domingo, 23 de junho de 2019

Imprescindível Sonhar

O Amor não é um sentimento
É uma habilidade.
               Alain de Botton


Acordou cedo no domingo todo seu. De compromisso o sol e a brisa. E se apossou das horas para gastá-las sem marcar o tempo e quis dormir mais um bocadinho, então dormiu e sonhou um sonho sem pressa, com começo, meio e fim.

Sonhou que estava na companhia de duas amigas e que entraram  de carro dentro de um restaurante bonito até encostar na vidraça que separava a sala de refeições da recepção. Quem dirigia era a mais cuidadosa das três, a que andava devagar, sempre dava sinal, abria a janela lateral e acendia as luzes ao entrar nos lugares. O carro parou suavemente em frente à parede envidraçada que separava os dois ambientes. E então o carro não estava mais lá e elas foram encaminhadas à mesa e o garçom apareceu diante delas e solícito, perguntou: Em que posso servi-las?
(Numa lista de 10 melhores perguntas, esta tem meu voto número 1).

Vinho escolhido, feito o pedido, acomodadas nos confortos de cadeiras perfeitas, luz cálida, música suave, sorveram o vinho e o momento. Então ela olhou em volta e todos os seus que já tinham se ido, uns muito cedo, outros nem tanto, olhavam para ela e sorriam e dançavam e jogavam beijos e simulavam abraços. Suspensa no tempo olhou um a um e sorriu de volta. E eles desvaneceram devagarinho e ela ficou feliz e acordou com o eco do próprio riso.
Passou o resto do dia se sentindo bem.
                                                         
                                                                  FIM





sábado, 25 de maio de 2019

Carta Para Antônia


Balneário de Camboriú, 25 de maio de 2019

Minha querida neta preferida,

No dia em que você nasceu chovia muito e penso que venha daí a sua preferência pelos dias chuvosos e frios. Você diz que dias assim são perfeitos e eu digo que você tem sorte porque nasceu no lugar certo.

Lembro de você com quatro anos, inconformada com as folhas que o outono derruba me dizer que, quando crescesse, seria "Presidente do Brasil" e mandaria colar uma a uma as folhinhas nos galhos pelados.
.
Você aprendeu que o outono faz cair flores e folhas e que o inverno mantém as árvores nuas para preparar a terra para a explosão de vida que acontece na primavera. Meninas de 15 anos são como a primavera onde tudo brilha, tudo é novo e a vida abre possibilidades infinitas. No entanto, realizar os ciclos da natureza, os tempos certos de maturar fruta bicho e flor é o que garante o equilíbrio da vida em sua beleza e plenitude.

Então, minha preciosa debutante, eu desejo que você adentre neste mundo novo de deslumbramento e oportunidades com coragem e entusiasmo. Que saiba que o amor é a força mais poderosa do mundo e que amar a si mesma é a condição indispensável para não perder a fé. Que a dor faz parte da vida e que podemos escolher como lidar com ela. Como o amor, ela também ensina.
Que não perca o idealismo tão caro aos jovens e que, se não é necessário colar folhinhas caídas é imprescindível que se preservem as árvores. A sua geração terá que cuidar da natureza com mais critério e responsabilidade. Vão ter que aprender com o erro dos mais velhos.

 Desejo que você tenha saúde e sorte. Que estude bastante e que conquiste os seus objetivos, que corra atrás dos seus sonhos e que mantenha o bom humor. Ele é uma ferramenta poderosa para a gente viver melhor.

Deus te proteja, te guarde e te abençoe.
Com meu amor,
Vovó







 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Idéias Fugidias




 "O pensamento parece uma coisa à toa 
   Mas como é que a gente voa quando começa a pensar"
                                                        Lupicínio Rodrigues

Revisito fiança e crença que continha desde antanho
Que, bulidas, se alvoroçam sem respeitar hierarquia
 Aflita, tento contê-las para lhes dar lastro e tamanho
 As danadas, fugidias, escapam como num sonho

E no afã de prendê-las para alcançar meu intento
Escrevo num frenesi o tanto que a mão permite
A verdade é que a escrita fica aquém do pensamento
Faço um gesto, estico o braço na intenção de pôr limite

E a alquimia mutante numa fervura insensata
Teimosamente mistura todo o tudo a todo instante.
E retomo o pensamento na vã ilusão de retê-lo
E agarrar um assunto e a ele dar forma e tento

Mas como tem vida própria é dono do afastamento
E exausta, me dou conta de que coisas de pensar
Vão e vem e serão sempre senhoras do movimento








sábado, 23 de março de 2019

Março e a Mulher Madura

Tropeço em pedrinhas 
 e atravesso montanhas!
                             Clévia

No março que nos homenageia e que apuramos o trecho percorrido - e é longo o caminho a percorrer para diminuir nossas desigualdades - para dizer o mínimo - lembrei de uma carta que trago comigo e que recebi de uma amiga querida, nem sempre perto, mas sempre próxima, no ano em que ambas chegamos aos 60. Fala da sua vivência e ecoa na minha. Por isso, penso que sirva para muitas de nós.

Com a devida permissão da missivista, compartilho os sentires dela com você:
"...e você sabe que eu, desde muito jovem, trazia um sentimento de inadequação como se estorvasse e,-  ao mesmo tempo, me ressentia do ar escasso, do lugar estreito que me tolhia movimento e ação. Fui crescendo e abrindo veredas particulares, me peguei com os livros, desfoquei de mim e fui dando os passos que me cabiam no script  da época, do lugar, da família. Fui me ajeitando, me acostumando e o sentimento antigo ficou lá. A vida foi generosa comigo e, durante muitos anos me senti acolhida, aceitei com alegria os papéis que me couberam e ouso crer que desempenhei bem cada um deles. 

Nesse terceiro ciclo de vida em que ingresso agora, porém, aquele sentimento que eu havia deixado lá - mas que estava aqui - por que faz parte de mim - ressurge e exige um cuidadoso olhar para dentro. É o que tenho feito, minha amiga, não é fácil e, certamente, não é indolor, mas é imprescindível para que eu siga em paz. É tempo de rearranjar a vida. Disse alguns nãos e fiz o que foi preciso à partir do decidido. Comecei de novo, aprendi com os erros. Me aproximei de mim."

Faz cinco anos que recebi esta carta. Ela foi morar fora, estudar e trabalhar. Vez em quando mandava notícias e ontem, do nada, tocou a campainha. Voltei pra ficar! Escancarei porta e coração ao vê-la  tão inteira, tão feliz! Conta tudo, conta tudo, prometo que não a interrompo! E ela falou e falamos noite a dentro e foi uma catarse e uma comunhão, e as horas voaram como voam os anos, e os paradoxos de que a vida é feita e onde a alma se aquieta estavam todos ali.
Se os quadris rangem e o ortopedista proíbe as caminhadas que o cardiologista recomenda e que tudo que é bom faz mal ou engorda, é chegado o tempo de cada uma decidir o que sabe que é melhor para si. Transgredir é fundamental. Não criar armadilhas para si mesma é prioridade. A felicidade é um esforço individual e uma escolha. 









         


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Como Você Se Sente?

"O amor não é um sentimento
  é uma habilidade"
               Alain de Botton        


Adentraram em bando e chamaram a atenção do proprietário que - surpreso em receber senhoras no Bar de Cervejas Artesanais - encaminhou-as à mesa e explicou como a coisa funcionava. Destacou uma moça para atendê-las e elas, habituadas que são nesses misteres de botecos e afins, trataram de começar pela degustação das artesanais... As três básicas, Pilsen, Weiss e Pale Ale não surpreenderam, e a tentativa de harmonizar o amargor do cupuaçu com cerveja resultou numa  desarmonia amargurada.
Explicou, o proprietário, que era noite do  Pocket Show de Stand - Up Comedy, que o cara era bom e conhecido na cidade...

Então o artista chegou, se apresentou e viu o grupo de senhoras. Não sei se pretendia "tirar onda",
mas perguntou a uma delas se toparia participar da apresentação. Era mais um menos assim: ele contava uma piada e ela tinha que rir, rir muito e depois rir e bater palmas. A mulher, artista nata, dava gargalhadas histriônicas e batia palmas entusiasmada, com verve e graça. O bar inteiro ria! Da performance dela, não das piadas do cara. Enquanto isso, as outras espalhavam que se tratava de uma artista de teatro, do Rio de Janeiro. Foi o ponto alto do show, o que confirma que quem tem talento rouba a cena, mesmo que seja coadjuvante. Tiraram a maior onda...

Aliás, elas já perceberam que ir a lugares onde mulheres mais velhas não costumam ir lhes rende atendimento vip, pelo inusitado. São alegres, abertas, soltas no intuito de se divertir.
É uma quebra de paradigmas que se soma à outras que estamos rompendo todos os dias.
No geral, a avaliação do bar ficou aquém do esperado.

Nessa fase da vida em que somos a primeira geração a viver mais, produtivos, ativos e participativos, somos foco de pesquisas, debates e estudos sobre o envelhecimento. Médicos, psicólogos e antropólogos  convergem  nas conclusões sobre o que estão chamando de Terceiro Ato da Vida.
Comer bem, fazer exercícios, aprender coisas novas ou acrescentar novos jeitos de fazer as coisas, meditar e cantar e bons relacionamentos interpessoais são alguns dos comportamentos que nos capacitam  envelhecer com autonomia e independência.

Vale a pena assistir estes vídeos (youtube)
Como Envelhecer Dra. Ana Cláudia Quintana Arantes - Geriatra 
Emocionante aula sobre o ato de envelhecer, ela termina a palestra alertando que
" Envelhecer é um caminho potente para aprender a ser humano."

Jane Fonda. O Terceiro Ato da Vida
"Descobri que uma metáfora mais adequada para envelhecimento é uma escadaria - 
   a  ascensão  para o topo do espírito humano, trazendo-nos para a sabedoria, completude e           autenticidade."

Envelhecimento é um fato e um assunto - não é um sentimento - e me interessa bastante pelo mais legítimo dos motivos.






















quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Brecha na Agenda


 "Entre as dez ou mais de mil melhores 
   coisas da vida
   Você estava atrás do sétimo, oitavo lugar
   Depois do violão, do irmão, do gibi, da bebida
   Entre a luz do fim da tarde e o azul do mar..."
                                         Arnaldo Antunes


Temos duas agendas. As de compromissos profissionais, administradas por secretárias eficientes que, quanto mais competentes, mais espremem a outra, a que nós organizamos e não obedece horário rígido e existe para a gente seguir a voz do coração. Uma é prática, a outra cuida dos quereres, dos amores, dos prazeres.

Uma não conversa com a outra. Não coincidem, têm demandas diferentes. Como a segunda é maleável, a primeira se aproveita disso, é invasiva e vai tomando conta da nossa vida.

Este assunto me ocorre porque duas amigas, profissionais com quase a mesma idade, ambas conceituadas e bem sucedidas na profissão decidiram, para este ano, tomar as rédeas da agenda número um. Profissionais liberais, diminuíram a jornada diária e estabeleceram semanas de quarto dias. A folga conseguida foi transferida para atividades da outra agenda, a que dispensa anotações para lembrar compromissos.

Não só a vida profissional regular nos submete à agendas formais. Mães e donas de casa em tempo integral seguem uma disciplina rígida para dar conta das demandas da casa e da família. Quando essas demandam diminuem, aumentam espaços na agenda de número dois.
Nessas alturas da vida fazem uso do próprio tempo com respeito. Sabem que ele é precioso.
A gente pensa que esta agenda se constrói ao sabor dos acontecimentos, o que é um  engano. Agendas emocionais são construídas de forma constante e racional.

Tomam corpo e densidade atentas às reciprocidades de afeto e prazer e permitem abrir brechas para aceitar convites inesperados ou para fazer concessões que valem a pena. Na agenda de papel, aquela que nos organiza nas coisas do ganha pão, isso se chama custo/ benefício.

Cada pessoa organiza a sua agenda de acordo com o que achar mais importante.
Meu critério é o seguinte: no começo da lista coloco quem eu sinto que me coloca também, sempre respeitando as circunstâncias, as ocasiões, o pedido do dia.

Com o tempo vivido - que não é pouco - percebi constância e coerência em alguns participantes da minha lista, o que me forneceu material para um gráfico estatístico. Estavam lá, evidentes, os comportamentos repetidos das pessoas que a compõem. De vez em quando remanejo e arejo a minha agenda, o que lhe dá frescor imediato. Descarto uns, introduzo outros. São seletivas as agendas emocionais.

Com a prática de vida que consolida quem somos, cheguei à conclusão de que, se temos com algumas pessoas uma frequente conversão de desejos, se as prioridades forem parecidas, podemos confiar que, com elas, os compromissos dispensam assinaturas.
São afetos leves, tão bons que a gente não carrega, degusta.
Assim, a vida, a que vale a pena viver, acontece.




domingo, 13 de janeiro de 2019

É Começo! Eu Recomeço!



Comecinho de janeiro - flanela nova na mão -
Dou um lustro caprichado nos olhos, no coração

Diz que ano que começa na lua que é minguante
É tempo de deixar ir o que não serve, atrapalha

Na intenção de buscar o que acredito que falta
É urgente que abra espaço, que me desfaça da tralha

Peço à lua que não mingue meu coração destemido
E, atenta, me preparo pra pisar o chão pretendido

E o que parece que falta, que me ajuda a ser feliz
Vai entrando, se instala, quando vejo está ali

Afinal, o que nos falta no pertencimento do tempo
É entender que a ilusão, o sonho que nos visita
É a parte que existe pra deixar a vida bonita

E então o ano passa e quando dezembro chega
Renovo o desejo antigo, aquele que faz sentido

Peço a lua que conserve meu coração desmedido
Outra vez, outra flanela e persiste a intenção
Dou um lustro caprichado no olhar, no coração.









segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Feliz Natal!

Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa 
É de quem vier, quem quiser!
                             "Tá na Globo!"

Dia desses dei de presente umas abraçadeiras de borracha que se adaptam às variadas circunferências das latinhas e garrafas de bebidas long neck.  Práticas e de empunhadura firme conservam a bebida gelada. A borracha é um produto fascinante! Ultrapassa, com folga, as mil utilidades do Bombril. Não enferruja e é aconchegante ao toque. Amortece choques e volta à forma original quando em descanso.
 
Nesses tempos de natal e fim de ano, quando desejamos felicidades, saúdes, compaixões generalizadas, amor e paz e alegria e prosperidade e boa vontade, quando renovamos os votos de esperança e sonhamos com mais justiça, quando enaltecemos a Família como em nenhuma outra data do ano - a Santa e a nossa - me parece que nos colocamos à margem dos votos que formulamos. Mantemos uma distância asséptica e segura, compramos presentes, enfeitamos a casa, preparamos ceias fartas. Cumprimos o rito. E ficamos exauridos.

Do amor de que se fala muito e se pratica pouco, que falta no mundo e de que carecemos nós, penso que seria mais fácil viver se fôssemos como as abraçadeiras de borracha de que falei acima.
Adaptáveis às circunstâncias e às exigências do cotidiano, esta capacidade seria utilíssima nesses dias de festas natalinas.

Sendo "borracha" entenderemos o privilégio que é poder financiar, preparar ou, melhor ainda, participar de uma mesa natalina farta de comida, plena de brindes, de votos de esperança, de sonhos a viver, de vida a acontecer.

E nos lembraremos dos primeiros dia de escola quando o material escolar consistia de caderno, lápis e borracha e a gente apagava os erros, os enganos, os mal entendidos, os equívocos e a folha voltava a ficar em branco e a gente ouvia atentamente, refazia o escrito e acabava acertando. Com a prática, aprendíamos a escrever com mais leveza e a folha ficava com menos marcas do apagado.
A borracha gastava um pouco, mas nunca perdia a forma.

Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos nós!
Tim Tim!!























quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A Porta Amarela

 "Louvado seja Deus que não sou bom,
   E tenho o egoísmo natural das flores
   E dos rios que seguem o seu caminho
   Preocupados sem o saber
   Só com florir e ir correndo
   É essa a única missão no Mundo,
   Essa - existir claramente
   E saber faze-lo sem pensar nisso."
                 Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa)

A porta do banheiro da nossa casa era amarela. Meu pai repetia como um mantra, antes de irmos dormir  " passou pela porta amarela?"
Ao abrir a janela do banheiro dávamos de cara com a cisterna instalada junto à parede. Ele mandou construí-la para recolher água da chuva. Entendia que a água era um bem precioso e que devíamos aprender a poupá-la. Eu tinha uns 12 anos quando ela ficou pronta e não achava estranho o fato de termos uma cisterna onde um cascudo - peixe de água doce - tinha a função de manter o reservatório limpo de limo e de insetos. A água coletada era usada para molhar flores e grama, lavar calçadas, umedecer as roupas que alvejavam ao sol.
Era cheia de engenharias, a nossa cisterna. A toneira era rosqueada para permitir o engate da mangueira e, quando chovia muito, a calha instalada no alto do tanque expelia, na calçada, o excesso de água captada pelas calhas do telhado. Ainda lembro do murmurio da água, nas noites de chuva branda que eu ouvia como fosse uma canção de ninar. Deve ser por isso que o barulho da água mansa me faz dormir até hoje.

No prateleira do banheiro ficou guardado, durante anos, um litro de vidro alto e fino, com tampa inoxidável e cheia de retorcidos que me deixava fascinada. Continha um excelente azeite português, presente da minha avó, mãe de meu pai, portuguesa chegada à azeites e bacalhaus e que nunca soube que ele, embora gostasse de peixe, não suportava do azeite e do bacalhau nem o cheiro. Isso não o impedia de, ao chegarmos na casa dela, nas visitas das férias de julho, repetir o bacalhau feito em sua homenagem. Dizia que que a mãe da gente não deve saber que não gostamos de algo que ela nos prepara...

Aquele litro de azeite, nunca consumido, desapareceu depois de muito tempo e lembrei dele porque sempre achei normalíssimo ter um litro de azeite no banheiro e uma cisterna com peixe na casa em que morei até adulta.


Assim como "O Inferno São Os Outros" da fala de Sartre, "Os Esquisitos Nunca Somos Nós"
Os costumes e os hábitos que trazemos de casa e que estão amalgamados n`alma nos inserem e  identificam. Penso que seja esta a função da família. Somos da mesma tribo.

Fora a adolescência - parênteses em que tudo o que queremos é ser igual - todo o antes, da infância e o longo (com sorte) depois, da idade adulta - o que  buscamos é o nosso lugar no mundo que não é, e não deve ser, o lugar e nem o sentir de mais ninguém.
Se toparmos, na jornada, com alguém com quem fizermos uma liga rara de entendimento e troca  que dispense palavras, então será como acertar na loteria todos os dias.

Desejo a todos um Natal de percepções particulares e que delas brotem generosidade, entendimento e respeito a tudo o que não lhes for familiar e de identificação instantânea.
Abrir olhar e coração para o diferente é muito enriquecedor porque aprendemos outros jeitos de  viver e de estar no mundo. O resultado é que aprendemos mais de nós.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Show Que Nos Tirou do Chão

"Tem um aviso na porta do meu coração:
  Quem não canta conforme o ritmo da casa,
  Não perca tempo tocando a campainha."
                               Maria Bethânia


Hoje é dia de ressacas porque, depois do esforço, do estresse, dos ensaios repetidos à exaustão acordamos com o som do celular a nos anunciar as repercussões da apresentação que a "nossa "  -  pronome possessivo que nos insere e acolhe - Paideia Escola de Música - já tornou um clássico de final de ano. Regentes e cantores, instrumentistas, organizadores, técnicos, todos aprendizes dessa maravilhosa expressão que desmancha fronteiras e desmantela preconceitos -Ela, A Arte - em todas as sua manifestações, é o que nos redime e nos alforria da dureza do dia a dia. E  nos humaniza e enriquece.

Tempos duros são propícios às artes. Ouso acreditar que as civilizações persistem por causa das criações artísticas que reagem ao bruto, ao escuro. Individualmente é essencial resgatar o sentimento particular  da emoção. É ela que nos permite entender quem somos, o que queremos e o que nos impulsiona, nos impele a prosseguir. A emoção, esta moça que anda de mãos dadas com a ilusão é necessária como o ar que respiramos.

Nosso Grupo Vocal - o Tempo Certo - apresentou duas músicas: a primeira, da grande sambista Dona Ivone  Lara fala sobra a força da imaginação - a que vai lá, chega lá ... e que concede a oportunidade a quem canta e a quem ouve de imaginar o que quiser e lhe fizer bem.
Imagino Dona Ivone entrando no céu e pedindo licença a São Pedro  que lhe responde: entra Ivone, você não precisa pedir licença...
Peço licença eu, ao querido Manuel Bandeira que, suponho, não se importaria com a troca de sua Irene pela nossa Ivone. Quero crer que Ivone tem o aval dele, também. E, como a imaginação me permite, penso que os três, junto a São Pedro, estejam versejando e cantando.

A segunda música que cantamos é a resposta bem humorada de Lenine ao Zeca Pagodinho e a sua clássica Deixo a Vida Me Levar.  Com o tema de Quem leva a Vida Sou Eu o artista complementa
o argumento do colega e fecha a questão.

A mistura da disposição dos dois é o que nos permite ir administrando, escolhendo e ir tocando a vida e seguir em frente, enfim...mas aí já tangemos as artes de Renato Teixeira... fica a dica....

E somos gratos, todos nós, os envolvidos, ao" respeitável público", que nos prestigia e aplaude!