domingo, 24 de maio de 2020

Nonsense


Republiquei A Praia, crônica escrita há dois anos, em que contava de um dia de praia no auge do verão. Pretendia - com a evocação daquele dia - torná-lo palpável.  Pensei que o sol e o mar, e o calor que persiste neste maio seco - fundamentais para um belo dia de praia - fossem suficientes para trazer aquele dia para perto, ainda que na imaginação.

A narrativa ficou tão fora de contexto que não funcionou. Ficou forçada e fugidia, apesar de ter sido real e verdadeira.
É um enganar - se crer que a força do nosso querer faça acontecer o que desejamos que aconteça.
Não faz.

Tento escrever e reclamo que maltrato o teclado e não consigo verter nada que faça sentido. Instigada pela pergunta com que uma amiga reagiu a minha queixa "por quê sentido? " recomeço o texto e decido deixar a vida sonhada em suspenso, até que tudo se acomode.

Foco nas praticidades. Minha conta de água beirou os 400 reais nos mês de abril e ligo pro 0800 da concessionária, que me orienta a entrar com um pedido de revisão de fatura pelo site.
Argumento que tenho dificuldades com estas tecnologias e o atendente informa que, então, terei de ir pessoalmente.

Vou e sou atendida rapidamente. Uma pessoa por vez, todas com máscaras. A moça, atrás da parede de acrílico, registra a queixa e faz com que eu escreva uma carta, "de próprio punho" explicando tudo o que eu tinha dito e me orienta que, se o hidrômetro do meu apê está embaçado, embaçadíssimo, devo trocá - lo, levá - lo até lá para ser examinado e aguardar a decisão do setor responsável. Me assegura que a fatura permanece suspensa até que o processo termine.

Feita a troca do referido hidrômetro, depois de muitas idas e vindas, retornei  à concessionária.
Mesmo cuidado, atendimento rápido. A atendente é outra. Explico tudo de novo e ela pergunta:
A senhora solicitou uma análise para verificar se seria caso de troca? Só pode trocar depois do aval do técnico da empresa.
Informo, já meio aflita, que a moça que me atendeu disse para trocar e levar, tirar fotos do número do novo instrumento e do consumo registrado. Mostro a cópia da carta "de próprio punho" e ela localiza o processo no sistema. Pega o hidrômetro e pede que eu aguarde 5 minutinhos. Volta e me devolve. Pergunto: O que faço com ele? Devo guardá-lo? Ela responde: É seu, senhora, faça o que quiser com ele.
Só penso. Não respondo.
Ela reitera que o processo continua em suspenso. Agradeço.

Saio - e levito - em busca de uma Pasárgada possível.




quarta-feira, 6 de maio de 2020

A LIVE!

A primeira live é como o primeiro tudo!  Quando passa a gente se pergunta, então é isso?
E fica a frustração da performance  e/ou da resposta brilhante, sempre tardia, sempre depois.
Quando a Inverso me ligou dizendo que eu tinha sido selecionada, entre outras escritoras, para participar de uma live  com a intenção de  promover títulos que remetessem ao universo materno - nesses dias que antecedem o Dia das Mães - aceitei de pronto.

Sem ideia de como a coisa funciona, o primeiro que fiz foi arranjar tinta para pintar o cabelo!
Nada de desleixo, do relaxo que o isolamento facilita.
Isso resolvido, tratei de aprender.

Pedi socorro  aos filhos, amigos e amigas e, todos diziam a mesma coisa - ah, é fácil!
O mais difícil você já fez, que foi escrever - e eu pensava que o mais difícil era ouvir que era fácil. Meus escritos são um condensado de vida inteira, decantados, marinados e que se materializam sem a urgência do já, do pra ontem, sem a premência que a live exige.
Escrevo com o uso da vida, com o manejo do viver.
De  lives, de insta, de briefing, não tenho traquejo nenhum.

Não sou competitiva, mas não fujo da raia. Meus embates são comigo mesma. E encarei a coisa do mesmo jeito que encaro a vida. Fazer o que deve ser feito. Quase sempre dói. Sempre alivia.
A pressão maltrata, mas empurra.
Entre sobressaltos, suores, taquicardias, chegou o dia!

Tudo pronto, conexão efetuada, caindo, caída, recuperada, sumindo, a saída foi continuar sem imagem, só com voz. E foi assim com a primeira entrevistada e a segunda.
Eu era a terceira.

Nessas alturas, eu lamentava não ter pegado um guardanapo de papel para retorcer, dobrar, amassar e rasgar em pedacinhos. Quem me conhece bem, sabe do que estou falando. Até entrada de cinema já perdi porque - filme bom, fila grande, ao chegar a minha vez de apresentar o ingresso ele estava todo torturado, todo picado.
Eis que me chamam e eu apareço! Que bom que não estou picando papel. Ufa!

Meu tema era o da mãe madura, com filhos adultos, tocando a própria vida. Ela e eles.

Gosto do conceito da mãe desnecessária. Sou uma mãe desnecessária.
Entendo que, entre erros e acertos, acertamos mais do que erramos.
Ficamos na tangente - observando -  prontas a ajudar, nunca a intervir.
Oh! Aprendizado difícil!

Acredito que somos desnecessárias, porém imprescindíveis. Creio que somos bem vindas, amadas, queridas. Penso que somos boas companhias e que os filhos desejam o nosso bem estar e - na faixa contrária da via dupla de que a vida é feita - nos observam com o mesmo olhar atento com que os observamos e que não medirão esforços em nos atender e nos cuidar.
E tenho a convicção - adquirida em décadas de prática - de que é tempo de não ser disponível.
Nem aos filhos, nem a ninguém.

Feliz Dia das Mães para todas as mães do mundo e que cada uma de nós se sinta próxima dos filhos, mesmo que não esteja perto.








domingo, 26 de abril de 2020

Quanto Sentimento!

"Pra lembrar que quando a vida
  esmurra a porta
  A gente solta o trinco e lhe oferece
  um chá
  Pede calma e bota a alma pra pensar"
             Zélia Duncan/ Feliz Caminhar
                 


Aproveitei o gancho, dia desses, numa publicação da Mônica - radiosa companheira de ofício -  que comentava, feliz, "que aquele era dia de fazer sagu" e aproveitei para republicar um texto antigo, onde contei da dificuldade que tenho em acertar o o ponto do dito cujo. Sou boa, sem falsa modéstia, nessas coisas de doce de ponto. Mas o sagu me frustra sempre. Desisti.

Travada pelas circunstâncias - pelo pandemônio da epidemia - e esta não é, infelizmente, uma figura de retórica, desisti de postar as minhas percepções do isolamento.
Após três textos sobre o assunto, ao reler o quarto que escrevi - e não postei, por repetitivo - senti a aridez dos desertos, mas o sagu da Mônica me soprou caminhos para um oásis tangível, me pousou no chão seguro do corriqueiro, do conhecido, do que nos norteia.

No momento, a humanidade enfrenta o medo e cada um lida com a frustração do interrompido, do que teve que cancelar e desistir. Do afastamento uns dos outros, e também do confinamento de uns com os outros. A minha, óbvia, é a constatação de que o primeiro livro lançado em idade madura, que me deu uma alegria imensa e genuína, que começava a andar sozinho e que abria um caminho bonito, está suspenso num limbo ao qual não tenho acesso, à espera, à espera, à espera.
Ele e eu.

Minha amiga Maristela, amorosa e preocupada, me estimula e manda links e insiste e desenha caminhos e me indica pessoas para que eu faça lives para promover meu  "Terceiro Ato". 
Em um deles, me alerta que só posso falar durante quarenta minutos. E penso sobre o que teria a dizer por quarenta minutos se, quando recebo vídeo chamadas e, - antes dos quatro - me invade um desassossego que me força a terminar a conversa, mesmo que seja com a minha filha amada que mora em Lisboa e que não vejo desde o ano passado?

Então, a Mônica aparece com o conforto familiar do sagu e - naquele momento - coloca tudo no lugar e parece que tudo vai acabar bem.

Comecei este texto há dois dias. Pretendia ultimá-lo e publicá-lo ontem. Porém, os fatos se atropelaram de tal maneira, com tanta violência, assombro e susto que, mais uma uma vez me vi travada.
Junta-se o medo da doença com o assombro da crise política. Particularmente me sinto como se estivesse num barco à deriva, sem âncora e sem cais à vista.
E não consegui escrever nenhuma linha.

Decidi, neste sábado de isolamento, me recolher para me preservar.  Ouvir música, ler um pouco, reabastecer a geladeira, - o que faço uma vez por semana - e que me toma um tempo danado quando volto pra casa para lavar, limpar e desinfetar minhas roupas e as compras.

E entendi que sou eu que dou sentido à vida que é minha. E o texto voltou a fluir.
Boa semana a todos!




quarta-feira, 8 de abril de 2020

Vigésimo Primeiro Dia



O isolamento continua - é imperioso - e o desafio aumenta.
A quarentena se espicha. A realidade se impõe. O dia de ir e vir sem cuidados se afasta.

Perseverar é a única opção e, passadas três semanas, preciso de mais força para manter foco e fé.
Têm dias em que a saudade me assalta, generalizada, sem nome nem lugar. Nesses dias é como se eu sentisse falta de mim. Tão cerceada, me faltam partes minhas. E sinto falta dos meus filhos e da minha neta. E das minhas amigas.

Em outros, sinto saudades específicas, como a saudade do pão que a minha mãe fazia e que punha a crescer numa panela inoxidável larga e alta. De tempos em tempos, intuição forjada na prática, ela conferia o crescimento e, com a mão aberta, empurrava a massa pra baixo. A superfície ficava tatuada com os dedos dela. Tornava a cobrir a panela com o mesmo pano, que chamava de "pano do pão."
A massa, comprimida, reagia, e crescia mais e maior.
Assado, inundava a cozinha com o cheiro maravilhoso do pão fresco.
A casca quente, besuntada de manteiga nutria o corpo e aquecia a alma.

Têm noites em que acordo transpirando, coração em descompasso e - nunca pensei que um dia diria isso - sinto saudades dos suores da menopausa porque aqueles tinham causas naturais, conhecidas e contornáveis.
Os de agora, surgem do medo que de dia não tenho e que à noite me invade, sem dar aviso e sem cerimônia.

E reajo, alerta, porque é o que preciso fazer.
Depois, se tiver sorte, rearranjo prioridades.
Emoções, em  situações de exceção são, ao mesmo tempo, inevitáveis e ardilosas. Há que se manter o prumo e a esperança.
Nas estranhezas é indispensável ser objetiva. E  não ceder à emoção e ao medo, naturais e inevitáveis.
Dá para afirmar, sem o risco de cometer exagero que o mundo inteiro tem medo, nesses dias de um assunto só e suas inúmeras consequências.

Estamos na semana  da Páscoa.
Não importa em qual altar cada um se ajoelhe, não importa qual o lugar do sagrado em cada indivíduo. Não importa, ao outro, o que nos consola. E vice versa. No fundo e no fim, todos queremos continuar a acreditar que nosso destino pertence ao imponderável, ao que cada um entende por Deus, e que poderemos, logo ali adiante, retomar a vida interrompida e voltar a crescer, como a massa do pão que, socada na forma, cresce e transborda.
Conforta acreditar que a vida flua e que a morte não tenha data marcada.
Feliz Páscoa para todos em todo o mundo.













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quarta-feira, 1 de abril de 2020

O Isolamento e Nós.



Décimo quinto dia de isolamento e releio o texto da semana passada para balanço. Comparo o próprio estado emocional daquele dia com o de hoje. De maneira geral, minha estratégia tem funcionado. Porém, aumentou a necessidade de me apoiar em algumas falas que ouço e em escritos que falam comigo.

Como a entrevista de uma psicóloga que trabalha com idosos que, questionada sobre o desafio da solidão para este grupo, respondeu, "os idosos têm mais espaços de solidão." Também disse que a Internet nos tem sido importantíssima - eu concordo - e acrescentou que, como é uma ferramenta que não fez parte da maior parte da nossa vida, também temos, na prática, na lida do dia a dia, uma experiência rica de solitude. Ficamos confortáveis sozinhos. Isso é solitude.
Entendo e sinto assim, e esta verdade tem sido muito útil, neste momento.

Está sendo de muita ajuda, também, a entrevista com o escritor sergipano Francisco J. C. Dantas, sobre seu ultimo livro "Uma jornada como tantas" concedida ao jornalista Luiz Rebinski e publicada no Jornal Relevo, da Editora Letras & Livros de Curitiba -  edição de março. Leituras interessantes fazem um grande bem.
Professor de literatura, teve o primeiro livro publicado aos 50 anos, em 1991. A conversa inteira é um deleite, daqueles de voltar e ler de novo. Considerado um escritor regionalista porque pratica uma escrita com termos e expressões da tradição oral, ele solta pensamentos de vivência profunda, ensina sem  pretender, alarga o olhar, de graça, é só sentir e querer.

Certo que ontem passei duas horas dando um trato na máquina de lavar roupa. Limpei o cestinho que filtra impurezas com minúcia desmedida. Foram uns vinte palitos de dente para que a gradinha ficasse como nova.

E, hoje pela manhã, atendendo o chamado da equipe da Secretaria da Saúde que percorre todas as ruas da cidade convocando os idosos para tomar a vacina da gripe, eu tenha agradecido, comovida, num sentimento misto de cidadania e acolhimento.

E, em seguida, liguei para a minha amiga que também mora aqui para contar toda contente, que eu também já tinha recebido a vacina. Na rua dela foi ontem.

E, nós duas choramos ao telefone e depois rimos muito porque percebemos que "até parecemos duas velhinhas bobas e felizes porque tomaram vacina". E rimos mais ainda porque não só parecia, era o que estávamos fazendo.
As sandices que confesso funcionam para manter o equilíbrio emocional para que o corpo não adoeça.
Um pouco de doidice é indispensável para mensurar a normalidade.




segunda-feira, 23 de março de 2020

O Sétimo Dia!

"No sétimo dia Deus descansou."
  (Gênesis 2:2 - 3)



Sonhei que meu celular, que estava no bolso, tinha sido trocado por uma caixinha de plástico com as medidas de um celular de verdade. Do susto inicial e ainda sonhando ponderei que, se estava há uma semana de quarentena, isso seria impossível.
Era o subconsciente reagindo à própria armadilha.

Perder celular é sempre um grande incômodo e agora seria um drama, principalmente para quem, como eu, atravessa esse período sozinha. É desafiador, como sei que ficar confinado em casa e em família é tão desafiador quanto. A diferença é que, em família, teriam outros celulares a servir de contato e socorro.

É importante criar uma rotina diária. Decidi que só assisto as notícias depois das 20:00 h e troco de canal assim que sei das mudanças nas últimas 24 horas. Noventa por cento de tudo que se propaga, posta ou fala é repetição, fake news ou polêmicas que só servem para acirrar os ânimos já combalidos e abalados.
A realidade é suficiente.

De manhã coloco uma roupa de sair, mesmo que eu não saia, uso maquiagem leve, mesmo que ninguém me veja. Como só verei a mim, a mim me cabe fazer com que o espelho me devolva uma boa versão de mim mesma.

Tenho a sorte de morar num apartamento com um terraço grande e ensolarado. Faço dele minha praia e ando de lá prá cá e apanho sol e aproveito para fazer atividades externas. Ontem resolvi raspar, com uma espátula, a tinta que o moço que pintou o muro passou no meu vaso grande de cimento.
Foi pra combinar com o muro, dona, a senhora não gostou?
Depois de tanto tempo, a arte do pintor serve para que eu me ocupe.

Vaso recuperado, planto a muda da arvorezinha que a vizinha me deu. Ela me informa que tem a planta há vinte e um anos e que foi a mãe que plantou, pouco antes de deixá-la. Respondo que é uma honra e que cuidarei dela com carinho.

E o dia passa, e vou e volto, e sento e escrevo, e leio as mensagens e danço um bocadinho ao som de This Is My Song na voz de Petula Clark que a memória resgata e comove.
E espero.

E a rádio da TV, sintonizada nos "Anos 60" continua com os Beatles cantando All We Need is Love.
Atual,não é?









terça-feira, 17 de março de 2020

O Evento!

"Viver é a coisa mais rara do mundo."
                                     Oscar Wilde


Munida da requisição para fazer fisioterapia por conta de um menisco do joelho que dá sinais de que a coisa está além das suas capacidades, me dirijo à clinica para marcar as sessões.

A recepcionista afasta a máscara de proteção e informa que não estão atendendo pessoas do grupo de risco.
Agora, só emergências. Nas clínicas e em todos os hospitais, acrescenta ela.

Tenho que negociar com ele, o menisco, para que me dê umas semanas de trégua. Isso aconteceu terça - feira, dia 17 há menos de 48 horas. Depois daquele momento tudo mudou tão rápido e continuou a mudar tanto que fica difícil acreditar que tenha sido há dois dias.

E lembro da quinta feira passada, há apenas uma semana em que Mônica e eu lançamos os nossos livros na Livraria Catarinense do Shopping Balneário e que amigos atenderam ao nosso convite e compareceram para nos prestigiar. A maioria era formada por um animado grupo de risco. Foi um encontro alegre e cheio de afeto. Revi amigos que não via há muitos anos e nos abraçamos, saudosos e espontâneos. Rimos, felizes, como se a vida fosse eterna.

E penso que os Encontros Felizes, tão caros à Mônica, têm que esperar um pouco, mas vão voltar a acontecer, tão felizes quanto.
E,  no meu Terceiro Ato, embebido da percepção da finitude - incontornável - e pleno de alegria e gratidão pela vida, a vivida e a à viver, sem data anunciada para acabar.

Acredito que a necessidade de ficar em casa não será por muito tempo e, embora esse conceito seja elástico, devo fazer a minha parte para não dificultar ainda mais o trabalho dos profissionais de saúde que estão nas frentes de batalha.
É o velho e bom "quem não ajuda não atrapalha"...

Quero aceitar convites como pede a Mônica e, mais do que isso, promover encontros que terão  o status de eventos, porque viver sem risco iminente a nos rondar é por si só dádiva, sorte e regalo.
E não quero perder ninguém.
Viver é o quanto basta.





sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Primeira Vez

" Um bom começo é a metade"
                            Aristóteles


Comecei a escrever como milhões de pessoas fazem todos os dias, porém em uma idade em que estamos nos aposentando.
Não sei das motivações das outras, a minha foi a de me arrumar por dentro. Não tenho disciplina, hora marcada, nada disso, mas tenho método. Também não pensei que o que eu estava dizendo teria importância ou ressonância.

Mudei de casa mais vezes do que dá para contar nos dedos e, em todas elas, a primeira preocupação era descobrir o lado em que o sol batia. A última em que morei não recebia luz direta, os prédios ao derredor impediam a sua entrada.
Todas as mudanças foram em função de demandas da família que formei, por vontade e escolha.  Agora moro na praia e não tenho pretensão de me mudar.
Aqui, acompanho as construções que brotam no meu entorno e vigio - impotente - os prédios a subir cada vez mais altos e o sol a ficar cada vez mais escasso.

Em todas as moradas construí cotidianos. Rotinas são partes dos hábitos que nos tornam quem somos. Coisas como tomar café da manhã com leite ou sem, comer pão com manteiga ou não...

Cotidiano é diferente.
Começo pelo supermercado mais próximo, farmácia e banco. Tenho uma amiga que diz que eu adoro ir ao banco. Brinco com ela e digo que vou administrar o dinheiro que não tenho. À partir desse reconhecimento, dos novos trajetos, dos caminhos mais curtos, ajeito o cotidiano. E aprendo a ser maleável.

Agora aparecem necessidades novas.
Com a aceitação que o livro está tendo, surgem pedidos que, se não mudam a rotina, alteram e expandem o meu cotidiano.
Trata-se de uma inusitada " Primeira Vez."
Como é a primeira vez que escrevo um livro é a primeira vez que dou autógrafos, que participo de lançamentos, que sou convidada para rodas de Bate Papos.
E que recebo gratificantes depoimentos de identificação com os textos que escrevo.

Com o repertório que acumulei (Ah! Marilena querida, você não faz ideia do quanto me ajuda), vejo o percorrido com a temperança que os anos me deram e não tenho nenhuma dúvida de que tudo valeu a pena e valeu muito.

Então, neste fevereiro que marca quarenta e cinco anos em que segui a rota mais consistente da minha vida, constato, feliz, que debuto em um ofício novo! Que as demandas que surgem são compromissos de trabalho, que a trilha virou caminho e, como disse uma amiga que encontrei na praia que "a gente tem costume de colocar tempo nas coisas..."
O que é pra ser, será.










sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A Receita


 "Gosto de cozinhar com vinho
    Às vezes, até coloco na comida."
                         Domínio Popular


             
Minha amiga, boa de garfo e melhor ainda nos misteres de forno e fogão, me convidou para jantar.
Disse que chamou mais duas amigas comuns e que seríamos quatro à mesa. Andava em dúvidas sobre como preparar um polvo e, sabedora de que me arrisco nessas coisas de frutos do mar, perguntou-me se eu tinha intimidade com o molusco. 

Tenho sim, disse a ela, quanto reúno um grupo de seis ou mais pessoas, preparo uma caldeirada e o polvo entra lindamente nela.
Perfeito, declarou, e me enviou uma receita com camarões, lulas, polvos, amêndoas e figos, um tiquinho de gengibre, redução de balsâmico e um pouco mais de cachaça para flambar que, pensei, com ou sem polvo, não tem como ficar ruim.

Acrescentou que já havia testado a referida receita e que, apesar de ter ficado muito boa, o polvo ficara borrachudo. Ciosa da importância que ela - que cozinha muito melhor do que eu - credita aos meus conhecimentos em lidar com polvos, afirmei, deixa comigo!

O polvo tem o tempo do cozimento de uma batata. 
Dica recebida de um pescador no Mercado de Floripa, fruto da lida, da prática, do precioso saber oral que passa de geração em geração eu, previdente, coloquei uma batata na bolsa e fui.

Ao chegar, ela pergunta se eu havia lido a receita. Sim, respondi, e você assistiu o vídeo? Não, disse, acho esses vídeos de "como fazer" muito chatos, têm muitos floreios, muita informação desnecessária.
Então, disse ela, senta aqui que vamos assistir o vídeo juntas.
Então, tá!
Os temperos eram colocados no fundo da panela e o polvo, tentáculos amarrados em nó, ficava esparramado sobre uma peneira sem cabo, emborcada, para separar um dos outros.
Quarenta minutos de fogo.

Agora, deixa comigo.
Vá atender as amigas que estão chegando e esqueça do polvo. Ele está em boas mãos.
Assim que ela se distraiu, desmontei o arranjo que separava o polvo dos seus temperos, coloquei a batata na panela, deixei uns oito minutos de pressão, abri a panela, retirei o polvo - no ponto - e descartei a batata porque o prato seria montado com massa.
Na caldeirada, a batata cozida e esmagada serve para encorpar o prato.

Enquanto isso, a sua fiel escudeira selava camarões graúdos, filetava pimentões, escolhia as mais tenras folhas da salada e ela, a minha amiga, providenciava taças e abria um Torrantés gelado e brindamos à vida, à amizade, à alegria do desfrute da boa mesa, do bom vinho, das ótimas companhias.
Foi uma noite de muita felicidade.
                                                     
Para Elci Dolores, amiga atemporal, dona da casa, do polvo e de todo o resto.














segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Os Livros

"Haja hoje para tanto ontem.
  E amanhã para tanto hoje.
  Sobretudo isso."
  Paulo Leminski  
                             
Terceiro Ato - o livro que surgiu dos textos que publiquei no Blog 60! Eagora? que minha filha enviou para apreciação de algumas editoras - e que foi lançado pela InVerso, dia oito, em Curitiba -foi a realização de um sonho que eu nem sabia que tinha.

Foi uma vertigem  - do primeiro contato com a Editora até o lançamento - e a sensação que eu tinha era de que o tempo me pressionava num turbilhão de urgências e emoções que me faltava tempo, o do relógio, para processar tudo aquilo.
E me recolhi.

Se me pedissem para escrever, o máximo que conseguia, no dezembro que está a um passo de nos dizer adeus, eram listinhas de supermercado. Foi impossível ir atrás de presentes de natal, enfrentar shoppings e filas. Estava dispersiva, bem mais do que já sou. Não conseguia me concentrar em nada.

E chegou o dia 24 e a azáfama da festa me colocou na ceia e na cena. As nossas crianças - porque são nossas as crianças com que partilhamos Papai Noel e Natal, cumpriram a função de nos lembrar a magia da imaginação e do sonho.
Foi um Natal alegre.

Dia 25 recebi a foto de um livro com a receita do "Gelado de Abacaxi"com o crédito "Tia Clévia"  e um texto onde minha amiga Regina me contava que a namorada do genro - para homenageá-la, e a mãe, as irmãs, as filhas, as sobrinhas, as amigas e todas as mulheres, por extensão e identificação -  digitalizou o caderno de receitas da amada Lu - menina que se criou com as minhas, tão linda, tão alegre e tão querida e que nos deixou, depois de muita luta, numa  idade em que é impossível mensurar a dor dos que ficam.

Regina me permitiu contar essa história bonita, nascida de uma perda imensa, que conta a delicadeza de sentimentos dessa moça que teve a ideia gentil de unir receitas e mulheres no mais significativo ato de comunhão e amor. O alimento.
A leitura do texto que acompanhava a foto rompeu em mim o dique que represava um pranto antigo. E caí num choro catártico e chorei muito e chorei tudo.

Aprendi, com o tempo e com a vida, que feridas sem fundo e sem bordas cicatrizam devagarinho com os pequenos consolos do dia a dia e com a seleção, sempre objetiva, dos melhores momentos para guardar na memória.
Dou importância imensa às alegrias miúdas, aquelas que enxergamos com o treino do querer ver o que é positivo. É uma ferramenta poderosa que temos à disposição e que nos ajuda a aceitar o que não é possível mudar.
Com o tempo, aquela dor insuportável, que aperta o peito e escasseia o ar vai diminuindo e se transforma em íntima companheira da nossa jornada.

Feliz 2020, para os presentes, os ausentes,
os próximos, os distantes,
os que pensam como a gente
e os que pensam diferente!