segunda-feira, 25 de julho de 2016

Moderno é Envelhecer Bem

Saio para caminhar levando lenço, documento e trocado no bolso. Prefiro os dias de sol e brisa leve. Dias amenos. Não corro e não exagero no percurso. Conheço os caminhos, sei dos desalinhos da calçada. Olho onde coloco os pés e, mesmo assim, às vezes levo uns tombos e me esfolo e me machuco. É o imponderável que nos alerta que a estrada é a mesma, mas a jornada é outra.

Enfrentar ventanias, só se forem absolutamente incontornáveis. Às vezes, basta virar a esquina, em outras é necessário sair da sala. Preservar-nos deve ser foco constante até que fique amalgamado na nossa natureza.  Muito do que acontece no entorno não é assunto nosso e, se nos colocarmos em segundo plano, logo veremos que as coisas se resolvem sem a nossa interferência. Aprender a sair de cena nos dá liberdade e, pasme! nos torna mais visíveis.

Disponibilidade sem nenhum limite é outro comportamento que precisamos reavaliar. Nosso tempo é precioso porque é mais curto e nos cabe gastá-lo com cuidado redobrado. Trocas de afetos sinceros e na companhia das pessoas certas é divertimento garantido.

E se nos for permitido fazer um pedido, façamos ao destino - o mais imprevisível dos senhores - que não faça nada, apenas não altere a ordem natural das coisas.



quarta-feira, 20 de julho de 2016

Tiro no Pé

Tenho um apartamento na praia que fica no primeiro andar, sobre a área das garagens. Deste modo o terraço é proporcional ao espaço que elas ocupam. A área útil, pequena e funcional, tem o  tamanho exato dos meus desejos, com portas/janelas que saem direto no terraço e proporcionam conforto e liberdade, principalmente nos dias muitos quentes, quando abrir o chuveiro "de fora" e, de roupa e tudo, tomar uma ducha pra refrescar é tudo de muito bom. E, no inverno, é ótimo para tomar sol.

Venho pouco para a praia por causa das contingências da vida, dos compromissos assumidos e, também, pelos prazeres de lá. Apesar de ter se transformado em um plano individual, continuo com a intenção  de vir para cá em um futuro não muito distante - havemos de ter sensatez para perceber o valor do tempo - e inverter  a ordem do que foi melhor até aqui. Com isso digo que Curitiba ficará como meu lugar de visita e, aqui, como meu lugar de morar.

Todo mundo que tem apartamento nessas condições sabe dos "lixos" que caem no seu terraço. Tem de tudo! Cotonetes e "camisinhas", papel de bala e chicletes mastigados, latas de cerveja vazias e balões brancos de Réveillon. Sem dúvida que aborrece e incomoda, mas também entope os ralos e represa a água da chuva, o que cria condições ideais para a proliferação de mosquitos, inclusive o Aedes aegypti, causador das doenças que, sabemos todos, são dolorosas e muitas vezes fatais.

 Eu gostaria de entender o que motiva pessoas adultas, que se entendem por educadas e inteligentes, a jogar lixo pela janela para cair no terraço do vizinho, quase literalmente, nos próprios pés.
Das poucas certezas que tenho, uma delas é a de que nada é mais democrático no mundo do que doenças. São democráticas e não são preconceituosas. Servem para todos e não poupam ninguém.
De algumas não temos como nos defender, mas de muitas podemos e devemos, principalmente das que surgem pelo relaxamento e descuido que temos com o descarte do lixo que produzimos, a começar pelo papelzinho de bala que, descuidadamente jogamos pela nossa janela.



domingo, 17 de julho de 2016

Mesma Vida Nova Percepção 3

Nos dois últimos escritos falei do bairro onde estou morando. É bom morar no Alto da Glória, pertinho do Juvevê, com suas ruas charmosas e radiais que me confundem e onde me perco e me acho para me perder novamente quase em seguida. Me perco de carro, ao tentar descobrir caminhos práticos para ir e vir com maior rapidez e também à pé, andando à toa. Aprender novos caminhos, na cidade e na vida, nos fornece ferramentas para nos reinventar quando a realidade nos impõe readequações no percurso. Exercita o cérebro e nos proporciona um "olhar para dentro", de modo que "perder-se" é condição para reencontrar-se.

Vim do Abranches, onde morei em um sobrado onde eu tinha uma roseira, duas strelytizias e um antúrio. Compunha belos arranjos com as flores e na falta delas, as folhas faziam bonito também.
Bairro que concentra um número expressivo de poloneses e descendentes, a vida social gira em torno da Paróquia e do Colégio. Fica no Abranches  um dos bares/restaurantes mais antigos de Curitiba onde a cerveja e  as comidas de boteco não decepcionam nunca. Uma maravilha!
Lugar onde o curitibano é mais contido, me emocionei quando, ao dizer que estava indo embora, todas as pessoas com quem estabeleci relações de camaradagem e apreço, curiosamente me disseram a mesma coisa  "Que Pena!"

Foi lá que deixei definitivamente de fumar, quando finalmente compreendi que precisava tocar a vida de um jeito meu, e que para conseguir faze-lo era necessário não só coragem, mas indispensável preservar a saúde.

Sem contar no churrasco de domingo, servido em mesas compridas, montadas sob as árvores onde as folhas criam desenhos de luz e sombra nas toalhas coloridas nos dias quentes de verão.







domingo, 10 de julho de 2016

Mesma Vida Nova Percepção 2

Firme no propósito de conhecer meu novo bairro fui até a Feira Livre que, dizem os moradores daqui, é a melhor da cidade. Feiras Livres têm isso em comum. A melhor é sempre aquela que funciona no bairro onde reside a pessoa que faz a afirmação e isso, por si só, é maravilhoso. Imagina se todos estivéssemos tão satisfeitos com o que temos ao nosso dispor. O mundo, de tão harmonioso, seria um tédio!

Saí sem carrinho e sem sacola só para dar uma espiada e tomar um pouco de sol. Dia ensolarado, de temperatura amena, a feira surge, comprida, na rua larga e bonita. Tem de tudo e muito. Barracas de pastel - orientada que fui para atentar para elas - com mesinhas e toldos coloridos, contei três ou quatro. Aliás, o bairro é forte no quesito pastel. Tem a pastelaria onde eles são enormes, servidos no prato e saboreados com garfo e faca. Um almoço. Já fui lá e é verdade.

A Feira toda é uma alegria! Organizada e colorida, iluminada pelo sol generoso da manhã, o violonista dedilha queixumes de amor de um lado enquanto o violinista, do outro, toca, solto, a Primavera de Vivaldi. No meio, a barraca de flores serve de anteparo para não misturar os sons e enfeitar a rua. Um luxo!

Determinada a ver o lado bom de tudo, não por ingenuidade ou por tardia "Síndrome de Poliana", mas porque acredito que os grandes eventos da vida já aconteceram, penso que precisamos perseguir as pequenas alegrias. Exercício racional, exige foco e atenção e assegura bem estar. Com sorte, daqui e dali, tiraremos bons momentos de felicidade. Futuro e maturidade são conceitos contemporâneos, coabitam o mesmo tempo e, paradoxal que possa parecer, é no presente que devemos conjugar nossos verbos.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Mesma Vida Nova Percepção

Endereço novo, começo a me inteirar dos serviços que o entorno oferece. Bairro antigo que foi crescendo junto com a cidade, tem lojas, restaurantes, mercadinhos e armarinhos, feira, bancos e lotéricas, chaveiro e sapateiro e todos os serviços que pudermos imaginar para facilitar a vida e  economizar combustível. Aqui o comércio foi surgindo para atender as demandas. Sem planejamento formal, foram se ajeitando e se adequando, moradores e prestadores de serviço.

Já mudei muitas vezes. De estado, de região e de cidade. Moro em  Curitiba  há  muitos anos e este é o meu sétimo bairro e gosto disso. Ouço frequentemente, pessoas dizerem  "ah, não consigo me imaginar em outro lugar, tenho tudo aqui e todos me conhecem e eu os conheço. Tenho amigos, de quem sei o nome, conheço a família, sei onde moram". Concordo e entendo, mas temos de nos ajeitar com o que a vida nos oferece.

Cidades tem características próprias que as distinguem e personalizam; contém, dentro de si, bairros distintos, diferentes uns dos outros e que contribuem para a diversidade, rica e necessária, que, por sua vez, empresta ao todo parte da identidade que o caracteriza.

Cheguei aqui no tempo certo. Bairro de moradores antigos e de senhorinhas gentis que me cumprimentam no elevador e no mercadinho e me absorvem como parte, nada sei de particular sobre elas e elas nada sabem de mim.

O que distingue este bairro é a gentileza à moda antiga, a educação cálida e discreta que não exagera e nem se esparrama, do tamanho exato para nos deixar confortáveis. Se aprendemos alguma coisa ao longo do percurso, sabemos da importância das pequenas gentilezas, das breves atenções sinceras. Chegam, quase sempre, de onde não se espera e nos faz muito bem. O que ainda precisamos aprender e, de tão difícil, penso que não aprenderemos nunca, é não esperar olhar atento e tempo investido, de quem achamos que podemos esperar.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ética e Etiqueta

Assisti, em um clube de Curitiba, a palestra do Historiador, Filósofo e, antes de tudo, Professor Leandro Karnal, que falou sobre Ética, Política e Comportamento.
Com timing exato de pausa, graça e seriedade, ele mantém a atenção do público da maneira como os muito bons no que fazem conseguem. A percepção que tive é de que é fácil e leve, como quando vejo um artista que sabe o quanto de suor, esforço e estudo dispendeu para chegar até ali. Leandro Karnal é um Estudioso e um Pensador.

Ao falar sobre ética, falou também sobre etiqueta, sua irmã menor. Etiqueta é a ética do dia a dia. É o respeito ao empregado, ao diferente e ao que pensa diferente de nós. É a gentileza no trânsito, respeito às filas e por aí vai. Não tem nada a ver com o uso correto de talheres e taças. Isso é traquejo social. Aprendemos em casa, na vida ou em cursinhos de um mês que não nos deixam fazer feio em jantares mais formais.

Ética é o modo como tocamos a vida. É ser confiável nas relações pessoais e de trabalho.
Ética é lisura de atitudes, comprometimento com escolhas e reconhecimento de erros que todos cometemos. É não enganar e iludir para obter vantagens de quaisquer tipos.

 Acredito que maturidade é tempo de se ter um olhar para dentro. Conhecer-nos e reconhecer-nos nas qualidades e nos defeitos que temos é um freio poderoso na vaidade. Devemos usar o que aprendemos com os percalços e alegrias da jornada a nosso favor. Levar a vida do jeito mais parecido conosco nos garante alegria e bom humor. Com um pouco de sorte seremos boas companhias. Seremos densos, não pesados.









segunda-feira, 20 de junho de 2016

Outra menina e Galinhas

A menina observa, atenta, o trabalho do homem que veio para cortar a asa das galinhas que tentam voar para fora do terreno onde fica o galinheiro. Ele segura a galinha firmemente sobre o cepo de cortar lenha e, com uma machadinha, dá um único golpe na asa esquerda da ave. Em seguida, solta aquela no galinheiro e, hábil, pega outra e repete o procedimento até que não sobre nenhuma sem a asa cortada. Espalhafatosas e barulhentas como são as galinhas, elas tentam um voo desesperado e desequilibrado por duas, três vezes e se esborracham no chão. De repente, desistem e passam, calmamente, a catar minhocas como se nada tivesse acontecido. A menina aprende que, para voar, é necessário ter equilíbrio.

Da menina também cortaram as asas, as duas, com a " melhor das intenções" - esse pecado disfarçado de bom moço e tão abrangente  que só se apresenta no plural - para que ela não corresse riscos de se machucar e ficar bem, presa e segura ao chão onde pisa. Elas, as boas intenções, costumam agir em conluio com as vaidades, em quem esbarram nos estreitos labirintos que entopem o inferno. A menina aprende que, para voar, é necessário ter asas.

Como as galinhas, a menina tenta dois ou três voos com o cotos que ficaram mas não consegue sair do chão. E são atentos os cortadores de asas, de galinhas ou de meninas. A cada ameaça de voo solo, elas  são devidamente aparadas.

Com o tempo, as galinhas vão pra panela e a  menina vai fazendo o que se espera dela, até que um dia percebe que aquilo tudo já não tem valia, perdeu o significado, transformara-se em um estorvo. E a mulher aprende que precisa de asas para seguir.

Resgata em si aquelas que sempre foram suas, sacode-as, tira delas o pó, testa-lhes a capacidade. Fontes seguras me informaram que ela está aprendendo, tem feito voos firmes e dizem até que tem voado cada vez mais alto.
E eu fico muito feliz por ela.





quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comida Boa, Bom Começo

A neta  "sabe vó, eu vou casar com um homem que me dê só comida boa começando pela festa do casamento. Vai ter salmão, muito sorvete e o bolo vai ser uma cascata de cupcakes. E é claro que vou servir milk-shake de cappuccino. A lua de mel vai ser na Itália para eu comer massas todos os dias."

Infantil à primeira vista ( difícil encarar o milk-shake)  a proposta é prática e objetiva. Para que não restem dúvidas e mal entendidos, a lua de mel, uma espécie de tour gastronômico, sinaliza que o combinado é pra valer e é assim que será, desde o começo. E o combinado, como sabemos, não sai caro. Se o arranjo não for do gosto do noivo cabe a ele dizer que não aceita. Podem fazer rearranjos que atendam aos interesses dos dois ou até desistir do casório.

Nós, adultos, temos muito o que aprender com esta postura, Colocando-se como protagonista da própria história, a menina sabe o que quer e do que gosta. Se agíssemos assim nos assuntos determinantes da nossa vida, seria mais fácil corrigir rotas e reagir mais depressa aos ventos contrários que sopram no caminho.

Não por acaso, em todo o mundo, as celebrações mais importantes começam em torno de mesas fartas e boas bebidas. Tudo o mais vem depois. Comida bem feita e companhia certa são a receita infalível para momentos de amor e alegria.
E começar bem é meio caminho andado para continuar melhor. 
A menina sabe o que realmente importa.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Aniversariante do Mês

Faço parte de um grupo de Canto Coral e aprendo e me divirto e vice versa e é tudo tão bom que nos dias em que tem aula já acordo contente e cantante e o grupo inteiro é assim. Achamos graça de tudo e rimos por nada e o professor querido se empenha e se esforça para conseguir a atenção e concentração do pessoal. E cantamos bonito e estamos melhorando bem.

O estabelecido é comemorar os aniversários sempre depois da aula e nunca no mesmo lugar. Como quase a metade aniversaria em um único mês e o grupo tem uns 14/15 membros, sobra mês ou  falta aniversariante. Questão fácil de ser resolvida, decidiu-se comemorar, nesses meses, natalícios em geral. E a turma vai e canta Parabéns à Você, e brinda a humanidade toda. E  brindamos de novo, desta vez só porque é bom. Desconfio que sejamos o terror dos garçons. Daí um bom motivo para não repetir lugares...

Esses grupos que fazem aulas de canto ou dança têm, em comum, o fato de serem heterogêneos. São pessoas das mais diversas profissões, idades e origens. Trazem vivências diversificadas e pensam a vida cada um à sua maneira. Porém, o fato de escolherem esta ou aquela atividade, cria um fio condutor invisível que vai dando personalidade ao todo, e sabemos, nós e o Principezinho, que o essencial não se mostra ao olhar. O resultado é uma troca rica que expande cada um e a todos. Todo mundo ganha. Todo mundo cresce. Todo mundo fica mais feliz!


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Um Pouco de Meu Pai


Meu pai foi um homem correto e bom. Eu tinha trinta e um anos quando ele se foi e fiquei numa orfandade doída e sem medida. Era meu amigo, meu cúmplice e meu exemplo. Me ensinou a gostar de livros e de vinho e lembro que, já sem ele, ao ver cálices expostos em uma loja senti um aperto no peito que me tirou o ar. Única filha com mais três irmãos penso que ele deveria ter sido um pouco menos rígido comigo mas, considerando a época e o lugar de onde vim, ele seguiu a cartilha vigente.

Nos conflitos e embates adolescentes que tínhamos em casa ele, sempre mediador, insistia em afirmar que é possível lidar com as pessoas e conciliar diferenças. Todos têm, dizia ele, um lado certo para chegar e o desafio era descobrir como...Mais tarde, já maduro, ele reavaliou este conceito e me confidenciou, meio em segredo, que "tem aqueles, sabe, que não tem jeito, não tem acerto e não tem conversa". E então, como a gente faz? "Ah, dizia ele, quando não tem jeito, não insista, desista".

Hoje, quando tenho mais idade do que ele tinha quando o perdi, percebo o quanto ainda aprendo com o que tive de exemplo, muito mais do que de discurso, e de quanto era simples e bom estar em sua companhia. E penso que luxo mesmo é ter por perto pessoas boas que nos dão conforto e alegria só por fazerem parte da nossa vida.