sábado, 6 de janeiro de 2018

"A Tardinha Cai."

"Navegar é preciso
 Viver não é preciso.
                 F. Pessoa"

 Fernando Pessoa popularizou os versos cuja autoria é creditada ao general romano Pompeu, por volta de 70 a.C. Com a intenção de incentivar os marinheiros, apavorados, a levar uma carga de trigo a Roma durante a guerra, o general bradava "Navigare necesse, vivere non est necesse!"
Eles temiam a imprecisão dos barcos e a precisão do inimigo, mas Pompeu era o temor mais próximo. Claro que ele ficava dando tchauzinho do cais. Jogo duro, o tal Pompeu. Pensando bem, as coisas continuam mais ou menos assim, até hoje. Manda quem pode e obedece quem não tem escolha. No século XIV, o poeta italiano Petrarca mudou a expressão para "Navegar é preciso, viver não é preciso." Fernando Pessoa escreveu seu poema a partir destes versos, destacando que eram lema dos navegadores antigos. Continuam atuais há mais de 2000 anos porque não têm tempo, nem lugar, nem hora - só sentimento. Poesia é assim, como uma luva, se ajusta à alma de cada um.

Aqui, ilustram a primeira vez  - no mar - de uma moça que eu conheço.

Veio de mudança. Mal arriou "mala e cuia" no chão da sala, recebeu uma amiga querida que a encheu de mimos, e com a qual foi passar o Réveillon no veleiro de amigos comuns, onde foi conferir a "precisão" do que é navegar. Narrativas de marear não faltaram e sei que ela temia dar vexame, incomodar os anfitriões, coisa e tal... pois não há de ver que a moça entrou no barco e se sentiu em terra firme? Velejavam - barco adernado, vela estufada - e ela parecia pisar chão de terra batida. E as vagas, então?  E dormir? A cabine lhe pareceu um latifúndio, dormiu o sono dos justos e acordou revigorada. Certo que confiou na dupla experiente que comandava o barco com a presteza de quem sabe o que faz. Reconheceu que a confiança exclui quaisquer temores e que é a desconfiança que nos derruba, mesmo que estejamos presos ao chão. Além disso estavam todos, literalmente, no mesmo barco. E também tem outra coisa, ela se trouxe para ancorar na casa da praia e o barco é uma casa que se leva junto, então foi um reconhecimento imediato.

Passando os olhos por textos que escrevi no ano passado - depois de ter escrito este - notei que usei esses versos para abrir o texto do dia 08/01/2017.  Cabiam lá e cabem aqui.


É a ela, à moça que velejou pela primeira vez, que dedico texto e versos, com votos de que continue a sentir encantamento e entusiasmo pela maravilhosa imprecisão de viver.
E que não deixe de ser curiosa.








sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Feliz Ano Novo!

"Homens não sabem como dizer adeus,
  mulheres não sabem quando."
                                 

É de Rita Lee a afirmação acima e a tomo de empréstimo para tema do último texto do ano.
As finitudes acontecem todo dia toda hora e quase sempre são ordinárias, são necessárias, são corriqueiras, mas como sofremos para aceitá-las! São elas que movimentam a vida e sem elas não existiriam os recomeços.

Os finais felizes das novelas acontecem no último capítulo e não é por acaso. Quando todos os desacertos e desencontros são resolvidos a novela termina. Sem conflito não tem novela, nem romance, nem existência.

Os cartões da Natal de antigamente, aqueles bonitos que enviávamos e recebíamos pelo correio e expúnhamos numa salva de prata,  junto ao pinheirinho enfeitado - quanto  mais cartões recebidos maior o nosso prestígio - costumavam trazer os votos ...um renovar-se de esperanças ... e lembro de mim - quando aprendi a ler - a desejar  um renovar-se de esperanças às pessoas do meu convívio.  Elas achavam graça, me faziam uma graça e eu, sentindo que fazia sucesso, repetia a dose à exaustão. Demorei para entender o porquê do meu prestígio, mas hoje, convencida de que esperançar é imprescindível como respirar e amar retomo aqueles votos e desejo a todas as gentes um Feliz Ano Novo e um renovar-se de esperanças do fundo do meu coração. 

Desejo a todos e a mim também, recomeços, retomadas e reinícios.
Desejo a todos, todas as saúdes e que cada um as gaste como achar melhor, sem economia.
Feliz Ano Novo!







terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Vamos Falar de Dezembro?

"Nem tão plana, nem tão plena."
  Cátia Moraes/Mulherio das Letras - Rio de Janeiro
                   

Dezembro não começa, se apossa. Inocula-se, devagarinho, no início de novembro com o aparecimento das primeiras vitrines de enfeites natalinos, e continua - janeiro a dentro - quando a ressaca chega junto com a fatura do cartão de crédito. Depois, premido por confetes e serpentinas dá lugar a fevereiro. Deve vir daí a expressão "o ano só começa em março". Dezembro não termina, se exaure. É tão intenso que o sinto plural - dezembros. É fim e começo.Tudo se movimenta!  É tempo de restaurantes - bares e afins - lotados. Mês de agenda cheia de confraternizações, encerramentos e fechamentos. Todo mundo corre, se atrasa, não tem tempo... parecemos o coelho da Alice a passar correndo enquanto grita, aflito: Ai, os meus bigodes! Alô, adeus, alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde, é tarde até que arde!

Surgem, em dezembro, dois times, os "Amo Natal" e os "Odeio Natal." Quem faz parte do primeiro enfeita a casa toda. Cozinha, quarto, banheiro, caminha do Pet  - ele inclusive - nada escapa.
O outro time se irrita com tudo - do trânsito à alegria de quem gosta da festa. E tem a maioria, que pendura guirlanda na porta, participa de grupos de amigo secreto e escolhe, com cuidado, os presentes para agradar a quem a agrada. Passado o natal, os times hibernam para voltar, revigorados, no próximo ano. Como gosto não se discute, é uma rivalidade sem sequelas.

É um tempo generalizado de nervosismo e impaciência. Tudo urge, tudo é pra agora. Há de se dar conta de tudo, para que tudo saia perfeito, seja lá o que isso signifique.

Tenho a impressão de que - se aquietássemos um pouco - ouviríamos Ele - o Dono da Festa - a nos soprar ao pé do ouvido "falta um pouco mais de calma, falta um pouco mais de alma."















domingo, 19 de novembro de 2017

Palavras!

"A resposta você encontrará no que
  as palavras não disseram"
              Fernanda C. Racaneli

Monoglota constrangida - não me faltaram condições para aprender outros idiomas - digo, em minha defesa, que era abrir o livro e o pensamento fugia, voava longe, eu não conseguia me concentrar.  Tenho um deficit de atenção seletivo, se isto é possível, porque se o assunto me interessa não me disperso. Não é fácil ser assim. Mas, ser o que se é sempre é difícil. Minha filha me disse outro dia "sabe mãe, deveria ser possível tirar uma semana de férias de si mesmo, uma vez ao ano." Como tenho a felicidade de ter duas, fico em dúvida se devo, para ser fiel aos fatos, citar qual delas disse isto. É a mais velha, no caso. A mais nova é responsável pelo diagnóstico do déficit de atenção se bem que o seletivo, é por minha conta...

Gosto de pensar palavras na nossa língua linda e cantante - pródiga em vogais - que suavizam sons e aparam as arestas das consoantes, tão comuns em outras falas. É preciso usa-las para que continuem vivas e como tudo o que é vivo elas também mudam, caem em desuso, desaparecem. Verdade que andam maltratadas ultimamente, no uso abusivo do gerúndio, no bastante, que substitui o muito, escamoteado, o coitado. No noticiário, o repórter, na beira da rodovia, em véspera de feriadão diz " A via tal está bastante cheia de veículos" ... e a nova e boba mania de  dizer que "fulano não corre risco de morte". Podemos correr risco de vida. De morte não existe risco.

As minhas preferidas são as proparoxítonas porque são sonoras e sofisticadas, tais como libélula, calêndula, lâmpada - Ética! - bela palavra que tem sido constantemente ofendida. E as que terminam em ão, usadas para nomear as abstrações como compaixão, ilusão, perdão. Se fôssemos nos pensar como palavras, a maioria de nós seria paroxítona, pela corriqueiro e pela abundância.

Atualmente ando interessada nas monossílabas. Gosto de som, dom, de tom e do Tom, do com, que agrega, do sem, quando exclui dissabores e do cem que multiplica riqueza. Mas é o não a mais interessante das palavrinhas pequenas, por duas razões: quando quer dizer sim - e aparece em três negativas seguidas - como em Não Nem Nada! expressão de enfática concordância, comum na região onde nasci, o que me faz lembrar de um dentista famoso na cidade. Sempre de terno de linho branco, bom sujeito, amante da boemia, bom de copo e de papo, usava tanto a expressão que ela se tornou sua marca, o apelido ficou maior que o nome. Nem sei qual como se chamava o Não Nem Nada. Morreu numa quarta-feira de cinzas, numa deferência toda especial dela, a ceifadora de almas, que esperou que ele brincasse o carnaval.
A segunda razão é que o uso do Não é considerado rude, principalmente pelas meninas - de ontem e de hoje - que devem ser cordatas e obedientes.  
Muita gente faz coisas que detesta, a vida inteira,  porque não consegue dizer não. É um aprendizado difícil, este de falar  não na ocasião certa, mas com o tempo a gente aprende. Quando digo um não necessário para algo ou alguém, digo sim pra mim.
Dizer não é um ato de coragem



  










quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Tempo Certo

"Cantando eu vivo em movimento
  E sem ser mais o mesmo
  Ainda sou quem era,"
  Maria Gadú/ No Pé do Vento

Criado em 2011, pela Paideia escola de música, o Grupo Vocal Tempo Certo surgiu da necessidade de atender alunos adultos à procura de aulas de canto.
Nos primeiros anos chamava-se Curitibôcas 2, numa referência ao Grupo Vocal Curitibôcas, excelente grupo da escola - conhecido e reconhecido - com mais de 20 anos de estrada. A ideia inicial era que funcionasse como um celeiro de talentos, e os que se destacassem seriam alçados ao Curitibôcas. 

Desde o início sob a regência de André Dittrich, o vocal foi crescendo em número de participantes e como Grupo. Com o tempo foi adquirindo identidade própria e a necessidade de ter um nome que o identificasse.
No fim de 2016, depois de muitas idas e vindas, foi rebatizado com o nome de Grupo Vocal Tempo Certo, numa alusão ao "tempo da música" e ao fato de que sempre é  "tempo certo" de começar    - não importa o quê - desde que nos faça bem. O coral é misto mas, no momento, conta só com vozes femininas. A única exigência é querer cantar.

Entrei no Tempo Certo em  2012 com o objetivo de romper amarras, de sair da minha zona de conforto, eu que não sabia cantar nem no chuveiro.
No começo de 2017, o professor nos comunicou que a direção da escola - e ele também - acreditava que o grupo estava apto para uma apresentação solo, no final do ano. Tínhamos nos apresentado nas festas de encerramento da escola, e junto com o Curitibôcas em algumas ocasiões cantando não mais do que duas músicas, e em um ou outro evento, como convidados. Lembro que, no primeiro convite, fomos cantar num Festival de Corais, no Clube Curitibano. Tão nervosas estávamos que, ao final da canção, ficamos paradas no palco e o professor disse" agradeçam!" entendemos "agora desçam" e saímos em desabalada carreira palco abaixo. Episódio que ainda nos rende boas risadas.

Repertório montado com canções que conhecíamos e outras novas, começamos os ensaios em março e fomos até a primeira semana de novembro num esforço mais do regente do que nosso, porque era preciso que ele repetisse a mesma lição incontáveis vezes, sem perder paciência e fé.
Nos dois últimos meses ensaiamos com afinco e foco, fora do horário normal de aula. O desafio que nos tirava novamente da zona de conforto, nos fez compreender que é superando as dificuldades que vencemos os medos.
Postura adequada no palco," nem tão dura nem tão dançante", segurar corretamente o microfone - tem trocentas maneiras  erradas e só três certas: pertíssimo da boca, dois e até quatro dedos de distância, de acordo, é claro, com o timbre e volume de voz que a canção exige.

O Show foi no dia 11 de novembro e o "respeitável público" aplaudiu com alegria e entusiasmo.
Acredita que pediram bis?







domingo, 12 de novembro de 2017

Isto Também é Feminismo

"Tudo deveria se tornar o mais
   simples possível, mas não
   simplificado."
Albert Einstein

O Canal Arte 1 exibiu, a partir de maio, uma série de documentários chamada Invenções da Alma - arte popular brasileira/ com o subtítulo É o Brasil no Arte 1. Executados com a mesma alma do assunto, todos foram emocionantes. Um deles chamado Artesanato Solidário - Central Artesol - mostrava as mulheres artesãs que trabalham com  barro em Campo Alegre, município de Turmalina, no vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais. Os entrevistadores numa louvável atitude de ficar em segundo plano não mostravam nem rosto e nem voz.
E elas contaram que mexer com barro é atividade antiga que as avós ensinaram às mães e estas às filhas, sobrinhas, noras, afilhadas, numa tradição essencialmente feminina. Contaram que, inicialmente faziam pratos, copos,  panelas e tigelas ou o que mais fosse necessário para facilitar-lhes a  lida num lugar onde faltava tudo. Contaram que as mais velhas traziam o barro de longe, na cabeça, em lombo de burro e que, como tudo deve ser, começaram a fazer peças diferentes, vasos, bichos, aqueles, do seu derredor, e foram se aperfeiçoando e criando e,  livres, cada uma uma fazia o que fosse mais de acordo com o próprio talento e surgiram as bonecas, aquelas de meio corpo debruçadas na janela e outras inteiras e noivinhas pequenas para enfeitar o bolo do casamento e uma infinidade de coisas lindas .



domingo, 15 de outubro de 2017

Visita ao Cemitério

"Um dia todos iremos morrer, Snoopy!  (Charlie)"
"Verdade, mas em todos os outros dias não. (Snoopy)"

Na entrada da cidade já se avista o cemitério. Situado no alto do morro que minha mãe chamava de Morro do Hadlich, toda vez que - dramática - bradava: "Só vou descansar quando estiver no Morro do Hadlich!" Tento ser o mais fiel possível aos fatos e peço para a minha amiga e assessora das urbanidades de Rio do Sul, a arquiteta e professora Maristela Macedo Poleza,  que me dê uma luz sobre o assunto. Ela me informa que o morro do cemitério é conhecido como Morro dos Ledra e, ela esclarece - foi rebatizado com o sugestivo nome de Ladeira da Eternidade. Faz sentido e é bonito, pensei, porque quem descansa no alto já está mais perto do céu. Provavelmente, os Hadlich foram anteriores aos Ledra. Cercada de morros, a cidade cresceu na confluência dos rios Itajaí do Sul e Itajaí do Oeste que, juntos, se transformam no rio Itajaí-Açu.
Estacionei logo na entrada, na parte plana e calçada em frente ao prédio da administração onde ficam os livros com os registros dos que estão sepultados ali.

Munida de uma braçada de dálias - alaranjadas, dobradas, vermelhas, rosadas - comecei a subida quando um funcionário do cemitério me advertiu: Dona, não pode colocar flores com água por causa da dengue. Só flor de plástico ou de pano, a senhora compra no Vavá, sabe onde é? A senhora é daqui? perguntou, esticando o olho para a placa do carro. Larguei as flores, conformada. Vale a intenção, pensei. Dos rituais que criamos para dar significâncias à existência, nenhum é mais legítimo na intenção do que o ato de levar flores aos mortos. Vou até o túmulo dos meus, sem flor, então. Retomei a subida certa de que localizaria o lugar. Sentia o sol a me queimar o rosto e o olhar dos três a me queimar as costas. Sabia que ficava perto da rua principal, acima da cruz, do lado esquerdo.
Andei, procurei, subi, desci, fui para a direita, voltei pra esquerda. Desisti.

Ao descer vi que os funcionários continuavam de olho pregado em mim. Dia calmo, nenhum enterro, os coveiros estavam à toa. Achou? perguntou o mais falante. Não, não sei, mudou muito.
Ah, a senhora sabe o dia do enterro do último parente? Sei, disse. É fácil, a gente procura no livro, entra aqui. Pelo menos, dentro do escritório tinha uma sombra benfazeja. Informei a data e eis que o sujeito grita: A senhora é parente do fulano? e do ciclano? Sim, sou irmã deles. Ah, meu Deus do Céu, eu conheci a tua família! (intimidade instalada de imediato, acabara a curiosidade que a placa  de Curitiba despertara) eu te levo lá, sei onde fica.
Nossa Senhora! Eita família que se acabou! Morreu tudo! Não, eu estou viva, e tenho um irmão vivo também.
Subimos, ele falando sem parar,  insistindo na desgraceira das mortes dos meus, até que chegamos e o moço, num repente de respeito disse, vou te deixar sozinha, pra rezares um pouco, tá? assenti com a cabeça e agradeci. Ele se afastou uns três ou quatro passos, voltou-se e perguntou -Vem cá, não vais me perguntar como eu conheço todo mundo? teu pai, tua mãe, teus irmãos?
Acho que você vai me contar de qualquer jeito, respondi. E ele, abrindo um sorriso largo - eu era jardineiro na casa de vocês, boba! tua mãe me contratou quando o fulano (jardineiro famoso na cidade) começou a se "achar" e cobrar muito caro. Também fui jardineiro do teu tio. Nossa Senhora! E aquele teu primo, hein?





 




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Males Que Vêm Pra Bem

Homem Para Casar

A manicure, olhos vermelhos, fazia seu trabalho de cabeça baixa, sem olhar para o lado. A mulher, freguesa antiga, estranhou tanto silêncio e perguntou: O que houve? Você parece tão triste. E a moça desabou. Casamento marcado, vestido de noiva já na segunda prova, todo mundo convidado e o noivo desistiu de tudo. Do casório e dela. Alegou ser muito jovem,  que ela era  "moça pra casar", e não se sentia preparado para a responsabilidade de assumir família. A última coisa que queria era magoá-la "você não merece", desejo todas as felicidades na sua vida, etceteras e tais... e sumiu.
Minha vida acabou! disse a moça, entre lágrimas e borrões nas unhas da freguesa.

Acabou coisa nenhuma, menina bonita! Hoje você não enxerga, está humilhada, mas saiba que foi bom. Ele desistiu quase na porta da igreja, concordo. Vai dar trabalho e já deu prejuízo, mas passa. Do machismo, o mais pernicioso é o que vem disfarçado de um enganoso elogio. Moça pra casar, depois recatada e do lar, a mulher é colocada num nicho para que se acomode e não incomode. De moças para não casar, conheço as freiras, celibatárias, por exigência da religião e total anuência delas.
Jovem como é, essa desilusão é o impulso que precisa para não cair na armadilha dos rótulos. Dê atenção ao homem que vê em você uma mulher, sem apostos.
Uma mulher para tudo. Para confiar, confidenciar, para amar, enfim.
Ao encontrar um moço assim, invista nele. Pode ser que vocês decidam se casar. Ou não.




Bom Uso da Fé 


A diarista ligou, aflita, justificando a falta porque estava no hospital, internando o pai da filha. Ele me chamou, está com muita febre, tremendo todo e foi direto para a UTI. A senhora acha que ele vai morrer?  Está medicado, disse a patroa, vamos ver como a coisa evolui.
Apareceu na semana seguinte, abatida e com um papel na mão, que entregou em silêncio. Era o resultado - negativo - de um exame de HIV que havia feito. Ele estava com o vírus, disse. Ficou internado três dias e não resistiu. Faz anos que a gente se separou, mas fiquei com medo, fiz o exame. Eu pedi tanto a Deus para que ele mudasse, voltasse pra mim, cuidasse da filha. Fiz promessa, fiz novena. Certo que tinha vários filhos, de mães diferentes, mas ele dizia que gostava tanto de mim...
Agora, veja a senhora como Deus é bom! Por mais que eu pedisse, Ele não me atendia. Me reservou outro destino. Me queria com saúde, para que eu cuidasse bem da menina.
Com certeza, concordou a patroa. Deus sempre sabe o que faz.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Questões Existenciais e Suas Soluções Mágicas.

"A mente que se abre a uma nova
ideia, jamais voltará ao seu tamanho original"
                                               Albert Einstein

Além do domingo oficial - o outro, que determinei que fosse - é nas terças-feiras e dobra as minhas chances do que esperamos dele - do domingo - a cada sete dias. Fiz isso porque andava desiludida com o retorno do oficial e também porque, no acumulado dos anos, aprendemos a ser previdentes. Somado ao casaquinho e o guarda chuva,  não sou pega desprevenida; e a terça-feira, sem a obrigação de nos prover de felicidade, sempre dá mais do que se espera dela. É aí que aprendo mais uma. Desobrigo o domingo e ele tem me surpreendido. Uma chance de 100 % de ganho por semana é um investimento fabuloso! Invisto em mim e cabe a mim gerenciar os meus ativos. O índice de ganhos é altíssimo! Meus planos são individuais, mas não solitários, e sempre de curto prazo. Sem esperar nenhum desdobramento as adesões acontecem, espontâneas.

Numa terça feira dessas, neste setembro quente - ideal pra boteco e chopp - nos instalamos em mesa ao ar livre ao lado de um grupo grande, com o papo já engrenado. Impossível não ouvir o assunto. Discutiam sobre sorte e azar, fatalidade e destino, escolhas e suas consequências e cada um argumentava na defesa do seu ponto de vista. Sem perceber e por isso mesmo sem disfarçar, partimos do ponto em que estavam e começamos a concordar e a discordar com um e com outro numa apropriação indevida de assunto alheio. Até que eles perceberam, pararam de falar de repente e olharam para nós. O grupo todo! O constrangimento durou só uns segundos, porque um deles falou: Ótimo! Vamos ouvir opiniões diferentes, outros pontos de vista e foi abrindo a roda, puxando cadeira, nos convidando a participar da discussão. Pegamos o fio da conversa no ato e foi muito divertido resolver essas grandes questões existenciais como só acontece em mesa de bar. Gosto de filosofia de boteco porque tudo se resolve, tudo se ajeita, desde que ninguém se dê  muita importância, muita seriedade. Vale pela diversão que é, e vale muito. Certezas absolutas são prerrogativas dos jovens. Já tivemos as nossas.

Quando acordei, aquele sonho me pareceu tão possível, tão viável, que custei a aceitar que tenha sido isso - um sonho bom. E me lembrei da igrejinha onde casei, numa outra vida, tão distante, mas que já fez parte da minha. Acima do altar, em letras góticas, pretas, está escrito:
"Paz Na Terra Aos Homens De Boa Vontade" (Lucas 2:14)

Nesses tempos de posições polarizadas, é disso que precisamos. Boa Vontade uns com os outros.

Não custa nada e por isso não tem preço.

                                   




  

sábado, 16 de setembro de 2017

Como a Minha Avó Virou um Furacão

"Não ignoro as ameaças que o futuro encerra,  
  como também não ignoro que é o meu passado
  que define a minha abertura para o futuro.
  O meu passado é a referência que me projeta 
  e que eu devo ultrapassar."
  Simone de Beauvoir - Carambolas Azuis


Minha avó era alta, magra e austera. Quando meu avô desistiu de tudo, ela se viu viúva com seis filhos, o mais velho por volta dos 10 anos. Mal entrara nos trinta numa época em que - à mulher - cabia obedecer pai ou marido, e na falta deles, o homem que fosse o parente mais próximo. Criou os filhos com a ajuda da família e - eles casados -  passava temporadas ora com um, ora com outro. Morava mais tempo conosco e lembro dela às voltas com lãs e linhas, a tecer colchas e toalhas de crochê numa demanda que me parecia eterna. Costurava bem. Também plantava ervilhas - lembro de mim, abrindo as favas e as comendo cruas, ali, na horta. Nesses tempos de comida saudável não consigo imaginar nada mais orgânico do que aquilo. E plantava aipim e milho e flor. Precisei de muitos anos para entender o privilégio que era comer a sua moranga com açúcar mascavo que servia com costeletas de porco.

Aprendeu a falar a ler e a escrever em alemão - português em paralelo - até que, nos tempos intolerantes da segunda guerra, nunca mais falou alemão, não ensinou aos filhos, os netos não aprenderam e perdemos todos. Adolescente, estudei por uns tempos, fiz aulas particulares, mas não levei a sério, achei difícil, mas ela me confiou os cadernos que preservara de sua meninice, escritos à nanquim, com letras góticas desenhadas com beleza e arte, e a minha pouca idade não permitiu que eu entendesse a dimensão do gesto e a importância que tinham aqueles escritos.

Mas foi com ela - minha avó que não desperdiçava nada, nem risos, nem lágrimas - que construí a primeira relação de cumplicidade. Numa das vezes em que voltou, veio com uma novidade. Aprendera a fumar com um tio meu, o que criou uma encrenca enorme lá em casa. Minha mãe não suportava o cheiro e ela decidiu fumar escondido, numa rebeldia tardia.Vigiadas que éramos - ela por causa do cigarro e eu por causa de tudo um pouco ou por um pouco de tudo - nos unimos para enfrentar o inimigo comum. Eu comprava o cigarro e, antes de entrar em casa, jogava o maço para dentro do quarto dela, de maneira que ela não saia para comprá-los, mas fumava. Não se conheciam os malefícios do tabaco, ou não eram divulgados. Resisti à pressão da minha mãe que queria saber quem a abastecia, e me fez muito bem aquela transgressão que me conectava à minha avó. Foi ali que aprendi sobre confiança e lealdade. Cumplicidades são construções delicadas e preciosas que acontecem poucas vezes na vida.

Contida e discreta, minha avó jamais lembraria um furacão.
Mas seu nome era Irma.