segunda-feira, 4 de junho de 2018

Turista em Curitiba

Às vezes a gente se afasta para refletir
Outras, porque já refletiu.
               Helen Villiger


Fiz o cartão de Isento que me habilita para andar nos ônibus em Curitiba e decidi estreá-lo indo ao MON.  Queria visitar uma exposição em que a minha filha participou da montagem e aproveitar para visitar outras, em exibição no Museu.

Desço no ponto indicado e me informo onde fica o do caminho inverso. Esta linha de ônibus, chamada Interbairros 1 circula no sentido horário e anti horário, num vai e vem que funciona muito bem. Sou entusiasta dessas facilidades que levamos muito tempo para conquistar - nenhuma menos de 60 anos. Na bilheteria, a pessoa responsável verifica a identidade e me franqueia o acesso.

Entrei e fui olhando, lendo, gostando do que via e me inteirando do que sentia, tão distraída que só vi que era tarde quando senti fome. Condição recente esta de não precisar me envolver com panelas e horários.Tinha combinado de almoçar com a minha filha na novíssima condição de encontrar o almoço pronto. Só lavar as mãos e sentar, num movimento de retorno, de troca de papéis.

Dia claro, não muito frio, me acomodei na janela e me dei conta, de repente, de que eu estava me sentindo turista na cidade onde criei meus filhos, ajudei com a neta, trabalhei, fiz  amizades fundamentais, completei ciclos, vivi, enfim, por mais de 30 anos.

Sentimento novo que me inundou de alegria. Fiquei contente, nem sei explicar por que.
Será que a "mudança" de que se fala à exaustão não é isso? Soltar - nos dos papéis que foram fundamentais, mas que já cumpriram seu propósito? Este processo não é acionado por um mecanismo de abre e fecha, como uma torneira. Mudança é um esforço contínuo de adaptação às situações novas e de como usar o rico conteúdo do "vivido" para continuar a andança com outros objetivos e interesses.
São novas possibilidades que temos para continuar sentindo o privilégio que é viver.



terça-feira, 22 de maio de 2018

A Rainha e o Cozinheiro

"Cozinhar não é um serviço...
  Cozinhar é um modo de amar os outros"
                                                   Mia Couto

Ouvi uma história interessante que vale a pena contar.
Uma mulher, farta do marido que não parava em emprego nenhum e nem tinha pressa em arrumar outro, separou-se dele e, por falta de recursos, continuou morando na casa que pertencia aos dois.
Saía cedo pro batente e, quando retornava, lá estava ele na frente da TV. Fazia uns bicos, ganhava uns trocos, mas a maior parte do dia se aboletava no sofá. Cansada de esperar que as coisas mudassem parou de brigar e parou de se importar. Saía com os amigos do trabalho, um deles virou namorado e a vida começou a se ajeitar.

Um dia, assim que abriu o portão, sentiu um cheiro bom de comida no ar. De onde vem isso? Nada que a sua memória olfativa reconhecesse. A memória olfativa é poderosa, elimina tempo e distância. Eu mesma, quando sinto cheiro de doce de figo verde, me transporto para a casa da minha infância, revejo o fogão de lenha e o panelão onde os figos chegavam "no ponto" sob o olhar treinado da minha mãe. Como era bom!
Intrigada, entrou na cozinha devagar. Ele estava de costas, a mexer nas panelas. O que é isso? perguntou sem acreditar no que via. Ele se vira, limpa as mãos no avental e dispara um quer jantar comigo? Ela aceita. De susto!
 A semana inteira foi assim, cada dia um prato diferente, saboroso, caprichado. Passou a vir direto do trabalho curiosa para saber qual era a surpresa do dia. Riam, conversavam e ele contou que viu que levava jeito vendo os programas de culinária da TV.  Aprendeu a fazer pão e macarrão, os vizinhos começaram a fazer encomendas, melhorou a estrutura da cozinha e quase não tem tempo de assistir televisão.
Semana passada chegou com passagens pra Bahia. Está interessado em se inteirar de moquecas,  aprender os segredos do dendê e em se acertar com ela.

O que isso tem a ver com a Rainha? Explico:
O marido virou cozinheiro porque percebeu que precisava mudar para permanecer e é aí que entra a Rainha da Inglaterra. O casamento do príncipe Harry com a americana Meghan Markle  - que o mundo inteiro assistiu e continua a comentar, foi lindo e descontraído - para os padrões britânicos - com calculadíssimas quebras do protocolo, porém improvável de acontecer até pouco tempo atrás.
No entanto os tempos são outros e a realeza britânica teve a sensibilidade de perceber isto. Precisou mudar para permanecer.

A Rainha da Inglaterra quer que tudo permaneça, por isso muda.
O marido descobriu o que queria e mudou, para permanecer.

Ps: Vida longa e feliz para ambos os casais e, se tiverem ouvido o importante sermão do Reverendo Michael Curry com a devida atenção, certamente terão sucesso na empreitada.














sexta-feira, 4 de maio de 2018

Portugal - Algumas Impressões

"O único modo de encontrar um
 amigo é ser um."
                    Fernando Pessoa

Dias de lavar as roupas e limpar os sapatos que trouxemos da bela e empoeirada Lisboa, por óbvio e,  também, para que fiquem de par com a alma que voltou lavada e arejada. O que me remete à D. Carlota Joaquina que, ao deixar o Brasil - que tanto detestava - sacudiu os sapatos ao embarcar no navio que a levaria de volta à Lisboa porque "do Brasil não quero levar nem o pó!" Não é o caso, aqui.

Mais importante das colônias do Portugal navegador e descobridor, temos - para o bem e para o mal -a nossa  história entrelaçada por mais de três séculos. É interessante ver a figura do D. Pedro I - para eles D. Pedro IV - com o olhar do outro. Um bom exercício para entender pontos de vista diferentes de um mesmo fato. As últimas colônias, "em África" se emanciparam só na segunda metade do séc. XX.
A estabilização dos seus limites em 1.297 torna Portugal o país com as fronteiras mais antigas da Europa e, se depender do turismo para lhe gerar divisas está claramente bem servido. Turistas da Comunidade Européia lotam hotéis e museus. Sem falar nos japoneses e os chineses - estes em enxames. E nós.

Meu interesse pelo modo como as pessoas se expressam foi deliciosamente recompensado em Portugal... Se, como nos disse um taxista "os brasileiros falam português com samba", eu digo que os portugueses falam português com poesia. E não é pura poesia nos indicarem um restaurante requintado onde os guardanapos "são dobrados em pomba" e endereço é "dar a morada?" E no açougue escolhemos o nosso talho de eleição?  E onde "um empregado de mesa, que está ali a nos indicar a melhor escolha" declara que nós, brasileiros e portugueses, falamos a "língua de Camões?" E  que escrevemos igual, mas a pronuncia de lá é que é a correta, por castiça? E, elegantemente, fala na segunda pessoa do plural?

E os vinhos e os doces e o Douro e o Tejo? - largo como o mar - com o qual se junta lá pelos lados da Torre de Belém, bem pertinho da famosa confeitaria que produz os maravilhosos Pastéis de Belém, situada na rua do mesmo nome, número 84, desde 1837.

E o bacalhau, que nos motivou a ir lá.

Para a minha avó paterna, nascida Honorina de Sampaio Barros, de quem - desconfio - trago em mim estes momentos de devaneios...



quinta-feira, 5 de abril de 2018

No Ônibus

O Universo conspira a favor  
de quem não conspira
contra ninguém.

Conversadeira que sou, emudeço quando viajo de ônibus então, quando a senhora discreta pediu  para se instalar no banco perto da janela, recolhi pernas e bolsa para lhe facilitar a passagem e me limitei ao "pois não" ao seu pedido de licença.

Da reforma da Rodoferroviária de Curitiba só tinha conhecimento das queixas dos usuários pelo tempo que durou. Ficou bom, aumentou espaço de estacionamento dos ônibus e circulação de passageiros. Fui direto para a banca de revistas reinstalada perto de onde lembro que ficava. Pedi uma e ouço a espantosa resposta da vendedora - não vendemos mais revistas, senhora! Como? Mas isto não é uma banca de revista? E ela, é, mas não tem revista. Surreal!  Decepcionada me senti como quando - abandonado o cigarro - não sabia o que fazer com as muitas mãos que parecia que eu tinha. Subi para o segundo andar do ônibus onde a gente não vê o motorista e pensa que o que nos guia é o desejo das pessoas que se juntaram para ir ao mesmo lugar.

 Meia hora de viagem, a vizinha de banco me perguntou, com gentileza, se eu gostaria que ela fechasse a cortina. Não, obrigada, não durmo no ônibus. Ela começou a puxar conversa. Disse, feliz, que ia pra Balneário Camboriú visitar uma amiga que não via há tempo. Que morava em Curitiba, na rua tal e eu comentei, sei, sei, tenho uma amiga que mora nesta rua e nos pegamos num papo solto! São parecidas as mulheres maduras, por mais diferentes que sejam a suas histórias pessoais têm muita coisa em comum. A viagem de ônibus voou! De repente, chegamos! A amiga já mandara um WhatsApp informando que a estava esperando. Tentei me despedir dela, iríamos pra lados diferentes, mas ela insistiu, "quero apresentar a minha amiga, é rápido!"

A amiga veio ao encontro dela sorrindo e eu a reconheci assim que a vi! Continuava com o olhar brilhante e franco de mais de cinquenta anos atrás! Era a minha querida professora Dagmar, do quarto ano primário! Não me reconheceu individualmente mas lembrou da turma, disse que recebera uma  visita do Bento - que se tornara padre - em Brusque, onde era professora de matemática. O Bento me veio inteiro, aos dez anos, sentado no primeiro banco, à direita do meu.
Não aceitou meus argumentos de que eu moro no lado oposto ao dela e me levou em casa.
A nova amiga, feliz  repetia,"eu sabia que tinha de apresentar a minha amiga a você."

No outro dia saímos juntas. Conversamos e rimos e nos divertimos como se fizéssemos isso a vida inteira. Foi bom e foi mágico. Nos despedimos afirmando que aquele havia sido só o primeiro encontro....

Para Lídia, que seguiu a intuição, insistiu e me fez um grande bem!


















sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulher no Dia a Dia

"Você tem de cometer erros para
   descobrir aquilo que não é."
                     Margareth Thatcher
                                                                        
Dia da Mulher, elevo pensamento e sentimento na intenção das mulheres que lutaram e sofreram e morreram para que todas tivéssemos vida melhor. À elas, respeito e gratidão.

...e penso nas mulheres que fizeram ou fazem parte da minha vida e que, de um jeito ou de outro, me tornaram o que sou. Com algumas aprendi a ser, com outras a não ser. Filha única com três irmãos ao  redor, sentia falta de uma irmã. Teve um tempo em que eu acreditava que, se tivesse um casaco de lã azul marinho com botões dourados e martingale - e uma irmã (nessa ordem) - eu não precisaria de mais nada para ser feliz. Não tive nenhum dois dois e cedo percebi que possuir o casaco era mais fácil do que ter a irmã.  Depois, moça, tive uma irmãzinha que chegou já nascida e que fez a nossa alegria, da casa inteira. A vida flui, as coisas passam... hoje, madura, sei que devo muito do que sou à mãe que tive - que se foi tão cedo - e que foi dela que aprendi a não me vitimizar nunca. Era ereta, a minha mãe. Com minha avó, que passava longas temporadas na nossa casa, aprendi a ser resiliente, a começar de novo. Da outra avó, paterna - esparramada em ternura - com quem convivi muito pouco e, por isso mesmo absorvi tudo o que pude, aprendi que a vida não precisa ser tão dura, mesmo que seja. É preciso olhar em volta, mudar o foco. Sempre funciona.

Com minhas filhas, íntegras e fortes aprendo mais de mim, e me orgulho e me enterneço porque sei que posso contar com elas como elas sabem que podem contar comigo. E fico feliz quando rimos juntas. Rir com os filhos é a confirmação de que acertamos mais do erramos.

E com as amigas, as que a vida separou, mas que continuam tão em mim, porque nossos caminhos se confundem e nem sempre sei se isso ou aquilo de que me lembro é meu ou delas. As que foram surgindo na confluência de interesses, que me cativaram e que cativei e com quem - como a raposa e o principezinho - começo a ficar feliz pela expectativa do encontro e, quando a hora chega, estamos alvoraçadas de felicidade. Com elas gasto a vida sem economia, mas com critério. Não é mais tempo de desperdício.
São muitas as irmãs que tenho. O casaco, faz tempo que não quero mais.

E com a minha neta, com quem aprendo a ser melhor do que eu, desde o primeiro instante em que a vi.









quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Egoísmo e Humildade

Aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo, nem orgulho.
É Amor Próprio.
Charles Chaplin

Não sei quanto o governo economizou por nos dar uma hora a mais de luz natural, mas o verão fez questão de aproveitar quase nada. Segunda feira, já com os relógios nos conformes, ele apareceu todo exibido e com trovoadas de fim de tarde. Pra mim, valeu. Sou fã de horário de verão. Como uma coisa puxa outra lembrei de um dia desses na praia, onde um bando de maduros discutíamos a própria realidade e o que achamos que é viver bem, com as gentilezas que nos permitirmos.
A conclusão geral é que necessitamos ser egoístas, palavra desvirtuada pelo mau uso que se faz dela. Repare nos pecados capitais criados pela igreja católica para facilitar seu trabalho: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça, Vaidade. Profundamente humanos e universais, nenhum deles é sinônimo de egoísmo. Do "Conhece-te a ti mesmo" dos gregos  até o Amai ao próximo como a ti mesmo" que Jesus deixou como um Mandamento Novo, é essencial olhar para dentro e saber de si.

Queremos " pouco" nessas alturas - saúde boa, amigos perto, amores certos e dinheiro - o suficiente para não precisar lembrar dele. E nos divertir. Gente vivida gosta de festa, de riso, de troca de afetos.

Filhos criados, os amamos sem medidas, mas são deles os caminhos que escolheram, e deles os percalços da jornada. De netos, penso que são a melhor definição do que seja eternidade, mas não nos pertencem.
Continuamos a ser "um lugar para voltar" com as portas do coração abertas de par em par. 
Somos donos de nós, e é a quem devemos explicações e paciência. Está aí uma coisa que os jovens não sabem. Precisamos ter uma enorme paciência conosco porque ficamos em nós as 24 horas do dia. Pensa que é fácil? Conhecemos bem os nossos limites.

Aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, a dizer não ao que nos fere ou desrespeita  porque temos coragem de romper paradigmas.
Chegados até aqui, voltamos a ter certezas. Poucas, mas fundamentais.


     










segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Na Praia

"Cuendo calienta el sol
  aqui en la playa
  Siento tu cuerpo vibrar cerca de mí.."
                            Hermanos Rigual *

Vizinhos de areia mudam todos os dias e, se nos quedamos ao sol o dia inteiro, variam no decorrer do período. Gosto de observar essa intermitência de quem chega e de quem sai e perceber as alternâncias da vizinhança.
No guarda-sol ao lado, ouço a resposta da mulher ao vendedor da mega sena acumulada.  "A gente não quer moço, a gente é rico". Chega o haitiano, oferece pau de selfie, e a resposta é " a gente não quer moço, a gente já tem de todas as cores"... alguma dúvida? Suponho que seja para combinar com a capinha do celular.  O som, pequeno e potente, propaga:
 Rapariga, não! Rapariga, não!
 Lava a sua boca com água e sabão!
 Depois piora:
 Faço devagar, faço devagar,
 Faço devagar que é pra ela se apaixonar.

Como diz minha filha, é o cerumano, mãe!

Do outro lado, o pessoal comenta com o vendedor de sanduíche natural que o céu escurece de repente. O moço, com ares de quem sabe o que diz, olha o pretume que se aproxima do continente, depois mira o pretume que vem do mar e determina: eeee...  essa manchinha que vem de lá e se achega da manchinha que vem de cá? nãao, nada de chuva, fique susse!
Eu, que já  juntava cadeira e canga decidi confiar no moço, roupa de marinheiro, com quepe de âncora e com anos de praia. Pode não ter experiência em vagas e ventos em alto mar, pois isso é assunto para marinheiros de outra cepa, mas de claros e escuros na areia ele entende. Fiquei e acertei.  O céu foi clareando, clareando, despontou um azul lá no horizonte, os vizinhos ricos recolheram som e selfie e se foram e a praia clareou também, na areia.

Li um pouco, cochilei outro tanto e quando cheguei à fila do chuveiro para tirar as areias de mim, o moço a minha frente cedeu-me a vez, segurou minhas tralhas e  acionou o chuveiro.

Digo eu pra minha filha, é o ser humano, filha!

Ganhei a crônica - que saiu inteira - e ganhei o dia.

* Consta que a música é do nicaraguense Rafael Gaston Perez que a vendeu ao trio cubano que fez um sucesso extraordinário com ela. A letra original era... quando calienta el sol en Masapacha, cidade litorânea distante 60 km de Manágua, capital da Nicarágua. 
Fonte: El Blog del bolero: Oswaldo Paez


 




sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Sumiço da Sandália

Perco a sandália e
recupero o passo.

Na fila do caixa, quase na minha vez, me vi descalça!
Jesus, clamei! Cadê as minhas havaianas?  Me arrependi no ato. Instantaneamente todo o entorno olhou de mim pra eles - os meus pés no chão - que, diga-se de passagem, deveria ter tido a caridade de se abrir para que eu desaparecesse.
Uns me olhavam de jeito esquisito, outros balançavam a cabeça, apiedados, e sussurravam o nome do alemão. Sabe como é. Ouvir, examinar e investigar para só depois dar o diagnóstico é coisa de médico. Leigo sabe!  Me olhavam com cara de dó. A senhora está bem, onde mora? Tem família? Quer que eu a acompanhe? Fiquei muda, enquanto pensava em como sair dali sem que nenhuma alma bondosa me acompanhasse.

Supermercado cuja propaganda é ser inclusivo é, de fato, uma loja diferenciada. Corredores largos e gôndolas baixas fazem todo mundo se sentir magro e alto. Uma beleza! Da porta de entrada se enxerga o fundo da loja. Nos corredores circulam  - com conforto e sem atropelos -  pessoas com carrinhos de compras, cadeirantes, crianças empurrando um carrinho com uma espécie de mastro com uma bandeirinha na ponta que pode ser avistada de qualquer lugar. Ninguém perde a criançada, nem que queira.Tudo o que eu ansiava era estar num shopping em véspera de natal e desaparecer na multidão.

Reagi! Agradeci a atenção de todos, balbuciei qualquer coisa sobre Setor de Achados e Perdidos, o que se mostrou uma ideia excelente, porque as pessoas se empolgaram com as maravilhas do supermercado e esqueceram de mim. Larguei as compras e me enfiei loja a dentro. Imagina eu chegar no Setor  (não tem e nem caberia ter)  e perguntar se haviam, por acaso, encontrado um par de havaianas branquinhas circulando sozinhas por aí?  

Fiz cara  de paisagem e tentei refazer o trajeto anterior até que avistei, sob uma mesa da lanchonete, o par lado a lado, que alguém havia colocado ali. Como, me perguntei, se eu não estive na lanchonete?  Daí me lembrei! A padaria fica ao lado e o pão ia demorar mais  "dois minutinhos", tempo padrão de padarias em todo os lugares. Não importa há hora que se chegue, sempre faltam dois minutinhos para sair o pão quentinho. Me distraí, o tempo do pão não é o mesmo do relógio e larguei a sandália entre um tempo e outro. Como a fila demora, mas sempre anda, em todos os lugares e analogias possíveis, fui andando e a sandália não me acompanhou.

Refiz as compras e tudo acabou bem. Na saída encontrei um casal de amigos e fiquei aliviada por te-los encontrado na segunda saída, não na primeira. Não sei como explicaria a alguém que conheço o fato de estar descalça no supermercado. Acho que só contando a história inteira, como faço agora. Ficou tão lógico! Não?








terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Outra Primeira Vez

"O tempo é remédio pra tudo...
exceto para a velhice."
                    Henrique Jorge

Lembro da primeira vez que me chamaram de senhora. Entrei numa loja e a atendente, solícita, perguntou. posso ajudá-la, senhora?  Olhei para trás à procura da tal senhora. A moça reforçou o sorriso e repetiu a pergunta. Daquele dia em diante a coisa foi ficando cada vez mais frequente.
É como adolescente, dorme criança e acorda  moça. Quem tem neta sabe. A gente dorme moça e acorda senhora. Com o tempo a pessoa acostuma e esse limbo dura até chegar aos 60 anos.
Daí muda tudo! Entramos no status oficial de idoso! Tiramos A Credencial do Idoso (adoro isso, credencial) e como o nome diz, nos credencia para uma porção de pequenas regalias.
Os jovens não sabem mas, - quem tem sorte - envelhece.
Entre outras coisas o Cartão do Idoso é grande e vistoso, plastificado então, pode servir de *leque* nos dias de calor, Também serve para nos tirar da invisibilidade total, porque um cartão se mexendo no ar deve estar sendo agitado por alguém. No caso o Idoso Proprietário. A gente sacode o Cartão do Idoso e as pessoas nos enxergam!  Uso letra maiúscula porque é um documento importante. Precisa de 60 anos para conseguir.

Lembrei disso porque fui ao supermercado e estacionei na vaga de idoso, a mais perto da escada rolante, mais larga, mais clara. Certo que o ícone é um bonequinho curvado apoiado numa bengala, o que revolta alguns  usuários. Soube que uns inconformados ensaiaram um  movimento para atualiza-lo, o que acho um perigo porque corremos o risco de perder a regalia. Se quisermos um ícone mais descolado, rejuvenescido, alguém pode argumentar que, se não são velhos, não precisam de tratamento diferenciado. Atentemos, pois!

Além disso, já tem lei para uma nova categoria de idoso, o de 80 anos ou mais. Imagino que, se começarmos a reclamar, os nobres deputados alteram a idade mínima oficial de ser idoso. Nada de correr riscos desnecessários. Com a criação do Idoso, fase 2, automaticamente criou-se a categoria dos pré-idosos. o que nos rejuvenesce de cara, de graça, sem risco. É um presente!
A melhor estratégia, a mais esperta  é a de usar o direito adquirido - outra coisa de que gosto, direito adquirido - a nosso favor. Somos velhos quando interessa, caso das vagas especiais, e não somos, quando não nos interessa. É só observar os netos adolescentes que a gente aprende . Eles são bons nisso. Adolescentes nos direitos, são crianças nos deveres.

Têm lugares, porém, onde as espertezas não funcionam. Bancos, por exemplo, não adianta pegar duas senhas - convencional e idoso - na expectativa de usar a que chamarem primeiro. Eles já sacaram a malandragem e puseram um funcionário grudado no totem que expele as senhas e que nos entrega a que nos cabe na nossa mão. O sujeito, olhar severo, acerta sempre, só de olhar pra nossa cara. Aliás, aproveite, porque depois de entrar ninguém mais olha pra você.

Outra coisa que aprendi - mesmo que a gente esteja bem  - é bom lembrar que estamos bem  para a idade que temos, apenas isso. Alguém da nossa faixa etária comenta que estamos bem, acredite, é sincero. Porém, se alguém vinte anos mais novo disser isso, não pense que a pessoa o está comparando a ela. Conta bancária favorece a avaliação. Nada de ilusões.

A vida, enfim, é um aprendizado constante.
Se observe, se ouça e se respeite.
Diga não com decisão e não se importe com quem não se importa com você.
Se cuide, se divirta e faça coisas que sempre quis fazer. Eu estou pensando em voar de asa delta.
Amém!

 Esclarecimento aos jovens:
* leque: objeto que, sacudido em frente ao rosto, gera um ventinho que ajuda a abrandar o calor.
Espécie de ar condicionado portátil. Não causa danos ao meio ambiente.


sábado, 6 de janeiro de 2018

"A Tardinha Cai."

"Navegar é preciso
 Viver não é preciso.
                 F. Pessoa"

 Fernando Pessoa popularizou os versos cuja autoria é creditada ao general romano Pompeu, por volta de 70 a.C. Com a intenção de incentivar os marinheiros, apavorados, a levar uma carga de trigo a Roma durante a guerra, o general bradava "Navigare necesse, vivere non est necesse!"
Eles temiam a imprecisão dos barcos e a precisão do inimigo, mas Pompeu era o temor mais próximo. Claro que ele ficava dando tchauzinho do cais. Jogo duro, o tal Pompeu. Pensando bem, as coisas continuam mais ou menos assim, até hoje. Manda quem pode e obedece quem não tem escolha. No século XIV, o poeta italiano Petrarca mudou a expressão para "Navegar é preciso, viver não é preciso." Fernando Pessoa escreveu seu poema a partir destes versos, destacando que eram lema dos navegadores antigos. Continuam atuais há mais de 2000 anos porque não têm tempo, nem lugar, nem hora - só sentimento. Poesia é assim, como uma luva, se ajusta à alma de cada um.

Aqui, ilustram a primeira vez  - no mar - de uma moça que eu conheço.

Veio de mudança. Mal arriou "mala e cuia" no chão da sala, recebeu uma amiga querida que a encheu de mimos, e com a qual foi passar o Réveillon no veleiro de amigos comuns, onde foi conferir a "precisão" do que é navegar. Narrativas de marear não faltaram e sei que ela temia dar vexame, incomodar os anfitriões, coisa e tal... pois não há de ver que a moça entrou no barco e se sentiu em terra firme? Velejavam - barco adernado, vela estufada - e ela parecia pisar chão de terra batida. E as vagas, então?  E dormir? A cabine lhe pareceu um latifúndio, dormiu o sono dos justos e acordou revigorada. Certo que confiou na dupla experiente que comandava o barco com a presteza de quem sabe o que faz. Reconheceu que a confiança exclui quaisquer temores e que é a desconfiança que nos derruba, mesmo que estejamos presos ao chão. Além disso estavam todos, literalmente, no mesmo barco. E também tem outra coisa, ela se trouxe para ancorar na casa da praia e o barco é uma casa que se leva junto, então foi um reconhecimento imediato.

Passando os olhos por textos que escrevi no ano passado - depois de ter escrito este - notei que usei esses versos para abrir o texto do dia 08/01/2017.  Cabiam lá e cabem aqui.


É a ela, à moça que velejou pela primeira vez, que dedico texto e versos, com votos de que continue a sentir encantamento e entusiasmo pela maravilhosa imprecisão de viver.
E que não deixe de ser curiosa.