída? Penso que não fariam isso. Antônia ria de mim sem compaixão.
Sabe o que aconteceu? Uma família veio em nossa direção e o meu coração se encheu de esperança!
Eram os proprietários de um dos quatro carros. No estacionamento enorme e cheio, as pessoas que estavam partindo eram justamente as que me liberariam a saída. A vaga aberta por eles era de trás e eu teria que sair de ré, o que me dava pouco espaço de manobra por causa das colunas largas. O motorista deu uma olhada no espaço que surgiu e comentou que, "com jeitinho, a senhora sai sem problemas." E foram embora.
Nunca ganhei na loteria mas imagino que a alegria deve ser parecida com o que senti.
Ainda estava manobrando quando eles voltaram. O motorista desceu e me orientou até que consegui sair sem bater nas colunas e nos outros três veículos que continuavam estacionados.
Fiquei profundamente grata àquelas pessoas desconhecidas que, percebendo que seria bem difícil sair dali, decidiram voltar só para me ajudar.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
sexta-feira, 29 de junho de 2018
"Olha pro céu, meu amor!" Luiz Gonzaga.
"De cada dia arrancar das coisas uma modesta alegria;
em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã"
Caio Fernando Abreu
O convite para a festa junina chegou em cima da hora pelo WhatsApp. "Traje típico obrigatório.
Passo aí às 19:00 h". Convite recebido, convite aceito, mas como resolver o problema do traje, assim, quase em cima da hora? Resolveu ir de homem. Sempre se ajeita um paletó, camisa xadrez, uma barba e bigode. Comprou o chapéu de palha por 5,99 no 1,99 mais próximo, acomodou uma almofada sob e camisa e foi. É mais fácil ser homem, também, nas coisas do trajar. Fez sucesso! Tanto que, passados alguns dias, um dos presentes na dita festa, convocou-a para ser o " noivo" na festa que organizava. Caprichou! Arrumou gravata e calça de risca de giz, comprou as alianças que, precavida, recuperou no fim da festa para incorporar ao " acervo de itens juninos" .Nada de ser pega de surpresa e ter que se produzir a partir do zero. Vai que surjam mais convites!
De festas juninas, lembro das de São João, padroeiro da minha cidade natal que era um evento de grandes proporções. Movimentava a cidade inteira e as outras no seu entorno. Funcionava assim: casais de festeiros eram convocados pelo padre para fazer a novena com bingo e ajantarado caprichado. Lembro do churrasco, servido numa placa de funilha, acompanhado de pão e maionese que fazia um sucesso danado. E a galinha com polenta? O pirão com linguiça? Que bom que era! O dinheiro arrecadado iria se juntar ao resultado das rifas que agitavam a cidade. Todo mundo comprava. O primeiro prêmio era um automóvel 0 KM. A novena terminava um dia antes da festa. Meia-noite do dia 23 era acesa a enorme fogueira e a honra de riscar o fósforo era de quem a arrematasse "num quem dá mais" aguerrido!
Meu pai nos acordava, a mim e meu irmão que, rostos grudados na janela do quarto víamos o clarão da fogueira que iluminava tudo.
Finalmente, no dia 24 a festa acontecia nas muitas barraquinhas montadas no pátio da igreja e no terreno do colégio dos padres. Tinha de tudo! Lembro que ganhávamos roupa de festa em três ocasiões: Natal, Páscoa e São João. Quem foi menina naquela época certamente lembra da saia plissada e do conjuntinho de Ban Lon que todas ganhamos para fazer bonito numa Festa de São João.
Não sei como são as festas agora. Mudou muita coisa de lá pra cá.
Rifas são proibidas, mas sempre dá pra organizar uma "Ação entre Amigos."
O conjuntinho virou Twin Set e Ban Lon é poliéster ou similares.
Funilha não mudou de nome. Deixou de existir.
Fogueiras daquele porte não são mais bem vistas.
Quem souber me conte!
em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã"
Caio Fernando Abreu
O convite para a festa junina chegou em cima da hora pelo WhatsApp. "Traje típico obrigatório.
Passo aí às 19:00 h". Convite recebido, convite aceito, mas como resolver o problema do traje, assim, quase em cima da hora? Resolveu ir de homem. Sempre se ajeita um paletó, camisa xadrez, uma barba e bigode. Comprou o chapéu de palha por 5,99 no 1,99 mais próximo, acomodou uma almofada sob e camisa e foi. É mais fácil ser homem, também, nas coisas do trajar. Fez sucesso! Tanto que, passados alguns dias, um dos presentes na dita festa, convocou-a para ser o " noivo" na festa que organizava. Caprichou! Arrumou gravata e calça de risca de giz, comprou as alianças que, precavida, recuperou no fim da festa para incorporar ao " acervo de itens juninos" .Nada de ser pega de surpresa e ter que se produzir a partir do zero. Vai que surjam mais convites!
De festas juninas, lembro das de São João, padroeiro da minha cidade natal que era um evento de grandes proporções. Movimentava a cidade inteira e as outras no seu entorno. Funcionava assim: casais de festeiros eram convocados pelo padre para fazer a novena com bingo e ajantarado caprichado. Lembro do churrasco, servido numa placa de funilha, acompanhado de pão e maionese que fazia um sucesso danado. E a galinha com polenta? O pirão com linguiça? Que bom que era! O dinheiro arrecadado iria se juntar ao resultado das rifas que agitavam a cidade. Todo mundo comprava. O primeiro prêmio era um automóvel 0 KM. A novena terminava um dia antes da festa. Meia-noite do dia 23 era acesa a enorme fogueira e a honra de riscar o fósforo era de quem a arrematasse "num quem dá mais" aguerrido!
Meu pai nos acordava, a mim e meu irmão que, rostos grudados na janela do quarto víamos o clarão da fogueira que iluminava tudo.
Finalmente, no dia 24 a festa acontecia nas muitas barraquinhas montadas no pátio da igreja e no terreno do colégio dos padres. Tinha de tudo! Lembro que ganhávamos roupa de festa em três ocasiões: Natal, Páscoa e São João. Quem foi menina naquela época certamente lembra da saia plissada e do conjuntinho de Ban Lon que todas ganhamos para fazer bonito numa Festa de São João.
Não sei como são as festas agora. Mudou muita coisa de lá pra cá.
Rifas são proibidas, mas sempre dá pra organizar uma "Ação entre Amigos."
O conjuntinho virou Twin Set e Ban Lon é poliéster ou similares.
Funilha não mudou de nome. Deixou de existir.
Fogueiras daquele porte não são mais bem vistas.
Quem souber me conte!
sexta-feira, 15 de junho de 2018
O Brasileiro e o Futebol
"O que nos une é maior
do que o que nos separa"
Papa Francisco
Recebi um vídeo em que o ex-primeiro ministro de Portugal, Pedro Santana Lopes é interrompido, em uma entrevista ao vivo, para o canal exibir a chegada do técnico da seleção portuguesa de futebol ao aeroporto de Lisboa. A repórter faz um ligeiro resumo das conquistas do treinador e, em seguida, retoma a entrevista com o político. Ele, profundamente ofendido - com toda a razão, foi uma grosseria imensa - encerra a entrevista. Disse que fez um "sacrifício pessoal" para estar ali atendendo ao convite recebido e que tem "regras e que não as quebra". Terminou pedindo desculpas à repórter e acrescentou que não era "preciosismo" da parte dele. E perguntou "se é assim que se anda pra frente?" Fiquei com pena da moça que, se pudesse, sumiria num buraco e que, certamente, cumpria ordens superiores.
Não sei nada da política de Portugal e os problemas que ela enfrenta e não conheço os políticos de lá. Também não tenho como avaliar a importância do que ele dizia. De Portugal sei que é um país lindo, que podemos andar à noite na rua em segurança e que vemos bandos de crianças pequenas, uniformizadas, fazendo piquenique com os professores em parques e Museus. Que os arquitetos portugueses são considerados os maiores especialistas da Europa em restauração de prédios antigos e que Lisboa está revitalizando bairros inteiros.
E que Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores de futebol do mundo.
Impossível não comparar com o Brasil para concluir que não tem comparação.
Em primeiro lugar pela capacidade de se ofender do político português e pela afirmação de que tem regras de conduta e não as quebra. Muitos dos nossos políticos acusados de repetidas rapinagens não têm o menor constrangimento em aparecer na televisão e negar o inegável. Não se ofendem. Não defendem regras e não as seguem porque vale tudo, desde que continuem como estão. Acredito que, neste momento, a figura pública com a maior credibilidade no Brasil é o senhor Adenor Leonardo Bacchi, mais conhecido como Tite, pelo trabalho sério, competente e comprometido que realiza.
Os jogadores de futebol que chegam à seleção, o fazem por mérito pessoal e pelo talento em jogar bola. Se não for muito bom, nem chega lá. Ganham salários milionários, mas não somos nós, com nossos impostos, que pagamos. A maioria vem de famílias pobres das periferias que tiveram a sorte de ser vistos por quem entende de futebol. Não são responsáveis pelos descalabros com o dinheiro público na construção dos estádios e nem pelo abandono em que muitos se encontram.
Também não são responsáveis pela nossa escandalosa desigualdade social que tem muitas razões, mas nenhuma delas é o futebol.
A nossa infindável lista de mazelas não é culpa do futebol. Estas são consequência da corrupção, do desvio de dinheiro público, do mau uso de impostos e do imenso desperdício em obras inacabadas
O resultado é o sucateamento de hospitais, escolas e estradas. Sem falar da violência.
A Copa do Mundo de Futebol é o evento esportivo mais importante do planeta..
É uma festa onde nós, os brasileiros, ocupamos um lugar de honra. Vamos nos apropriar do sentimento de orgulho legítimo a que temos direito.
Vamos torcer pelo Brasil.
do que o que nos separa"
Papa Francisco
Recebi um vídeo em que o ex-primeiro ministro de Portugal, Pedro Santana Lopes é interrompido, em uma entrevista ao vivo, para o canal exibir a chegada do técnico da seleção portuguesa de futebol ao aeroporto de Lisboa. A repórter faz um ligeiro resumo das conquistas do treinador e, em seguida, retoma a entrevista com o político. Ele, profundamente ofendido - com toda a razão, foi uma grosseria imensa - encerra a entrevista. Disse que fez um "sacrifício pessoal" para estar ali atendendo ao convite recebido e que tem "regras e que não as quebra". Terminou pedindo desculpas à repórter e acrescentou que não era "preciosismo" da parte dele. E perguntou "se é assim que se anda pra frente?" Fiquei com pena da moça que, se pudesse, sumiria num buraco e que, certamente, cumpria ordens superiores.
Não sei nada da política de Portugal e os problemas que ela enfrenta e não conheço os políticos de lá. Também não tenho como avaliar a importância do que ele dizia. De Portugal sei que é um país lindo, que podemos andar à noite na rua em segurança e que vemos bandos de crianças pequenas, uniformizadas, fazendo piquenique com os professores em parques e Museus. Que os arquitetos portugueses são considerados os maiores especialistas da Europa em restauração de prédios antigos e que Lisboa está revitalizando bairros inteiros.
E que Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores de futebol do mundo.
Impossível não comparar com o Brasil para concluir que não tem comparação.
Em primeiro lugar pela capacidade de se ofender do político português e pela afirmação de que tem regras de conduta e não as quebra. Muitos dos nossos políticos acusados de repetidas rapinagens não têm o menor constrangimento em aparecer na televisão e negar o inegável. Não se ofendem. Não defendem regras e não as seguem porque vale tudo, desde que continuem como estão. Acredito que, neste momento, a figura pública com a maior credibilidade no Brasil é o senhor Adenor Leonardo Bacchi, mais conhecido como Tite, pelo trabalho sério, competente e comprometido que realiza.
Os jogadores de futebol que chegam à seleção, o fazem por mérito pessoal e pelo talento em jogar bola. Se não for muito bom, nem chega lá. Ganham salários milionários, mas não somos nós, com nossos impostos, que pagamos. A maioria vem de famílias pobres das periferias que tiveram a sorte de ser vistos por quem entende de futebol. Não são responsáveis pelos descalabros com o dinheiro público na construção dos estádios e nem pelo abandono em que muitos se encontram.
Também não são responsáveis pela nossa escandalosa desigualdade social que tem muitas razões, mas nenhuma delas é o futebol.
A nossa infindável lista de mazelas não é culpa do futebol. Estas são consequência da corrupção, do desvio de dinheiro público, do mau uso de impostos e do imenso desperdício em obras inacabadas
O resultado é o sucateamento de hospitais, escolas e estradas. Sem falar da violência.
A Copa do Mundo de Futebol é o evento esportivo mais importante do planeta..
É uma festa onde nós, os brasileiros, ocupamos um lugar de honra. Vamos nos apropriar do sentimento de orgulho legítimo a que temos direito.
Vamos torcer pelo Brasil.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
Turista em Curitiba
Às vezes a gente se afasta para refletir
Outras, porque já refletiu.
Helen Villiger
Fiz o cartão de Isento que me habilita para andar nos ônibus em Curitiba e decidi estreá-lo indo ao MON. Queria visitar uma exposição em que a minha filha participou da montagem e aproveitar para visitar outras, em exibição no Museu.
Desço no ponto indicado e me informo onde fica o do caminho inverso. Esta linha de ônibus, chamada Interbairros 1 circula no sentido horário e anti horário, num vai e vem que funciona muito bem. Sou entusiasta dessas facilidades que levamos muito tempo para conquistar - nenhuma menos de 60 anos. Na bilheteria, a pessoa responsável verifica a identidade e me franqueia o acesso.
Entrei e fui olhando, lendo, gostando do que via e me inteirando do que sentia, tão distraída que só vi que era tarde quando senti fome. Condição recente esta de não precisar me envolver com panelas e horários.Tinha combinado de almoçar com a minha filha na novíssima condição de encontrar o almoço pronto. Só lavar as mãos e sentar, num movimento de retorno, de troca de papéis.
Dia claro, não muito frio, me acomodei na janela e me dei conta, de repente, de que eu estava me sentindo turista na cidade onde criei meus filhos, ajudei com a neta, trabalhei, fiz amizades fundamentais, completei ciclos, vivi, enfim, por mais de 30 anos.
Sentimento novo que me inundou de alegria. Fiquei contente, nem sei explicar por que.
Será que a "mudança" de que se fala à exaustão não é isso? Soltar - nos dos papéis que foram fundamentais, mas que já cumpriram seu propósito? Este processo não é acionado por um mecanismo de abre e fecha, como uma torneira. Mudança é um esforço contínuo de adaptação às situações novas e de como usar o rico conteúdo do "vivido" para continuar a andança com outros objetivos e interesses.
São novas possibilidades que temos para continuar sentindo o privilégio que é viver.
Outras, porque já refletiu.
Helen Villiger
Fiz o cartão de Isento que me habilita para andar nos ônibus em Curitiba e decidi estreá-lo indo ao MON. Queria visitar uma exposição em que a minha filha participou da montagem e aproveitar para visitar outras, em exibição no Museu.
Desço no ponto indicado e me informo onde fica o do caminho inverso. Esta linha de ônibus, chamada Interbairros 1 circula no sentido horário e anti horário, num vai e vem que funciona muito bem. Sou entusiasta dessas facilidades que levamos muito tempo para conquistar - nenhuma menos de 60 anos. Na bilheteria, a pessoa responsável verifica a identidade e me franqueia o acesso.
Entrei e fui olhando, lendo, gostando do que via e me inteirando do que sentia, tão distraída que só vi que era tarde quando senti fome. Condição recente esta de não precisar me envolver com panelas e horários.Tinha combinado de almoçar com a minha filha na novíssima condição de encontrar o almoço pronto. Só lavar as mãos e sentar, num movimento de retorno, de troca de papéis.
Dia claro, não muito frio, me acomodei na janela e me dei conta, de repente, de que eu estava me sentindo turista na cidade onde criei meus filhos, ajudei com a neta, trabalhei, fiz amizades fundamentais, completei ciclos, vivi, enfim, por mais de 30 anos.
Sentimento novo que me inundou de alegria. Fiquei contente, nem sei explicar por que.
Será que a "mudança" de que se fala à exaustão não é isso? Soltar - nos dos papéis que foram fundamentais, mas que já cumpriram seu propósito? Este processo não é acionado por um mecanismo de abre e fecha, como uma torneira. Mudança é um esforço contínuo de adaptação às situações novas e de como usar o rico conteúdo do "vivido" para continuar a andança com outros objetivos e interesses.
São novas possibilidades que temos para continuar sentindo o privilégio que é viver.
terça-feira, 22 de maio de 2018
A Rainha e o Cozinheiro
"Cozinhar não é um serviço...
Cozinhar é um modo de amar os outros"
Mia Couto
Ouvi uma história interessante que vale a pena contar.
Uma mulher, farta do marido que não parava em emprego nenhum e nem tinha pressa em arrumar outro, separou-se dele e, por falta de recursos, continuou morando na casa que pertencia aos dois.
Saía cedo pro batente e, quando retornava, lá estava ele na frente da TV. Fazia uns bicos, ganhava uns trocos, mas a maior parte do dia se aboletava no sofá. Cansada de esperar que as coisas mudassem parou de brigar e parou de se importar. Saía com os amigos do trabalho, um deles virou namorado e a vida começou a se ajeitar.
Um dia, assim que abriu o portão, sentiu um cheiro bom de comida no ar. De onde vem isso? Nada que a sua memória olfativa reconhecesse. A memória olfativa é poderosa, elimina tempo e distância. Eu mesma, quando sinto cheiro de doce de figo verde, me transporto para a casa da minha infância, revejo o fogão de lenha e o panelão onde os figos chegavam "no ponto" sob o olhar treinado da minha mãe. Como era bom!
Intrigada, entrou na cozinha devagar. Ele estava de costas, a mexer nas panelas. O que é isso? perguntou sem acreditar no que via. Ele se vira, limpa as mãos no avental e dispara um quer jantar comigo? Ela aceita. De susto!
A semana inteira foi assim, cada dia um prato diferente, saboroso, caprichado. Passou a vir direto do trabalho curiosa para saber qual era a surpresa do dia. Riam, conversavam e ele contou que viu que levava jeito vendo os programas de culinária da TV. Aprendeu a fazer pão e macarrão, os vizinhos começaram a fazer encomendas, melhorou a estrutura da cozinha e quase não tem tempo de assistir televisão.
Semana passada chegou com passagens pra Bahia. Está interessado em se inteirar de moquecas, aprender os segredos do dendê e em se acertar com ela.
O que isso tem a ver com a Rainha? Explico:
O marido virou cozinheiro porque percebeu que precisava mudar para permanecer e é aí que entra a Rainha da Inglaterra. O casamento do príncipe Harry com a americana Meghan Markle - que o mundo inteiro assistiu e continua a comentar, foi lindo e descontraído - para os padrões britânicos - com calculadíssimas quebras do protocolo, porém improvável de acontecer até pouco tempo atrás.
No entanto os tempos são outros e a realeza britânica teve a sensibilidade de perceber isto. Precisou mudar para permanecer.
A Rainha da Inglaterra quer que tudo permaneça, por isso muda.
O marido descobriu o que queria e mudou, para permanecer.
Ps: Vida longa e feliz para ambos os casais e, se tiverem ouvido o importante sermão do Reverendo Michael Curry com a devida atenção, certamente terão sucesso na empreitada.
Cozinhar é um modo de amar os outros"
Mia Couto
Ouvi uma história interessante que vale a pena contar.
Uma mulher, farta do marido que não parava em emprego nenhum e nem tinha pressa em arrumar outro, separou-se dele e, por falta de recursos, continuou morando na casa que pertencia aos dois.
Saía cedo pro batente e, quando retornava, lá estava ele na frente da TV. Fazia uns bicos, ganhava uns trocos, mas a maior parte do dia se aboletava no sofá. Cansada de esperar que as coisas mudassem parou de brigar e parou de se importar. Saía com os amigos do trabalho, um deles virou namorado e a vida começou a se ajeitar.
Um dia, assim que abriu o portão, sentiu um cheiro bom de comida no ar. De onde vem isso? Nada que a sua memória olfativa reconhecesse. A memória olfativa é poderosa, elimina tempo e distância. Eu mesma, quando sinto cheiro de doce de figo verde, me transporto para a casa da minha infância, revejo o fogão de lenha e o panelão onde os figos chegavam "no ponto" sob o olhar treinado da minha mãe. Como era bom!
Intrigada, entrou na cozinha devagar. Ele estava de costas, a mexer nas panelas. O que é isso? perguntou sem acreditar no que via. Ele se vira, limpa as mãos no avental e dispara um quer jantar comigo? Ela aceita. De susto!
A semana inteira foi assim, cada dia um prato diferente, saboroso, caprichado. Passou a vir direto do trabalho curiosa para saber qual era a surpresa do dia. Riam, conversavam e ele contou que viu que levava jeito vendo os programas de culinária da TV. Aprendeu a fazer pão e macarrão, os vizinhos começaram a fazer encomendas, melhorou a estrutura da cozinha e quase não tem tempo de assistir televisão.
Semana passada chegou com passagens pra Bahia. Está interessado em se inteirar de moquecas, aprender os segredos do dendê e em se acertar com ela.
O que isso tem a ver com a Rainha? Explico:
O marido virou cozinheiro porque percebeu que precisava mudar para permanecer e é aí que entra a Rainha da Inglaterra. O casamento do príncipe Harry com a americana Meghan Markle - que o mundo inteiro assistiu e continua a comentar, foi lindo e descontraído - para os padrões britânicos - com calculadíssimas quebras do protocolo, porém improvável de acontecer até pouco tempo atrás.
No entanto os tempos são outros e a realeza britânica teve a sensibilidade de perceber isto. Precisou mudar para permanecer.
A Rainha da Inglaterra quer que tudo permaneça, por isso muda.
O marido descobriu o que queria e mudou, para permanecer.
Ps: Vida longa e feliz para ambos os casais e, se tiverem ouvido o importante sermão do Reverendo Michael Curry com a devida atenção, certamente terão sucesso na empreitada.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
Portugal - Algumas Impressões
"O único modo de encontrar um
amigo é ser um."
Fernando Pessoa
Dias de lavar as roupas e limpar os sapatos que trouxemos da bela e empoeirada Lisboa, por óbvio e, também, para que fiquem de par com a alma que voltou lavada e arejada. O que me remete à D. Carlota Joaquina que, ao deixar o Brasil - que tanto detestava - sacudiu os sapatos ao embarcar no navio que a levaria de volta à Lisboa porque "do Brasil não quero levar nem o pó!" Não é o caso, aqui.
Mais importante das colônias do Portugal navegador e descobridor, temos - para o bem e para o mal -a nossa história entrelaçada por mais de três séculos. É interessante ver a figura do D. Pedro I - para eles D. Pedro IV - com o olhar do outro. Um bom exercício para entender pontos de vista diferentes de um mesmo fato. As últimas colônias, "em África" se emanciparam só na segunda metade do séc. XX.
A estabilização dos seus limites em 1.297 torna Portugal o país com as fronteiras mais antigas da Europa e, se depender do turismo para lhe gerar divisas está claramente bem servido. Turistas da Comunidade Européia lotam hotéis e museus. Sem falar nos japoneses e os chineses - estes em enxames. E nós.
Meu interesse pelo modo como as pessoas se expressam foi deliciosamente recompensado em Portugal... Se, como nos disse um taxista "os brasileiros falam português com samba", eu digo que os portugueses falam português com poesia. E não é pura poesia nos indicarem um restaurante requintado onde os guardanapos "são dobrados em pomba" e endereço é "dar a morada?" E no açougue escolhemos o nosso talho de eleição? E onde "um empregado de mesa, que está ali a nos indicar a melhor escolha" declara que nós, brasileiros e portugueses, falamos a "língua de Camões?" E que escrevemos igual, mas a pronuncia de lá é que é a correta, por castiça? E, elegantemente, fala na segunda pessoa do plural?
E os vinhos e os doces e o Douro e o Tejo? - largo como o mar - com o qual se junta lá pelos lados da Torre de Belém, bem pertinho da famosa confeitaria que produz os maravilhosos Pastéis de Belém, situada na rua do mesmo nome, número 84, desde 1837.
E o bacalhau, que nos motivou a ir lá.
Para a minha avó paterna, nascida Honorina de Sampaio Barros, de quem - desconfio - trago em mim estes momentos de devaneios...
amigo é ser um."
Fernando Pessoa
Dias de lavar as roupas e limpar os sapatos que trouxemos da bela e empoeirada Lisboa, por óbvio e, também, para que fiquem de par com a alma que voltou lavada e arejada. O que me remete à D. Carlota Joaquina que, ao deixar o Brasil - que tanto detestava - sacudiu os sapatos ao embarcar no navio que a levaria de volta à Lisboa porque "do Brasil não quero levar nem o pó!" Não é o caso, aqui.
Mais importante das colônias do Portugal navegador e descobridor, temos - para o bem e para o mal -a nossa história entrelaçada por mais de três séculos. É interessante ver a figura do D. Pedro I - para eles D. Pedro IV - com o olhar do outro. Um bom exercício para entender pontos de vista diferentes de um mesmo fato. As últimas colônias, "em África" se emanciparam só na segunda metade do séc. XX.
A estabilização dos seus limites em 1.297 torna Portugal o país com as fronteiras mais antigas da Europa e, se depender do turismo para lhe gerar divisas está claramente bem servido. Turistas da Comunidade Européia lotam hotéis e museus. Sem falar nos japoneses e os chineses - estes em enxames. E nós.
Meu interesse pelo modo como as pessoas se expressam foi deliciosamente recompensado em Portugal... Se, como nos disse um taxista "os brasileiros falam português com samba", eu digo que os portugueses falam português com poesia. E não é pura poesia nos indicarem um restaurante requintado onde os guardanapos "são dobrados em pomba" e endereço é "dar a morada?" E no açougue escolhemos o nosso talho de eleição? E onde "um empregado de mesa, que está ali a nos indicar a melhor escolha" declara que nós, brasileiros e portugueses, falamos a "língua de Camões?" E que escrevemos igual, mas a pronuncia de lá é que é a correta, por castiça? E, elegantemente, fala na segunda pessoa do plural?
E os vinhos e os doces e o Douro e o Tejo? - largo como o mar - com o qual se junta lá pelos lados da Torre de Belém, bem pertinho da famosa confeitaria que produz os maravilhosos Pastéis de Belém, situada na rua do mesmo nome, número 84, desde 1837.
E o bacalhau, que nos motivou a ir lá.
Para a minha avó paterna, nascida Honorina de Sampaio Barros, de quem - desconfio - trago em mim estes momentos de devaneios...
quinta-feira, 5 de abril de 2018
No Ônibus
O Universo conspira a favor
de quem não conspira
contra ninguém.
Conversadeira que sou, emudeço quando viajo de ônibus então, quando a senhora discreta pediu para se instalar no banco perto da janela, recolhi pernas e bolsa para lhe facilitar a passagem e me limitei ao "pois não" ao seu pedido de licença.
Da reforma da Rodoferroviária de Curitiba só tinha conhecimento das queixas dos usuários pelo tempo que durou. Ficou bom, aumentou espaço de estacionamento dos ônibus e circulação de passageiros. Fui direto para a banca de revistas reinstalada perto de onde lembro que ficava. Pedi uma e ouço a espantosa resposta da vendedora - não vendemos mais revistas, senhora! Como? Mas isto não é uma banca de revista? E ela, é, mas não tem revista. Surreal! Decepcionada me senti como quando - abandonado o cigarro - não sabia o que fazer com as muitas mãos que parecia que eu tinha. Subi para o segundo andar do ônibus onde a gente não vê o motorista e pensa que o que nos guia é o desejo das pessoas que se juntaram para ir ao mesmo lugar.
Meia hora de viagem, a vizinha de banco me perguntou, com gentileza, se eu gostaria que ela fechasse a cortina. Não, obrigada, não durmo no ônibus. Ela começou a puxar conversa. Disse, feliz, que ia pra Balneário Camboriú visitar uma amiga que não via há tempo. Que morava em Curitiba, na rua tal e eu comentei, sei, sei, tenho uma amiga que mora nesta rua e nos pegamos num papo solto! São parecidas as mulheres maduras, por mais diferentes que sejam a suas histórias pessoais têm muita coisa em comum. A viagem de ônibus voou! De repente, chegamos! A amiga já mandara um WhatsApp informando que a estava esperando. Tentei me despedir dela, iríamos pra lados diferentes, mas ela insistiu, "quero apresentar a minha amiga, é rápido!"
A amiga veio ao encontro dela sorrindo e eu a reconheci assim que a vi! Continuava com o olhar brilhante e franco de mais de cinquenta anos atrás! Era a minha querida professora Dagmar, do quarto ano primário! Não me reconheceu individualmente mas lembrou da turma, disse que recebera uma visita do Bento - que se tornara padre - em Brusque, onde era professora de matemática. O Bento me veio inteiro, aos dez anos, sentado no primeiro banco, à direita do meu.
Não aceitou meus argumentos de que eu moro no lado oposto ao dela e me levou em casa.
A nova amiga, feliz repetia,"eu sabia que tinha de apresentar a minha amiga a você."
No outro dia saímos juntas. Conversamos e rimos e nos divertimos como se fizéssemos isso a vida inteira. Foi bom e foi mágico. Nos despedimos afirmando que aquele havia sido só o primeiro encontro....
Para Lídia, que seguiu a intuição, insistiu e me fez um grande bem!
de quem não conspira
contra ninguém.
Conversadeira que sou, emudeço quando viajo de ônibus então, quando a senhora discreta pediu para se instalar no banco perto da janela, recolhi pernas e bolsa para lhe facilitar a passagem e me limitei ao "pois não" ao seu pedido de licença.
Da reforma da Rodoferroviária de Curitiba só tinha conhecimento das queixas dos usuários pelo tempo que durou. Ficou bom, aumentou espaço de estacionamento dos ônibus e circulação de passageiros. Fui direto para a banca de revistas reinstalada perto de onde lembro que ficava. Pedi uma e ouço a espantosa resposta da vendedora - não vendemos mais revistas, senhora! Como? Mas isto não é uma banca de revista? E ela, é, mas não tem revista. Surreal! Decepcionada me senti como quando - abandonado o cigarro - não sabia o que fazer com as muitas mãos que parecia que eu tinha. Subi para o segundo andar do ônibus onde a gente não vê o motorista e pensa que o que nos guia é o desejo das pessoas que se juntaram para ir ao mesmo lugar.
Meia hora de viagem, a vizinha de banco me perguntou, com gentileza, se eu gostaria que ela fechasse a cortina. Não, obrigada, não durmo no ônibus. Ela começou a puxar conversa. Disse, feliz, que ia pra Balneário Camboriú visitar uma amiga que não via há tempo. Que morava em Curitiba, na rua tal e eu comentei, sei, sei, tenho uma amiga que mora nesta rua e nos pegamos num papo solto! São parecidas as mulheres maduras, por mais diferentes que sejam a suas histórias pessoais têm muita coisa em comum. A viagem de ônibus voou! De repente, chegamos! A amiga já mandara um WhatsApp informando que a estava esperando. Tentei me despedir dela, iríamos pra lados diferentes, mas ela insistiu, "quero apresentar a minha amiga, é rápido!"
A amiga veio ao encontro dela sorrindo e eu a reconheci assim que a vi! Continuava com o olhar brilhante e franco de mais de cinquenta anos atrás! Era a minha querida professora Dagmar, do quarto ano primário! Não me reconheceu individualmente mas lembrou da turma, disse que recebera uma visita do Bento - que se tornara padre - em Brusque, onde era professora de matemática. O Bento me veio inteiro, aos dez anos, sentado no primeiro banco, à direita do meu.
Não aceitou meus argumentos de que eu moro no lado oposto ao dela e me levou em casa.
A nova amiga, feliz repetia,"eu sabia que tinha de apresentar a minha amiga a você."
No outro dia saímos juntas. Conversamos e rimos e nos divertimos como se fizéssemos isso a vida inteira. Foi bom e foi mágico. Nos despedimos afirmando que aquele havia sido só o primeiro encontro....
Para Lídia, que seguiu a intuição, insistiu e me fez um grande bem!
sexta-feira, 9 de março de 2018
Mulher no Dia a Dia
"Você tem de cometer erros para
descobrir aquilo que não é."
Margareth Thatcher
Dia da Mulher, elevo pensamento e sentimento na intenção das mulheres que lutaram e sofreram e morreram para que todas tivéssemos vida melhor. À elas, respeito e gratidão.
...e penso nas mulheres que fizeram ou fazem parte da minha vida e que, de um jeito ou de outro, me tornaram o que sou. Com algumas aprendi a ser, com outras a não ser. Filha única com três irmãos ao redor, sentia falta de uma irmã. Teve um tempo em que eu acreditava que, se tivesse um casaco de lã azul marinho com botões dourados e martingale - e uma irmã (nessa ordem) - eu não precisaria de mais nada para ser feliz. Não tive nenhum dois dois e cedo percebi que possuir o casaco era mais fácil do que ter a irmã. Depois, moça, tive uma irmãzinha que chegou já nascida e que fez a nossa alegria, da casa inteira. A vida flui, as coisas passam... hoje, madura, sei que devo muito do que sou à mãe que tive - que se foi tão cedo - e que foi dela que aprendi a não me vitimizar nunca. Era ereta, a minha mãe. Com minha avó, que passava longas temporadas na nossa casa, aprendi a ser resiliente, a começar de novo. Da outra avó, paterna - esparramada em ternura - com quem convivi muito pouco e, por isso mesmo absorvi tudo o que pude, aprendi que a vida não precisa ser tão dura, mesmo que seja. É preciso olhar em volta, mudar o foco. Sempre funciona.
Com minhas filhas, íntegras e fortes aprendo mais de mim, e me orgulho e me enterneço porque sei que posso contar com elas como elas sabem que podem contar comigo. E fico feliz quando rimos juntas. Rir com os filhos é a confirmação de que acertamos mais do erramos.
E com as amigas, as que a vida separou, mas que continuam tão em mim, porque nossos caminhos se confundem e nem sempre sei se isso ou aquilo de que me lembro é meu ou delas. As que foram surgindo na confluência de interesses, que me cativaram e que cativei e com quem - como a raposa e o principezinho - começo a ficar feliz pela expectativa do encontro e, quando a hora chega, estamos alvoraçadas de felicidade. Com elas gasto a vida sem economia, mas com critério. Não é mais tempo de desperdício.
São muitas as irmãs que tenho. O casaco, faz tempo que não quero mais.
E com a minha neta, com quem aprendo a ser melhor do que eu, desde o primeiro instante em que a vi.
descobrir aquilo que não é."
Margareth Thatcher
Dia da Mulher, elevo pensamento e sentimento na intenção das mulheres que lutaram e sofreram e morreram para que todas tivéssemos vida melhor. À elas, respeito e gratidão.
...e penso nas mulheres que fizeram ou fazem parte da minha vida e que, de um jeito ou de outro, me tornaram o que sou. Com algumas aprendi a ser, com outras a não ser. Filha única com três irmãos ao redor, sentia falta de uma irmã. Teve um tempo em que eu acreditava que, se tivesse um casaco de lã azul marinho com botões dourados e martingale - e uma irmã (nessa ordem) - eu não precisaria de mais nada para ser feliz. Não tive nenhum dois dois e cedo percebi que possuir o casaco era mais fácil do que ter a irmã. Depois, moça, tive uma irmãzinha que chegou já nascida e que fez a nossa alegria, da casa inteira. A vida flui, as coisas passam... hoje, madura, sei que devo muito do que sou à mãe que tive - que se foi tão cedo - e que foi dela que aprendi a não me vitimizar nunca. Era ereta, a minha mãe. Com minha avó, que passava longas temporadas na nossa casa, aprendi a ser resiliente, a começar de novo. Da outra avó, paterna - esparramada em ternura - com quem convivi muito pouco e, por isso mesmo absorvi tudo o que pude, aprendi que a vida não precisa ser tão dura, mesmo que seja. É preciso olhar em volta, mudar o foco. Sempre funciona.
Com minhas filhas, íntegras e fortes aprendo mais de mim, e me orgulho e me enterneço porque sei que posso contar com elas como elas sabem que podem contar comigo. E fico feliz quando rimos juntas. Rir com os filhos é a confirmação de que acertamos mais do erramos.
E com as amigas, as que a vida separou, mas que continuam tão em mim, porque nossos caminhos se confundem e nem sempre sei se isso ou aquilo de que me lembro é meu ou delas. As que foram surgindo na confluência de interesses, que me cativaram e que cativei e com quem - como a raposa e o principezinho - começo a ficar feliz pela expectativa do encontro e, quando a hora chega, estamos alvoraçadas de felicidade. Com elas gasto a vida sem economia, mas com critério. Não é mais tempo de desperdício.
São muitas as irmãs que tenho. O casaco, faz tempo que não quero mais.
E com a minha neta, com quem aprendo a ser melhor do que eu, desde o primeiro instante em que a vi.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Egoísmo e Humildade
Aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo, nem orgulho.
É Amor Próprio.
Charles Chaplin
Não sei quanto o governo economizou por nos dar uma hora a mais de luz natural, mas o verão fez questão de aproveitar quase nada. Segunda feira, já com os relógios nos conformes, ele apareceu todo exibido e com trovoadas de fim de tarde. Pra mim, valeu. Sou fã de horário de verão. Como uma coisa puxa outra lembrei de um dia desses na praia, onde um bando de maduros discutíamos a própria realidade e o que achamos que é viver bem, com as gentilezas que nos permitirmos.
A conclusão geral é que necessitamos ser egoístas, palavra desvirtuada pelo mau uso que se faz dela. Repare nos pecados capitais criados pela igreja católica para facilitar seu trabalho: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça, Vaidade. Profundamente humanos e universais, nenhum deles é sinônimo de egoísmo. Do "Conhece-te a ti mesmo" dos gregos até o Amai ao próximo como a ti mesmo" que Jesus deixou como um Mandamento Novo, é essencial olhar para dentro e saber de si.
Queremos " pouco" nessas alturas - saúde boa, amigos perto, amores certos e dinheiro - o suficiente para não precisar lembrar dele. E nos divertir. Gente vivida gosta de festa, de riso, de troca de afetos.
Filhos criados, os amamos sem medidas, mas são deles os caminhos que escolheram, e deles os percalços da jornada. De netos, penso que são a melhor definição do que seja eternidade, mas não nos pertencem.
Continuamos a ser "um lugar para voltar" com as portas do coração abertas de par em par.
Somos donos de nós, e é a quem devemos explicações e paciência. Está aí uma coisa que os jovens não sabem. Precisamos ter uma enorme paciência conosco porque ficamos em nós as 24 horas do dia. Pensa que é fácil? Conhecemos bem os nossos limites.
Aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, a dizer não ao que nos fere ou desrespeita porque temos coragem de romper paradigmas.
Chegados até aqui, voltamos a ter certezas. Poucas, mas fundamentais.
É Amor Próprio.
Charles Chaplin
Não sei quanto o governo economizou por nos dar uma hora a mais de luz natural, mas o verão fez questão de aproveitar quase nada. Segunda feira, já com os relógios nos conformes, ele apareceu todo exibido e com trovoadas de fim de tarde. Pra mim, valeu. Sou fã de horário de verão. Como uma coisa puxa outra lembrei de um dia desses na praia, onde um bando de maduros discutíamos a própria realidade e o que achamos que é viver bem, com as gentilezas que nos permitirmos.
A conclusão geral é que necessitamos ser egoístas, palavra desvirtuada pelo mau uso que se faz dela. Repare nos pecados capitais criados pela igreja católica para facilitar seu trabalho: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça, Vaidade. Profundamente humanos e universais, nenhum deles é sinônimo de egoísmo. Do "Conhece-te a ti mesmo" dos gregos até o Amai ao próximo como a ti mesmo" que Jesus deixou como um Mandamento Novo, é essencial olhar para dentro e saber de si.
Queremos " pouco" nessas alturas - saúde boa, amigos perto, amores certos e dinheiro - o suficiente para não precisar lembrar dele. E nos divertir. Gente vivida gosta de festa, de riso, de troca de afetos.
Filhos criados, os amamos sem medidas, mas são deles os caminhos que escolheram, e deles os percalços da jornada. De netos, penso que são a melhor definição do que seja eternidade, mas não nos pertencem.
Continuamos a ser "um lugar para voltar" com as portas do coração abertas de par em par.
Somos donos de nós, e é a quem devemos explicações e paciência. Está aí uma coisa que os jovens não sabem. Precisamos ter uma enorme paciência conosco porque ficamos em nós as 24 horas do dia. Pensa que é fácil? Conhecemos bem os nossos limites.
Aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, a dizer não ao que nos fere ou desrespeita porque temos coragem de romper paradigmas.
Chegados até aqui, voltamos a ter certezas. Poucas, mas fundamentais.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Na Praia
"Cuendo calienta el sol
aqui en la playa
Siento tu cuerpo vibrar cerca de mí.."
Hermanos Rigual *
Vizinhos de areia mudam todos os dias e, se nos quedamos ao sol o dia inteiro, variam no decorrer do período. Gosto de observar essa intermitência de quem chega e de quem sai e perceber as alternâncias da vizinhança.
No guarda-sol ao lado, ouço a resposta da mulher ao vendedor da mega sena acumulada. "A gente não quer moço, a gente é rico". Chega o haitiano, oferece pau de selfie, e a resposta é " a gente não quer moço, a gente já tem de todas as cores"... alguma dúvida? Suponho que seja para combinar com a capinha do celular. O som, pequeno e potente, propaga:
Rapariga, não! Rapariga, não!
Lava a sua boca com água e sabão!
Depois piora:
Faço devagar, faço devagar,
Faço devagar que é pra ela se apaixonar.
Como diz minha filha, é o cerumano, mãe!
Do outro lado, o pessoal comenta com o vendedor de sanduíche natural que o céu escurece de repente. O moço, com ares de quem sabe o que diz, olha o pretume que se aproxima do continente, depois mira o pretume que vem do mar e determina: eeee... essa manchinha que vem de lá e se achega da manchinha que vem de cá? nãao, nada de chuva, fique susse!
Eu, que já juntava cadeira e canga decidi confiar no moço, roupa de marinheiro, com quepe de âncora e com anos de praia. Pode não ter experiência em vagas e ventos em alto mar, pois isso é assunto para marinheiros de outra cepa, mas de claros e escuros na areia ele entende. Fiquei e acertei. O céu foi clareando, clareando, despontou um azul lá no horizonte, os vizinhos ricos recolheram som e selfie e se foram e a praia clareou também, na areia.
Li um pouco, cochilei outro tanto e quando cheguei à fila do chuveiro para tirar as areias de mim, o moço a minha frente cedeu-me a vez, segurou minhas tralhas e acionou o chuveiro.
Digo eu pra minha filha, é o ser humano, filha!
Ganhei a crônica - que saiu inteira - e ganhei o dia.
* Consta que a música é do nicaraguense Rafael Gaston Perez que a vendeu ao trio cubano que fez um sucesso extraordinário com ela. A letra original era... quando calienta el sol en Masapacha, cidade litorânea distante 60 km de Manágua, capital da Nicarágua.
Fonte: El Blog del bolero: Oswaldo Paez
aqui en la playa
Siento tu cuerpo vibrar cerca de mí.."
Hermanos Rigual *
Vizinhos de areia mudam todos os dias e, se nos quedamos ao sol o dia inteiro, variam no decorrer do período. Gosto de observar essa intermitência de quem chega e de quem sai e perceber as alternâncias da vizinhança.
No guarda-sol ao lado, ouço a resposta da mulher ao vendedor da mega sena acumulada. "A gente não quer moço, a gente é rico". Chega o haitiano, oferece pau de selfie, e a resposta é " a gente não quer moço, a gente já tem de todas as cores"... alguma dúvida? Suponho que seja para combinar com a capinha do celular. O som, pequeno e potente, propaga:
Rapariga, não! Rapariga, não!
Lava a sua boca com água e sabão!
Depois piora:
Faço devagar, faço devagar,
Faço devagar que é pra ela se apaixonar.
Como diz minha filha, é o cerumano, mãe!
Do outro lado, o pessoal comenta com o vendedor de sanduíche natural que o céu escurece de repente. O moço, com ares de quem sabe o que diz, olha o pretume que se aproxima do continente, depois mira o pretume que vem do mar e determina: eeee... essa manchinha que vem de lá e se achega da manchinha que vem de cá? nãao, nada de chuva, fique susse!
Eu, que já juntava cadeira e canga decidi confiar no moço, roupa de marinheiro, com quepe de âncora e com anos de praia. Pode não ter experiência em vagas e ventos em alto mar, pois isso é assunto para marinheiros de outra cepa, mas de claros e escuros na areia ele entende. Fiquei e acertei. O céu foi clareando, clareando, despontou um azul lá no horizonte, os vizinhos ricos recolheram som e selfie e se foram e a praia clareou também, na areia.
Li um pouco, cochilei outro tanto e quando cheguei à fila do chuveiro para tirar as areias de mim, o moço a minha frente cedeu-me a vez, segurou minhas tralhas e acionou o chuveiro.
Digo eu pra minha filha, é o ser humano, filha!
Ganhei a crônica - que saiu inteira - e ganhei o dia.
* Consta que a música é do nicaraguense Rafael Gaston Perez que a vendeu ao trio cubano que fez um sucesso extraordinário com ela. A letra original era... quando calienta el sol en Masapacha, cidade litorânea distante 60 km de Manágua, capital da Nicarágua.
Fonte: El Blog del bolero: Oswaldo Paez
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