quarta-feira, 3 de maio de 2017

São Roupas Passadas....

"Escrever é ter a companhia
 do outro de nós que escreve."
                    Vergílio Ferreira

Ele se apresentou como "Apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior"... e se estabeleceu e contribuiu enormemente para o brilho e a importância da nossa música popular. Nos deixou, em 30 de abril, e já faz falta. Foi imprescindível nas playlist  da juventude dos anos 60/70 - quando gravávamos fitas cassetes que rebobinávamos com o auxílio de uma caneta Bic  e sabíamos todas as letras de cor.  Ainda sabemos. Belchior  percebeu, muito jovem, que o "passado é uma roupa que não nos serve mais"... que Elis Regina cantava lindamente.

Recebi o pedido gentil para "fazer parte de suas amizades" de uma leitora de Ribeirão Preto - Fátima - com a alegação de que "gosto muito do que você escreve", e trocamos informações onde ela diz que chegou aos meus escritos através da irmã  - Aparecida - e que "que fico feliz com tudo o que você posta". E como a felicidade é sempre generosa, fiquei feliz também. Nos conhecemos, dona Aparecida e eu, em um bazar de roupas usadas organizado pelas famílias dos cantores infanto-juvenis do Papo Coral  na Paidéia Escola de Música, cujo objetivo foi o de angariar fundos para viabilizar a aceitação do convite recebido da Câmara de Trento - na Itália - para que o Coral participe de um intercâmbio cultural no mês de junho. O neto dela e a minha neta fazem parte do Grupo.

Nestes tempos de sustentabilidade necessária, bazares de roupas usadas são um sucesso e proliferam em todo lugar. A ideia é boa e uma boa ideia é sempre um bom começo. Abrimos espaço em armários atulhados, nos livramos de coisas que não nos servem e que servirão para outra pessoa. Remanejamos e reciclamos. Arejamos casa e armário. É um movimento de vai e vem, porque também encontramos alguma pechincha que é a nossa cara. 

Acredito que, quando Belchior  compara os sentimentos que trazemos a uma roupa que não nos serve mais, ele nos convida a olhar para dentro para identificar o que nos atrapalha. Tem sentimentos que ficaram puídos e gastos e não suportam mais remendo. Tem aquele que nunca serviu direito, e sempre foi um desconforto usá-lo. Tem até um que usamos por empréstimo e passa da hora de devolver.
Fica o que é bom e trazemos conosco. Somos acumuladores, mas só de viver.














domingo, 23 de abril de 2017

A Festa da Beta

Entrou no salão de festas de bolsinha dourada à tiracolo, sandália dourada de saltinho e um sorriso aberto iluminando tudo. Chegou explicando o porquê da bolsinha atravessada no peito: "guardo as chaves, o celular e os controles para acionar os aparelhos de ar condicionado, é prático, mantenho os braços livres para acolher abraços." Acho que bolsinhas sejam do agrado de Elisabeth porque me lembrei de outra - tão nobre quanto - que as combina com chapéus e que servem de especulação para jornalistas do mundo inteiro  "o que contém a bolsinha da rainha?" De minha parte penso que, nesta, também cabe o celular, e arrisco supor que abrigue um batom para retocar a maquiagem, e  talvez um lencinho para secar uma ou outra lágrima necessária. Acredito que mulheres, todas diferentes, têm em comum mais coisas do que mostramos à primeira vista.

Estavam lá, os da família e eu - que sou apresentada como a filha postiça - numa deferência e consideração que me comove e que agradeço. Dos quatro que formavam os dois casais de amigos de todas as horas, ela é a única que continua firme e forte e é admirável o entusiasmo com que organizou a própria festa para celebrar os 80 anos. Lembro, adolescente, indo passar o verão inteiro com eles no sobrado grande, de madeira, pintado de cor de rosa, quando a Rua 2000 - em Camboriú - era longe de tudo e a gente ia até o mar, pisando o chão clarinho, sem calçamento, sem  meio fio e sem calçada. A casa tinha nome próprio, chamava-se Raimunda, era ampla e confortável, e havia sido construída sem nenhuma preocupação com a estética. Era feia de cara!  Nada de cerca ou muro, era só sair e depois de cinco minutos nos regalávamos com sol e mar!

Depois do almoço gostoso e farto, ficamos por ali, papeando e bebericando e lembrando histórias divertidas dos ausentes o que, numa festa de oitenta anos, é assunto inevitável. Acho que eternidade é um pouco isso, ser lembrado pelas histórias que partilhamos e que os amigos contam e aumentam um ponto e sentem saudades e dizem ah! lembram daquela?
Pelo meio da tarde foram chegando mais amigos para comer o bolo e cantar o Parabéns e foi um tal de "nossa, nunca reconheceria você se o encontrasse na rua " o que é, ao mesmo tempo, nostalgia e privilégio. Revi pessoas que não via há mais de quarenta anos e troçamos uns dos outros concluindo que estávamos todos ótimos!

Parabéns e vida longa à dona Beta com votos de que se cumpra o que ela própria se desejou ao apagar as velas, aquelas que teimam em reacender na melhor metáfora do que é viver. Entre uma soprada e outra manifestou a vontade de chegar aos noventa e, precavida, adiantou: quando chegar lá, reviso a meta!


           



quarta-feira, 12 de abril de 2017

De Rosas e Rolhas

"A saudade é uma tatuagem na alma:
só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós."
                                                     Mia Couto


Das mil rosas roubadas que Cazuza usou para se desculpar das "mentiras e mancadas" no ato exagerado que nomeia a música, meu pensamento sempre vai para a ocasião em que meu pai estacionou na garagem de casa, à hora do almoço, e retirou um volume enorme do porta malas, e sorridente, me perguntou "adivinha o que é isto?" Pela facilidade com que ele ergueu o pacotão dava para saber que a coisa era leve. Nem deu tempo para pensar em nada porque ele declarou, exultante: comprei mil rolhas!  Foi um tempo em que ele andava às voltas com a construção de uma adega, com os nichos revestidos de isopor e paredes e piso de cimento - rústica - erguida fora da casa e que funcionou muito bem. Tinha um termômetro que oscilava entre 13 e 14 graus numa região de verões escaldantes e invernos muito frios. Difícil foi convencer minha mãe da necessidade de tanta rolha. É que  - ele explicava - o padre da  "Tifa das Cobras" me telefonou hoje dizendo que o vinho deles promete, porque choveu quando devia e não choveu quando não precisava, de modos que a uva ficou supimpa e isso e mais aquilo, e eu reservei o excedente. Coisa pouca, comprei só 500 garrafas. A esta altura  a coisa pegou fogo! Ela ficou furiosa, porque o negócio complicava cada vez mais. Minha mãe gostava de padres, na missa, rezando e repartindo o pão e meu pai gostava de padres, fora da missa, dividindo o vinho.

Não lembro como a discussão terminou, mas eles ficaram uns dias sem se falar, pelo menos na nossa frente. Depois de um tempo ele montou uma linha de engarrafamento na mesa grande da churrasqueira, para, depois de engarrafada e arrolhada, mergulhar cada garrafa na cera derretida para
vedá-la, e só então colocar na adega para maturar. Fui convocada para ajudar e até achei divertido. Só não gostei das mil abelhas que vieram revindicar a cera que lhes pertencia, e lembro de que com elas a negociação foi um pouco mais difícil do que com a minha mãe.

Bebemos muito daquele vinho, em domingos ensolarados de churrasco e riso. À mim cabia o privilégio de, "para dar sorte",  atirar e quebrar, de costas, o cálice vazio nas brasas da churrasqueira. Minha mãe ia e vinha, com os doces de figo, ambrosia, de cubos brilhantes de abóbora, excelentes, como nunca fiz igual.

Hoje acredito que "a sorte" se dava ali, naquele momento e naquele dia. E que também tiveram "sorte" as pessoas que resgataram as garrafas que boiaram, nas águas daquele rio que encheu tanto que levou os vinhos e levou meu pai.








segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sete no Mexe-Mexe

"Não perdi a memória.
Só não lembro onde botei."
                 Millôr Fernandes

O evento vai se chamar Mexe-Mexe 500!  A data não está marcada, mas é certo que será no princípio de dezembro quando todas já cumpriram os aniversários e a soma das idades chegar a 500 anos. Começaram jogando canastra, mas quando uma faltava impedia o jogo da parceira. Eram tempos de muitas demandas e os imprevistos eram frequentes. Uma correria! aquele  "leva e trás" da criançada para a escola, trabalho, compromissos e a semana voava e a vida escoava. Aparentadas entre si, as sete resolveram se dar uma tarde para colocar o papo em dia enquanto jogavam carteado e dividiam o lanche. Passaram para o Mexe-Mexe  por ser jogo de cada um por si e a ausência de uma não impediria o jogo da outra. Não lembram exatamente quando começaram. Uma alega que foi assim que voltou da primeira viagem que fez ao exterior, com o marido, sem as crianças e sem ansiedades. Outra diz que foi quando passou no concurso e começou a lecionar na faculdade, a terceira afirma que não, foi quando a mãe dela faleceu, tem certeza absoluta! Provavelmente todas estejam certas porque mulher é assim: pontua a vida pelas relevâncias do que viveu, situa-se pelo que lhe marcou a alma e gravou na memória e, para se localizar no tempo, recorre às lembranças que vem compondo a bagagem. Acho que é por isso que temos a fama de não esquecer de datas o que gera piadinhas de maridos e namorados. As pessoas - não só as mulheres - esperam do outro as mesmas reações que têm diante da experiência compartilhada. Mas não é assim que funciona. Cada um reage de maneira única e pessoal. Acho que é daí que vem as dificuldades nos relacionamentos. Mas isso não é assunto para agora.

Comecei a escrever com a intenção de contar de cada uma delas, mas os textos, como a vida, nem sempre admitem controle. Queria falar da mais velha, que beira os 90 e que repete, divertida, que escolheram jogar Mexe-Mexe para não esquecer de outras "Mexidas", nada inocentes, que deram na vida. Outra contesta, de pronto, "fale por você que eu ainda não estou em fase de lembrar". Tem aquela que, ao receber as outras, sempre faz quitutes demais e tem quem os faz de menos. Tem até quem nunca faz e tem quem sempre faz a mesma coisa. Duas se divorciaram e as duas que enviuvaram repetem, passada a dor do luto, "que são as únicas que sabem onde os maridos estão". As três que continuam casadas seguem implicando com os maridos e eles continuam implicando com elas. Mas se apoiam e se ajudam e se querem como deve ser. Elas também implicam entre si e criticam umas às outras. E se ajudam e se cuidam e se divertem quando é para se divertir e choram juntas quando é tempo de chorar. Possuem o bem precioso da amizade madura e sabem que podem contar umas com as outras em qualquer situação.

Foi por tudo isso e porque aprenderam que celebrar é um privilégio, que decidiram que era hora de fazer uma festa com a família toda e com os amigos de sempre para comemorar o aniversário dessa reunião que dura há tantas décadas. Mas como não conseguiram chegar ao consenso de quando começaram a jogar, concordaram em esperar que a soma dos anos delas chegasse a 500. Depois conto como foi a festa!


    





domingo, 19 de março de 2017

Um Domingo Diferente

"As coisas me ampliaram para menos"
                               Manoel de Barros


Aceitei, com alegria, o convite para tomar o café da manhã no hotel onde trabalha um moço que vi crescer e que lembrou de mim para comemorar esta fase da vida em que as coisas começam a dar certo para ele. Apresentou-me a todos e me mostrou tudo. Conheci a cozinha e a despensa e a sala de convenções. Me pôs à par dos projetos dos proprietários para diversificar a oferta e aumentar, claro, a demanda. Conheci alguns apartamentos, já reformados, maiores do que a maioria dos Studios que as construtoras oferecem com espaço inversamente proporcional aos preços. Informou-me de que muitas pessoas residem no hotel o que me interessou imediatamente! Os apartamentos têm dois dormitórios, banheiro de bom tamanho, cozinha com frigobar, pia, bancada e micro-ondas, mesa para dois e aberta para a sala com sofá, TV e sacada, Ah sacadas! com vistas para a rua, e para rasgos de céus de luas cheias, de sóis e de nuvens que se movimentam e de vidas que circulam sem parar.
Decidi que, quando envelhecer (há controvérsias sobre este conceito) minha neta, por exemplo, me informa com a maior candura que eu não sou velha porque ainda não tenho cheiro de velha. Me arriscando muito perguntei a ela "que cheiro é esse" e ela, daqueles talcos antigos, vó, e de velhinhos que usam muitas vezes a mesma roupa sem lavar direito. Bom, pensei, não uso talco e, partir de agora redobro a atenção  que dou às minhas roupas. Por precaução, combinei com ela que me informe se perceber que entrei na categoria. Fico sossegada, porque nada é mais sincero do que o dizer de uma adolescente. Sincero e cruel, mas eu aguento!

Dia desses atendi o telefone e uma voz masculina maravilhosa me ofereceu, assim, sem nem dizer bom dia, um Plano Funeral que me deixaria tranquila por toda a eternidade. Confesso que ouvi o que o homem dizia fascinada com o timbre de voz que ele tem. Das sensualidades, sempre penso que a das vozes é sub apreciada. Homens com vozes assim devem usá-las para cantar em Coros que sempre têm demanda de tenores e barítonos, ser radialistas, apresentadores de TV e afins ou ganhar a vida dizendo coisas certas em horas incertas ao pé do ouvido de quem interessar possa. Mas nunca, jamais, anunciar planos de funerais. É um desperdício sem tamanho e uso indevido de um talento.

Das convicções que tenho, uma é a de que o meu funeral não é problema meu. Nada me convence do contrário. De modos que, se eu conseguir seguir meus planos e envelhecer com autonomia e independência, vou morar em um hotel destes que aceitam mensalistas. De dúvida, só tenho uma, não sei se na Rua da Flores - em Curitiba - ou na Alameda Lorena - em São Paulo.
Mas isso não é coisa para decidir agora.

                             

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulher

"Se a gente cresce com os golpes 
duros da vida, também podemos 
crescer com os toques suaves na alma."
                                      Cora Coralina 

A primeira mulher - na primeira história - foi criada a partir de uma costela do primeiro homem, feito à semelhança de Deus. Surgimos como um apêndice do homem, sem qualquer vestígio de individualidade e sem nenhuma condição de raciocínio. No entanto, nos foi atribuído o primeiro pecado quando o induzimos a comer do fruto proibido desobedecendo ao Senhor. Todos sabemos como a coisa acaba.  Ele é omitido da responsabilidade pelo que fez. Foi tentado, coitado!
Não me ocorre nada mais machista do que isso. A Bíblia foi escrita por homens.

Hoje, muitos séculos depois, em debates sobre comportamento em que se afirma - como um dogma -"homem é assim, mulher é assado"- eu sempre tenho a mesma dúvida:

Sentimentos têm gênero?
Somos gente e os sentimentos são neutros e de "domínio público". Sentimos amor, somos confiáveis, cultivamos amizades, nos comprometemos uns com os outros independentemente de sermos homem ou mulher.
Podemos trair, enganar, sentir raiva, inveja, o que for, sendo homem ou mulher.
O que seria útil fazer - e o Dia da Mulher - pode servir de ponto de partida é nos inteirarmos de nós. A mulher precisa se enxergar dentro de uma ótica feminina. Quantas vezes nos deparamos com histórias de mulheres que terminaram relacionamentos por justificadíssimos motivos, por exemplo: agressões físicas, traições reincidentes, indiferenças constantes, e ouvimos - de outra mulher  -comentários como:" Ruim com ele, pior sem ele. Sempre foi assim."
Se sempre foi assim, está mais do que na hora de mudar. Esta quebra de paradigma é uma conscientização de dentro para fora que a mulher deve ao ser feminino.
Ela não percebe que enxerga sob a mesma ótica machista que alguns homens se permitem ter para agir desta maneira. Pensando assim, ela chancela e justifica um comportamento que a prejudica. Mesma situação da mulher vítima de abuso sexual quando o que se discute é a roupa que ela vestia. Esta é mais uma das faces perversas do machismo e não é visível. A maioria dos homens não é assim e nem comportamentos abusivos são prerrogativas masculinas. O que é inaceitável é que mulheres sejam machistas sem perceber.  

Nos primórdios, a força física do homem foi fundamental para a sobrevivência da espécie.
Eles faziam o trabalho pesado e elas pariam para que a humanidade continuasse existindo. Ambos foram indispensáveis para que chegássemos até aqui. Cooperação eficiente. Não tivesse sido assim eu não teria escrito este texto e você não estaria lendo (espero).
Falo de parceria. De respeito. De igualdade de gênero. Em paz e com voz.







 








                                       


                                     









 















































 






sexta-feira, 3 de março de 2017

Mobilidade Urbana/ Primeiro Elo


Das unanimidades, a recomendação da prática de exercícios físicos regulares é - disparada - a primeira. Quanto mais vividos somos, mais os médicos nos recomendam caminhar com disciplina e constância. Faz bem pra tudo! Fortalece o coração, pernas e pulmões, espairece a alma, melhora o humor, enfim... sem falar do sol que precisamos apanhar para que o organismo metabolize a vitamina D. Tudo de bom e de graça! Precisamos das pernas e de um parque. Curitiba, cidade bem servida deles, pode se orgulhar de sempre ter um perto de você! Se a vida nos tratou com gentileza e nós mesmos nos usamos com moderação, levamos para a caminhada os anos que temos e, de bônus, esperamos agregar mais alguns.

Da cadeia veicular,  se podemos chamar assim, somos o elo mais fraco, a base da pirâmide. Vamos aos parques, somos Pedestres e dividimos espaço com os Ciclistas, o segundo elo.

Os Ciclistas, até pouco tempo, foram vítimas de frequentes acidentes de  trânsito e muitos morreram na disputa com o automóvel. Finalmente conseguiram se fazer notar e receber atenção de prefeituras e motoristas. Muitos lugares começaram a contar com Ciclovias. Iniciativa indispensável e que humaniza as cidades, é daquelas situações "de quanto mais, melhor". Os acidentes diminuíram e automóveis e bicicletas foram se adaptando uns aos outros. Sempre há o que melhorar, mas o caminho é este.

Parques e vias públicas receberam Ciclovias e nós, os pedestres? Cadê  as Pedestrevias?
Tanto não existem que nem nome tem. Aceito sugestões porque pedestrevias tá de amargar!
Nos parques, salvo honrosas exceções, ficamos espremidos entre a faixa do ciclista e a beirada da pista, adaptada para a dupla função. Não foram criadas faixas exclusivas para as bikes. 
O resultado é que os Pedestres  têm cada vez menos espaço para as caminhadas.

Nos trechos em que a pista não foi dividida, piora! Disputamos espaço com a bicicleta numa desproporção de forças tão grande que só nos resta sair do caminho para não ser atropelados por ela. Temos muito em comum, ambos somos movidos pela energia dispendida pela força das pernas, se bem que as nossas já não têm a agilidade necessária para sair correndo - de arrancada - ao ouvir o tilintar agudo da campainha da bike às nossas costas.

Acredito que as cidades são mais humanas na medida em que acolhem suas populações mais frágeis. Por interesse próprio, pretendo chamar a atenção desse olhar para a população dos mais velhos que estão aqui, agora, em todas a parte.
Curitiba foi e ainda é considerada uma cidade boa para se viver e conviver. Espero que continue sendo e que olhe o idoso com atenção e principalmente com ações inclusivas.
  
           













domingo, 26 de fevereiro de 2017

Três Historinhas Curtas porque é Carnaval

O que somos para além do que vamos sendo?
                      " Fazes-me falta" /Inês Pedrosa
                                                             pag.13


No setor de hortifruti do supermercado, talvez por que é Carnaval, de repente olhei os pepinos com olhos da criança que fui. E surgiu minha avó a me passar um pepino recém colhido que eu pegava e lavava na torneira  "de fora" e imediatamente mergulhava no açucareiro, sem enxugá-lo. O açúcar grudava no pepino molhado e a gente ia mordendo e enfiando no açucareiro até acabar.
Não é necessário dizer que o que sobrava do açúcar ficava molhado, grudado e imprestável. Se na época eu tivesse mais "expediente" lavaria tudo, reabasteceria o açucareiro e não deixaria vestígio.
Teria sido melhor para mim e para ela porque nos safaríamos da bronca da minha mãe . Hoje penso que a cumplicidade que tínhamos - minha avó e eu - precisava dessas pequenas infrações.
Então peguei um e disse para a senhora idosa ao meu lado - lembrei da minha avó, nós comíamos pepino com açúcar. Ela sorriu e disse "é muito bom, eu comia também!"
Ganhei meu sábado, ponto pra mim nesse início de Carnaval.
Recordei as fantasias - daí a lembrança - que minha avó costurava para mim, quando pequena. Fui flor, de saia com pétalas de cetim cor de rosa e corpo verde do caule e fui baiana, como fomos quase todas as meninas na época. Muito mais tarde, no mesmo clube, vesti de baiana minha filha mais velha - legítima - porque a vida, nas suas idas e vindas, fez com que ela nascesse em Salvador.

Decidida a a usufruir da calma que o Feriado de Carnaval generosamente oferece à Curitiba, queria fazer coisas que não tem hora para começar e - menos ainda - para acabar. Ler o quanto baste, caminhar, arrumar algumas gavetas - de armários e/ou de alma e me esmerar no fazer nada.
Ligar para amigos queridos que vejo menos do que gostaria também fazia parte da lista de "intenções de Carnaval".

A primeira pessoa para quem liguei me perguntou, o que você vai fazer do seu Carnaval? E eu, já estou fazendo, Uma delas é  telefonar para você. Veja a coincidência, estava com a mão no telefone para ligar e convidá-la a almoçar conosco. Pronto! Planos existem para serem seguidos e para serem mudados, sempre que for necessário. Levo a sobremesa de abacaxi que você adora e vou. E Ela; nem se preocupe com o horário, toda hora é certa quando não temos compromissos para depois.
Ganhei meu domingo, aumentei meu placar.

Tenho dois dias inteiros ainda e, da lista citada acima, ainda não fiz nada. Amanhã - tendo tempo - pretendo seguir o programado. Confirma-se uma impressão que tenho. A vida corre bem quando, não tendo nada para fazer, não temos tempo para nada!

E porque é Carnaval, me aventuro nesses versinhos:


''Fernando Pessoa
Modo de Usar "

Tenho uma amiga chamada Suely
E outra que é Marilena.
Por Suelena atende a terceira.

São diferentes, as três.
São inteiras.

O que têm em comum?
A amizade comigo
E o tamanho da alma
Que em nenhuma é pequena.


                                 







         

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Rebeldia e Coragem

"O medo nos mantém abaixo
das nossa possibilidades."
                  Desamparo /Inês Pedrosa

Caminhando pela orla encontrei uma amiga de uma amiga minha, o que por si só nos credencia para sermos amigas também. Ambas estávamos sozinhas e dois minutos depois, instaladas num barzinho com "chopp em dobro"o papo rolava solto. Ela contou que viera no meio da semana para uma reunião extraordinária do condomínio pois precisavam eleger um síndico, porque o senhor que vinha na função infelizmente não poderia continuar.

Da pauta constavam, também, os consertos e manutenção que o prédio necessita.  Reunião iniciada e a coisa toda deslizou como em um trilho azeitado. Tudo já havia sido discutido  "já que vamos mexer o melhor é fazer tudo o que precisa, afinal temos de preservar o nosso patrimônio". Ela tentou argumentar que seria bom dividir as obras, parte este ano e parte no ano que vem. "A senhora não concorda que temos de zelar pelo que nos pertence?" Típica pergunta de resposta única pensou em argumentar que a questão não era essa, etc...mas desistiu. Fugia de "perguntas pegadinhas" porque não levam a nada e irritam pela má fé.

Urgente uma chamada de capital - chegou-se rapidamente aos valores do rateio - incorporados na próxima taxa do condomínio com base nos orçamentos apresentados.
Passou-se para a eleição do síndico e como não surgiu nenhum candidato a opção foi contratar um profissional. Apresentaram os  três orçamentos de praxe. Dois síndicos e uma síndica. Os valores cobrados variavam bastante e num primeiro momento aventou-se que o Conselho entrevistasse os três e decidisse pelo que melhor atenderia a demanda. Nesta altura da reunião minha amiga já estava em urticárias de ansiedade e queria sumir dali e ir pra praia e tomar uma cerveja gelada porque, por Deus, ela merecia! Sentiu que só estava ali para legitimar decisões das quais não tomara parte e para as quais não fora consultada.

Conversa vai conversa vem, um dos moradores - novo no condomínio - pediu a a palavra e, depois de entoar loas " às inquestionáveis qualidades e imensas capacidades das mulheres" - no assunto em questão achava que um homem seria a melhor escolha. Afinal, observou, será um ano de obras, de peões circulando pelo prédio, e uma mulher teria de lidar com possíveis desrespeitos e talvez até com assédios de natureza sexual.
A esposa, que entrara muda e sairia calada, permanecia de braço dado com o marido e manteve um sorriso congelado de Monalisa, do começo ao fim.  

E ela, a minha amiga, que viera especialmente para esta reunião e que achava que a sua opinião seria considerada, rebelou-se -  indignada - e disse que a mulher síndica queria trabalhar e que certamente saberia se defender sozinha. E que era de um machismo inaceitável não contratá-la por ser mulher. Sua argumentação caiu no vazio. Ninguém nem sequer a ouviu. Decidiu-se entrevistar um só candidato, engenheiro aposentado, que somaria às capacitações administrativas, o conhecimento (necessário?) de engenharia para o melhor desempenho dos trabalhos. Era o candidato que cobrava mais caro.

O síndico, perto dos noventa, já invisível porque deixara de ser útil, permaneceu calado com uma expressão divertida e minha amiga, numa epifania, percebeu três coisas - importantíssimas!

Primeira: O síndico ficou invisível por vontade própria! Na contramão da queixa comum dos que envelhecemos ele, mais velho ainda, usava em seu benefício a invisibilidade inevitável que a idade carrega.
Segunda: Ela reconheceu em si a rebeldia adormecida de onde tirou coragens para as decisões difíceis que a vida lhe impôs.
Terceira:  Se tivermos olhos para ver o que não é dito, uma simples reunião de condomínio pode ser uma aula sobre o comportamento humano.

Foram para casa, lado a lado. Ele assoviando um bolero antigo e ela feliz da vida porque  nunca tinha participado de uma reunião de condomínio tão proveitosa, poucas vezes aprendera tanto em tão pouco tempo.

Minha amiga - eu disse -  excelentes motivos para comemorar!
E ao garçom: mais dois chopps e uma porção de bolinhos de bacalhau, por gentileza.
Dia para guardar na memória.









segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

As Várias Faces Que A Beleza Tem.

"É muito bom falar com os outros
 Sim, mas só quando você fala e há alguém que responde."
                                                      A amiga Genial/pag.99
                                                                    Elena Ferrante"
                                                             
                                                   
                                                   

Dia desses li um texto do brilhante escritor português Valter Hugo Mãe onde ele faz um paralelo entre a feiura que se atribui e a beleza que enxerga num amigo e de como acontecem as coisas do amor para um e para outro. Por ser feio, lamenta, nunca é notado pelas mulheres. Porém, ao contar de si e falar de como sente, expõe uma alma tão plena de delicadezas e sensibilidades que faz com que a gente se apaixone instantaneamente. No entanto, o amigo "galinha" e rude está sempre envolvido com várias moças e as usa para lhe alimentar as vaidades.

Imediatamente lembrei de uma amiga que não vejo há tempo. Da última vez que soube dela estava fora, numa viagem sem data para voltar. Independente e desimpedida é dada a esses sumiços. É daquelas pessoas que quando dizem "que vontade de sumir" já estão com o pé na estrada. Depois de um tempo reaparece remoçada e chega - prenha de si se partilhando toda - e contando do que aprendeu, pois era essa a ideia, reabastecer-se para se repartir. Fico feliz quando ela chega - me considera e, generosa - me situa. Se colocando em si ela me coloca no prumo também. Sem filhos e sem grandes problemas, passa pela vida sem muito desgaste. Não sei a idade dela, mas é aquele tipo "que se cuida" e se trata bem. Não gosto de dizer - de pessoas - que estão conservadas, porque me vem à cabeça grandes vidros de pepinos e beterrabas cozidos em panelões, separados por panos de prato para evitar que se choquem e quebrem no movimento da fervura. Prontos, ficam expostos em prateleiras, garantida a conservância pelo vinagre, ingrediente indispensável da receita. Penso - de pessoas - que, ao se quererem bem, se cuidam, caminham em parques, leem bons livros, fazem exames de rotina sem muita neura e, mais que tudo, buscam e descobrem o que lhes faz bem. Não gosto da ideia de juntar vinagres à gentes. Prefiro os densos e curiosos, que procuram o entendimento de si  para entender seu entorno, mas sabem que - de ideias e sentimentos - é necessário dispensar as conservâncias porque tudo muda e tudo passa.

Pois essa amiga minha, ao chegar como uma lufada de ar fresco, vem com notícias frescas também.
"Vou casar" - ela diz, feliz! Pergunto, curiosa: Quem é o felizardo que vai reter você? E ela - pois saiba que ele ainda não sabe. Cuido das tratativas para o evento sozinha, mas a experiência e o bom senso me alertam que é melhor comunicar-lhe quando as certezas foram maiores do que as dúvidas. Como a conheço de vida toda entendo sua cautela porque já passamos por muita coisa juntas. Nos confortamos e e nos reabilitamos tantas vezes e em tantas situações, num déjà vu que se repete mais do que gostaríamos, que sinto que essa historia de um novo casamento tem todas as chances de não acontecer. Ela argumenta, e eu concordo, que as coisas do amor precisam ser de confiança infinita, de cuidadinhos atenciosos, trocas de gentilezas e claro, da alegria de estar junto.
Sexo, diz ela, acontece e é ótimo, mas sem aquelas urgências da mocidade.
E conclui, definitiva: quero um homem bom para trocar alegrias miúdas e, com sorte, raras felicidades de gala.

Sem dizer nada, lhe passo o texto citado acima "A indelicadeza bonita" e ela decide, taxativa: Vou me casar com ele! Ainda bem que o outro não sabia que estava meu noivo! E virando-se para mim: Viu como é bom não espalhar intenções antes de termos certezas absolutas?
Pergunto: A quais certezas, exatamente, você se refere?