quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Motel dos Amantes

Recebi uma proposta inusitada e interessante. Uma pessoa das minhas relações, aliás, bem próxima, viveu uma experiência tão constrangedora quanto engraçada. Antes de começar a narrativa que dispensa exageros, pediu-me que a mantivesse anônima, o que faz todo o sentido, como veremos a seguir.  Massageou-me o ego acrescentando que eu saberia contar a história com verve e graça. Apreciei o elogio, mas aumentou a minha responsabilidade.                                                                        Sem maiores delongas, vamos aos fatos: 

Voltavam, duas amigas, de um fim de semana prolongado em que agarraram todas as oportunidades de diversão segura. Colheram mirtilos em cestinhas de vime num lugar chamado, apropriadamente, de "Vale dos Mirtilos".  Almoçaram em um restaurante escondido em uma mata ao som de cachoeiras, convidadas por  um casal de amigos comuns que inauguravam o seu completo e confortável motor home.                                                                                                                                                            Beberam vinho, passearam mais, retornavam felizes.

No meio da viagem, justamente no trecho em que não tinha nada na beira da estrada, nem um mísero posto de gasolina para uma parada de emergência, ela começou a sentir lancinantes dores de barriga. Esperou o quanto pôde, até que gemou para a amiga "preciso que você pare assim que aparecer qualquer muquifo para eu ir ao banheiro".

Não demorou e, após uma curva da estrada, surgiu um placa anunciando um shopping cujo desvio de acesso distava três km. Ah, animou-se a motorista, é pertinho, já a gente chega. Tem um túnel que dá acesso ao shopping, eu conheço, e acrescentou "olha, lá está".  E apontou para um cilindro branco que despontava ao longe. É lá, faz parte do edifício.Você aguenta, perguntou? Ela assentiu com a cabeça. Um pio, ali, seria arriscado. 

Atravessaram o túnel e o prédio crescia a cada metro rodado. Ela estranhou a subidinha de terra batida, mas nem comentou. Era um motel de beira de estrada, com dois pombinhos de biquinhos unidos num beijinho e um coração vermelho. Na fachada. "Motel dos Amantes" escrito no mesmo vermelho do coração. Ai, gemeu, é um motel.

A amiga, calma, explicou que descendo a ruazinha chegariam à entrada do shopping. Desceram e caíram na contramão da BR 101. Carretas e caminhões davam sinais de luz ao mesmo tempo em que buzinavam, freneticamente. Sorte que, do motel à BR tinha uns 50 m de acostamento até a estrada. Certo que na contramão, mas não caíram direto no meio do trânsito pesado da rodovia.

Voltaram de ré até o acesso ao motel. Vamos entrar no motel, não quero nem saber, que pensem o que quiserem. Tô nem aí.

A amiga, sem premências a lhe alterar o raciocínio lógico, ponderou: os trâmites para entrar no motel vão demorar mais do que descer o declive entre a ruazinha e o milharal. Não é melhor? Tenho papel higiênico no porta luvas. Ela assentiu com a cabeça e pegou o papel. 

Escorregou pelo morrinho curto, mas íngreme, e se viu num plano, coberto de palha, milharal à esquerda. Antes que a visão da amiga saísse da sua vista ainda perguntou, será que tem vaca? ou cobra? 

Vencida a primeira etapa, impôs-se a segunda. Levantar, sem ajuda das mãos e segurando os jeans. Catou o resto de dignidade, a transformou em impulso e se ergueu, firme. A garrafinha de água e o álcool gel encerraram a questão. A amiga se admirou com a rapidez com que ela tinha resolvido o assunto.   

A urgência, minha amiga, não admite titubeios. Sufoco assim, só quando nasceu meu filho há mais de 40 anos. Mas, esta é outra  - e nobre - história.

Transcrevi, ipsis litteris, a narrativa da pessoa que me deu o tema deste conto. Pediu-me para agradecer, uma vez mais, à previdente companheira de viagem cujo prosaico rolo de papel higiênico permitiu que a aventura tivesse um final feliz. Espero que ela goste do que lerá. Tentei ser o mais fiel possível aos fatos. No entanto - como é  de domínio público - talvez eu tenha acrescentado um ponto.





                                                                                       

 



segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A Vacina

  

Três amigas foram passar um dia de sol na casa de praia de uma delas. Precisamos tomar sol para absorver a vitamina D, disseram. Estamos restringidas, presas em casa, somos o elo frágil da corrente. Além disso temos que cuidar do emocional, solidão demais faz mal. 

Reclinadas nas cadeiras fincaram os pés na areia. A que controlava o relógio para que não torrassem ao sol repetia, "a diferença entre o remédio e o veneno é a dose."
Passado o tempo da exposição terapêutica se esbaldaram na jacuzzi instalada ao lado de um sombreiro cujas folhas desenhavam um rendado de luz e sombra ao redor.
Espumante e camarão grelhado à disposição, faziam um balanço das próprias vidas e concordavam que os acertos foram maiores do que os erros. Depois do primeiro brinde sabemos que abre-se um portal. As coisas boas da vida se atropelam numa fila imaginária na ânsia de ser brindadas. Generosas, atenderam a fila inteira, com direito a inserções de última hora e de primeira importância.

Repetiam surrados chavões - verdadeiros  - "é a gente é quem cuida da gente", "os filhos têm a vida deles", "bom mesmo são as amigas, porque os caminhos são diferentes, mas as histórias convergem" e o versátil e abrangente "só muda o endereço."

Fim de tarde, na volta para casa, felizes, bronzeadas, eis que toca o celular de uma e, no viva voz, o filho informa que está com COVID.  Passamos o último feriado juntos, tomamos caipirinha do mesmo copo, apavorou-se a mãe. Tá tudo bem, mãe, calma!

Imediatamente as três estavam de máscara. Naquela altura pouco adiantaria, mas pouco é mais que nada. Vamos esfriar a cabeça. Amanhã cedo vou fazer o teste e aviso vocês. Reviram o dia cuidadosamente, argumentaram que estiveram ao ar livre, que não misturaram copos e desenvolveram condescendentes manobras mentais para ludibriar a razão.

Susto ainda pela metade e fazendo mil conjecturas, garantindo que respeitaram o distanciamento, as janelas do carro abertas para renovar o ar quando uma pede, aflita, fechem as janelas, por favor é o meu telefone que toca agora. O barulho do trânsito pesado da rodovia a impedia de ouvir. 

Era a filha informando que estava chegando com as crianças. Ela nem teve tempo de responder e a moça emendou, nos falamos mais tarde, mãe. Vou ficar uns dias com você. Depois eu decido o que vou fazer. Meu casamento acabou. 

Ficaram o resto do trajeto emudecidas. Passar da felicidade solar ao ao medo abissal sorveu-lhes a energia recém adquirida.

Quando ela ligou apavorada porque o exame deu positivo, a terceira, que saíra incólume daquele dia, ao ouvir a notícia deixou o telefone cair das mãos. Calma, calma, estou confundindo os sentidos. Perde-se o olfato, não o tato. Respira, respira!

As outras duas não manifestaram nenhum sintoma. Mãe e filho se recuperaram da COVID.  A filha se entendeu com o marido. 
Encontrei-as no drive thru na fila da vacina. Felizes, imunizadas, combinaram de passar um dia na praia. Urge recuperar as energias. 




 




 

 


domingo, 8 de novembro de 2020

Três Micro Contos e uma Reflexão.

I

Se espreguiça, de manhãzinha, janela aberta para o sol entrar.

Sente o olhar - na cidade de prédios cada vez mais altos e privacidade cada vez mais baixa - e finge que não vê o homem atrás do binóculo.

Quem espia? O homem ou a mulher que abre a cortina?

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II

Combinado, nos vemos lá.

Oi, tudo bem? 

Tudo bem, e você?

Tudo legal. Pensei que você fosse mais alta.

Pensei que você fosse mais magro.

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III

Uma reúne todas e extrai felicidade da panela.

Outra orienta leituras, oferece concertos, investe.

Outra, ainda, divide as riquezas de um caminho peculiar.

A quarta, efervescente, procura, estuda, vai em frente.

Tem a que espalha alegria, a leveza da vida, a piada.

E a sexta, nutrida, escreve.

É completa, a confraria.

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Reflexão

As pessoas casam por interesse, conveniência ou necessidade. Casam, até, por amor. Nem sempre o motivo de um é o motivo do outro.

Descasam por indiferença. 

Recasam por quaisquer dos motivos citados acima, porém, atenção! Não importa quais sejam, é indispensável que um conheça o motivo do outro. O ideal seria se coincidissem.

Se repete o ato com conhecimento do fato.


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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Equívocos

Equívocos

Quando ele a convidou para jantar e comemorar o Dia dos Namorados ela estranhou mas, aproveitou a oportunidade para executar o plano tão sonhado. Estaria segura em um lugar cheio de gente. Não ousaria agredi-la. Indispensável chegar bem antes da hora marcada. 

Ele chegou sorridente e com um lindo buquê. Disse que ela estava bonita e pediu um vinho. Sorriu, tensa e alerta. Delicadezas assim não eram do temperamento dele. O plano de terminar tudo ficava - à medida que o tempo passava e as gentilezas continuavam - mais difícil de executar. Bebericou o vinho, mal tocou na comida.

De repente ele ficou sério, apertou o queixo dela, exigiu que não desviasse o olhar. Você sabe por que estou tão bonzinho, querida? Não? Não sabe? Quer adivinhar? Apavorada, não respondeu. Acariciava os cabelos dela, sorrindo e ameaçando baixinho. De vez em quando fazia uma graça com ar sedutor. Quem visse pensaria numa cena de amor. Ela só conseguia pensar na mala. Será que o garçom deixou a mala à mostra? Será que ele reconheceu a mala? Será que era amigo do garçom?

Vou embora, sua tonta, odeio você, tenho uma namorada linda, louca por mim sussurrou, entre dentes, num crescendo de ofensas. Ela, respiração suspensa, não ouvia  mais nada. Sua atenção estancou no "vou embora". Quase não conseguia disfarçar o alívio; continuava muda. Finalmente ele se levantou, pegou o buquê e acrescentou, vamos repartir, meu bem, eu fico com as flores, você fica com a conta. E saiu, dando risada. 

Ela respirou fundo e pediu um café. Mal acreditava na sorte que teve. Fez uma ligação de celular e ninguém atendeu. Insistiu, nada. Verificou as mensagens, nenhuma.  

O restaurante estava quase vazio. O último casal se retirou. Ela pagou a conta, levantou -se, vestiu o casaco e se encaminhou para a saída.

O garçom perguntou e a mala, senhora? O que faço com a mala? Tenho certeza de que você saberá dar um bom destino a ela, respondeu. E saiu, leve e segura. Sentia que flutuava.



                                      


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A Ida ao Cartório

 

À filha coube um encargo. Amadrinhar a mãe como testemunha no cartório. O namorado foi encarregado de testemunhar pelo noivo. Submetidos à lei, os proclamas anunciarão aos quatro cantos a intenção de união e, não havendo impedimento, é esta a função dos proclamas - como arautos soprando cornetas brilhantes que propagam aos ventos - e que asseguram o direito dos nubentes de consolidarem a união. 

Senha preferencial na mão, aguardaram não mais do que cinco minutos. Dia de semana é mais barato e,  não importa o movimento, a senha é soberana e permite que os trâmites fluam rápidos. Direito adquirido só faz sentido se for usado. Ocorreu a ela, a noiva, que, apesar de um bom direito e ela não  fazia pouco caso dele, era de uso escasso. Daqueles direitos que ficam mofando por pouco uso. Ninguém se casa, assim, uma vez por semana. É um direito quase desperdiçado porém, disponível. Na precisão, está à mão.  

Útil seria se, no supermercado, os idosos passassem na frente de jovens solícitos que abririam alas e, sorrindo, se ofereceriam para aliviar-lhes o peso da cesta. O pensamento voava e ela pensava que, serventia mesmo, têm as praticidades, as gentilezas e as propostas em que as partes declaram intenções claras. Contratos escritos sem letrinhas miúdas e sem armadilhas ocultas. É a letra preta no papel branco. Carimbada. Com força de lei. Atitudes assim poupam desgastes, desatinos e descalabros. O problema é que temos o mau costume de encostar sentimento em tudo, divagava distraída, quando a cartorária, incisiva, lhe pediu os documentos, por favor!

Ela, que ponderava que a terra não tem cantos, nem é plana como querem, é uma esfera achatada nos polos, afirmam os cientistas, voltou à si e entregou o documento de identidade, CPF no verso, e a moça, impaciente, e a certidão de nascimento? Não trouxe?

O noivo, aflito, sacudia um papel e explicava tenho a certidão de divórcio! Me orientaram que seria suficiente!

A cartorária parou, com cara de que qual é, estão brincando comigo? Foi interrompida pela colega que apareceu, toda sorrisos, bom dia Sr. Fulano! Estou acompanhando este processo, informou, pode deixar que eu faço. 

Está tudo certo, tudo nos conformes, a papelada está correta, só falta firmar o pedido. Enquanto assinava uma duas três vezes, aqui e ali, ela pensava que o sofrimento não é lugar de permanência e nem de passagem. É  lugar de parada, de reflexão e de mudança. Contratos são bons quando atendem as conveniências das partes. São objetivos. Emoção é coisa preciosa, é sentimento de economizar pra gastar com deleite. Temos o hábito de economizar em coisas que não nos farão falta e, no entanto, espalhamos sentimentos sem medida e sem cuidado, sem saber se vale o esforço. Estes assuntos são regidos pela mais elementar das leis de economia. A lei da oferta e da procura. A oferta só será valiosa se for menor do que a procura.   

O senhor, por favor, acerte no caixa e estão dispensados. Os proclamas correrão pelo tempo exigido em lei.

Não havendo nenhum impedimento, compareçam no dia marcado para efetivar a união. Atentem para o horário e cheguem 15 min antes.

         





quarta-feira, 26 de agosto de 2020

"Com pena peguei na pena...

"Com pena peguei na pena,
  Com penas para escrever,
  Caiu-me da mão a pena
  Com saudades de te ver."
  (Quadra de tradição popular coletada por João Simões Lopes Neto)

Quem tem filhas com idades rondando os 40 deve lembrar da paixão delas pelo "papel de carta" lá, nos estertores dos anos 80, comecinho dos 90. Guardados com mil cuidados em álbuns junto com os envelopes, era um sacrilégio amassar, dobrar e, o maior de todos os pecados, escrever neles. 

Trocados e negociados, por um bom tempo foi o presente certo nos aniversários das amigas da escola. Eu, da geração que havia escrito cartas de amor, (que me atire a primeira pedra quem de nós não fez isso!) não conseguia entender a existência de algo não utilizado para a função para a qual fora criado. Insistia que elas escrevessem uma cartinha -  quiçá para mim - e elas suspiravam e nem respondiam. 
Mãe já nasce ultrapassada.

Conservados sem mácula, permaneciam como uma "eterna folha em branco" e resguardavam todas as possibilidades de escrita. As minhas filhas me alertaram para o valor imensurável da palavra contida.

Faz tempo que escrevi a última carta. Garimpado o bloco - chama-se bloco de carta aquele caderno de papel de seda pautado que abre pra cima e que - acredite - ainda existe. 
Fiz questão de um envelope de papel de linho, resistente para proteger, mais do que a delicadeza do papel, as palavras derramadas direto do coração.
A pessoa que a recebeu comentou, entre divertida e incrédula "nossa, ainda existe isso, bloco de carta?"
Lembrei da lição do papel retido sem uso.

Passados um pouco mais de trinta anos as comunicações são instantâneas, as ferramentas para acessá-las inúmeras, e é fundamental aprender a dominá-las. A gente avança aos tropeços.  Aprende na marra hoje e esquece o que aprendeu amanhã. Quem de nós não ouviu os filhos impacientes dizer "mas, mãe eu já ensinei mil vezes!"
Pouca coisa ficou mais antiga do que lamber selos, colá-los nos envelopes e enfrentar filas para postá-los. Quem iria supor no início nesse ano assombroso que ficar em filas no correio seria perigoso?

Transitamos entre esses dois mundos e desejamos reter o melhor de cada um.
As cartas manuscritas ficaram lá, na companhia deliciosa dos boleros dançados de rosto colado.
No entanto, sabemos que só a mudança é permanente e, talvez, quem sabe, elas voltem à vida.
Se até o Sputnik retorna em forma de vacina, talvez elas reapareçam em uma versão prá lá de inusitada.
Quem viver, verá!

 



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O Bolo de Aniversário!


 

No isolamento por causa do "novo" corona vírus - citado, estudado, pesquisado e, principal assunto no mundo inteiro - eu gostaria que a exposição excessiva, superlativa, causasse nele  - assim como algumas paixões - a combustão espontânea, fruto da intensidade do próprio fogo. Acho o corona tão velho!
Infelizmente, não é assim.

Tornados visíveis por conta da pandemia, os maiores de sessenta são instados a ficar em casa. Viramos um coeso grupo de risco. O supermercado informa que abriu um horário especial para os idosos. Entre 7:30 e 8:30 h da manhã.  
E recomenda que façamos uso deste direito! 
Tentei seguir a orientação e o mais cedo que cheguei no mercado foi às 9 e meia. 

Talvez o maior prazer do aposentado, é poder dormir o quanto baste. Não dar a mínima para essas coisa de relógio. Abrir os olhos quando o sono acaba. Certo que acordamos cedinho, entre cinco e seis horas da manhã porém, descompromissados com horários e obrigações, voltamos a dormir.  E como são frescos os sonhos das manhãs!
 
Esta pandemia é daquelas tragédias que se exaurem com o tempo. Enfraquecem e empalidecem até se incorporar ao cotidiano. Deixa, como elas, um lastro de dor e drama. Seria importantíssimo se  também deixasse lições. Indispensável - como em algumas situações na vida - ficar atentos e nos cuidar. 
A ciência desenvolve vacinas, a gente se adapta e a vida continua. E ficará na lembrança da humanidade inteira.

Em casa, em tempo quase integral, somos obrigados a nos olhar. Nos avaliamos e, se fomos coerentes, nos reconhecemos e entendemos que, mais do temos, é o que somos que nos sustenta e preserva a nossa dignidade. Gosto muito desta palavra velha e esquecida: dignidade.

Das finitudes, talvez a mais doída, são as que acabam pelo desencanto.

E se especula, para depois que as coisas se ajeitarem, como será o "novo normal", se a máscara  fica como um acessório corriqueiro, se as pessoas mudarão o jeito de se cumprimentar, sem beijos e abraços, tão arraigados na nossa cultura, se lavaremos os mãos com desejável e salutar frequência. 
Seria ótimo, mas não acredito que aconteça.

Penso que se conseguirmos deixar de soprar velinhas em bolos de aniversário já  será um grande avanço. 
Não sei  quanto o mundo vai mudar, mas os aniversários nunca mais serão os mesmos.  

   
 








 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Implicâncias

Quando muito, espicho pernas e braços para que se acomodem e não me incomodem.  Aos dedos, meio enrijecidos, dedico mais atenção. Faço os exercícios do vídeo da fisioterapeuta que dão uma aliviada na dor. Mesmo assim, nem todos os dias, só quando incomodam demais.
E tomo os remédios.

E ouço que é preciso disciplina, força de vontade e, mais do que tudo - gratidão!
Sou grata claro, pelo que tenho e pelo que posso, mas isso não exclui o medo e o custo de ficar  isolada.  
E me concentro no quesito disciplina e arrumo a casa, lavo a louça, tiro o pó. Tento - às vezes consigo - almoçar perto do meio dia, jantar por volta das sete e meia e me jogar no sofá só depois da cozinha arrumada. Suponho que a força de vontade faça parte do pacote. São siamesas as duas, disciplina e força de vontade, ou vice versa. 

Enquanto escrevo, recebo um vídeo de um novo teste para renovar a CNH dos idosos. Consiste em conseguir enfiar a linha na agulha, presa à tampa de uma garrafa PET, que está no chão.  O carretel de linha está preso à lateral do carro. O objetivo é conseguir aproximar o veículo com tal precisão, ao ponto de conseguir  introduzir a linha na agulha. 
É uma piada, sem dúvida, mas eloquente. 

Me distraio com a voz da vizinha gentil que, todos os dias, de manhã e no fim da tarde, retorna com os seus cães e negocia com eles para limpar-lhes as patinhas. São três, e penso que ela higieniza  - hoje ninguém mais limpa - só higieniza -  vinte e quatro patas a cada dia. 
Consome um tempo enorme e sinto uma espécie de inveja ao entender que ela gasta - feliz - quase a metade do dia.

Desisto de escrever e saio para apanhar sol na sacada. Me debruço no guarda corpo do terraço e meus olhos caem na casa da vizinha em frente. Moça nova e bonita, dispõe o que a casa contém na varanda, na garagem, no quintal. De camas à cadeiras, de máquinas à roupas. E sacos plásticos cheios, não sei do quê. Às vezes não as recolhe, as tralhas, findo o dia, findo o sol. E elas amanhecem no mesmo lugar onde o meu olhar as reconhecem no dia seguinte.

E vejo que já passa da uma da tarde e nem comecei o almoço. Paro e encaro o fogão. Preparo uma galinha em pedaços, embalados desossados e quero crer no que a embalagem informa: "Sem uso de hormônios como estabelece a legislação brasileira." Cozinho aipim para acompanhar e penso que ainda não decidi se prefiro galinha ensopada com polenta ou com aipim. Existem dúvidas sem solução e sem consequências. Esta é uma delas.

O tempo passa e, finalmente, a galinhada está pronta.  Não sei mais se almoço ou janto. E lembro dos meus filhos pequenos, quando ficávamos na praia até muito depois do almoço e eu preparava um "almojanta". "Almojantei" hoje e senti falta deles.
 E, muito mais tangível e menos nostálgico do que o que a memória evoca, senti falta dos ossos nas coxas e sobrecoxas do frango.
Talvez viver seja assim, o lidar com os ossos é o que nos permite apreciar o sabor da carne. 

Não limpei patinhas de cães e nem coloquei minha cama no terraço mas, também para mim, o dia termina. 
                 





terça-feira, 14 de julho de 2020

Fragmentos



Minha amiga se mudou para perto dos filhos e netos. Foi atrás do que lhe faltava. Disse que volta, quando sentir que aqui está melhor do que lá. Foi sem compromisso. Certa, ela.
Decisões definitivas costumam ser ardilosas. Pessoalmente, diante de uma escolha difícil, me pergunto o que estou disposta a perder e, em nome de quê? Tem dado certo.

A situação alongada de exceção, que afeta todo mundo e o mundo inteiro e, com a qual lidamos, uns como se deve, outros como não se deve e - a maioria absoluta, como dá - é um desafio, uma batalha, uma luta, um espanto e todos os sinônimos que existem.

Quando a minha neta, dezesseis anos recém completados, me disse que "se sentia roubada pela vida"
eu respondi que a entendia, que me sentia roubada também. E  ela acrescentou, demorei 16 anos pra ter 16 anos! Argumentei que levara 67 para ter 67 e apelei para a historinha da bacia de cerejas que volta e meia aparece, cuja "autoria" é creditada a escritores famosos, de Fernando Pessoa a Cora Coralina. Ela não se comove e retruca que 67 é só a consequência óbvia de 66.
Vovó, você tem praticamente 70 anos!
Vencida, respondo que talvez ela não acredite mas, já tive dezesseis anos. Me olha, com o rabo do olho, e não diz nada.

E me vejo saindo de casa de calça comprida, como se dizia, levando na bolsa uma mini saia curtíssima para trocar na casa da amiga. Se não fizesse isso, não sairia de saia. Não com aquela.
Seria barrada antes de chegar ao portão. Conto pra ela que retruca sorrindo, não consigo imaginar você de mini saia, vovó.
Nocauteada, desisto do assunto.

E penso que a minha rebeldia adolescente parou por aí, na saia curta e em roubar o carro quando meu pai ia pescar. Mal alcancei os pedais ele me considerou apta a dirigir. E me ensinou. Eu tinha 13 anos. Hoje é ilegal, e continua sendo perigoso. 

Bom senso e autonomia, desde que o nosso estado cognitivo e físico funcionem  - o quando baste - e um olhar distraído sobre a pandemia, nos  permitem  manter o bom humor para  tocar a vida.
E seguir os protocolos do distanciamento social.
Pensar demais, definitivamente, não dá!

                                 
















terça-feira, 23 de junho de 2020

Circos e Quintais


Bal. Camboriú, 23 de junho de 2020

Quando o circo recolhia trupe e lona e partia da cidade nós já éramos acrobatas experientes.
No quintal da casa dela tinha uma goiabeira grande e alta, como são as árvores que crescem sem podas e sem cuidados. O nosso número circense era uma mistura de equilíbrio, ginástica e nenhuma noção de perigo. Sempre mais ousada do que eu, ela subia mais alto, engatava o pé na forquilha do galho e se atirava de costas e ficava pendurada numa acrobacia sem rede e sem juízo.

Era um tempo em que as crianças brincavam nos quintais e nas ruas e a ordem era voltar pra casa ao cair da noite. Nenhum adulto vigiava a criançada. As performances dela, certamente, eram mais perigosas do que as que assistíamos - olhos arregalados - empoleiradas nas arquibancadas precárias que circundavam o interior da lona.
Sem rede e sem técnica, dávamos um trabalhão danado aos nossos anjos da guarda.

Passada a fase do circo, a brincadeira perdia a graça e fazíamos batizados de bonecas. Ela tinha muitas, de vários tamanhos. Eu não era muito fã de bonecas mas, batizado é outra coisa.
Juntávamos alguns tijolos  - fazendo um fogão  rústico e, fogo feito - lata de leite condensado servindo de panelinha, cheia de arroz surrupiado da cozinha - começávamos o almoço.
Assim que a água fervia, o arroz saía pelas bordas, caia no fogo e cheirava à queimado, o que atraia a atenção da mãe dela, que acabava com a brincadeira.

Naqueles dias aprendemos, ela e eu, que arroz cresce quando cozido. Foi a  nossa primeira aula de culinária.

Éramos vizinhas e uma cerca separava as nossas casas. No fundo, mais ou menos na altura das cozinhas, tinha um portãozinho que permitia o nosso ir e vir, livres e sem pedágio. Um dia - não sei porque - dei uma mordida no braço dela e a marca dos afiados dentes de leite cravados na carne tenra de um braço de criança permaneceu por muitos anos, como uma roda tatuada que foi mudando de lugar enquanto ela crescia.

As nossas mães se desentenderam e o portão foi pregado, não abria mais.
As duas demoraram a voltar a conversar, mas nós não ficamos "de mal" muito mais de um dia.

Compartilhava fogos e festas com São João - Padroeiro da cidade - e se sentia especial no dia do aniversário. Tenho certeza de que o Santo também se sentia prestigiado por repartir o próprio brilho com o brilho de uma criança.

Foi e é, a minha primeira amiga.

Por misericórdia divina, sorte, distração do destino ou tudo junto, continuamos aqui.
Não nos vemos muito porque a vida nos separou.
No entanto, quando nos encontramos, retomamos o fio da conversa e relembramos histórias e atualizamos as coisas.
Rimos de tudo e choramos por nada.
Gosta de crianças, de fotografia, de gatos e de cachorros.

Hoje ela faz aniversário - minha amiga Schirlei  - e a ela dedico este texto.