sexta-feira, 3 de março de 2017

Mobilidade Urbana/ Primeiro Elo


Das unanimidades, a recomendação da prática de exercícios físicos regulares é - disparada - a primeira. Quanto mais vividos somos, mais os médicos nos recomendam caminhar com disciplina e constância. Faz bem pra tudo! Fortalece o coração, pernas e pulmões, espairece a alma, melhora o humor, enfim... sem falar do sol que precisamos apanhar para que o organismo metabolize a vitamina D. Tudo de bom e de graça! Precisamos das pernas e de um parque. Curitiba, cidade bem servida deles, pode se orgulhar de sempre ter um perto de você! Se a vida nos tratou com gentileza e nós mesmos nos usamos com moderação, levamos para a caminhada os anos que temos e, de bônus, esperamos agregar mais alguns.

Da cadeia veicular,  se podemos chamar assim, somos o elo mais fraco, a base da pirâmide. Vamos aos parques, somos Pedestres e dividimos espaço com os Ciclistas, o segundo elo.

Os Ciclistas, até pouco tempo, foram vítimas de frequentes acidentes de  trânsito e muitos morreram na disputa com o automóvel. Finalmente conseguiram se fazer notar e receber atenção de prefeituras e motoristas. Muitos lugares começaram a contar com Ciclovias. Iniciativa indispensável e que humaniza as cidades, é daquelas situações "de quanto mais, melhor". Os acidentes diminuíram e automóveis e bicicletas foram se adaptando uns aos outros. Sempre há o que melhorar, mas o caminho é este.

Parques e vias públicas receberam Ciclovias e nós, os pedestres? Cadê  as Pedestrevias?
Tanto não existem que nem nome tem. Aceito sugestões porque pedestrevias tá de amargar!
Nos parques, salvo honrosas exceções, ficamos espremidos entre a faixa do ciclista e a beirada da pista, adaptada para a dupla função. Não foram criadas faixas exclusivas para as bikes. 
O resultado é que os Pedestres  têm cada vez menos espaço para as caminhadas.

Nos trechos em que a pista não foi dividida, piora! Disputamos espaço com a bicicleta numa desproporção de forças tão grande que só nos resta sair do caminho para não ser atropelados por ela. Temos muito em comum, ambos somos movidos pela energia dispendida pela força das pernas, se bem que as nossas já não têm a agilidade necessária para sair correndo - de arrancada - ao ouvir o tilintar agudo da campainha da bike às nossas costas.

Acredito que as cidades são mais humanas na medida em que acolhem suas populações mais frágeis. Por interesse próprio, pretendo chamar a atenção desse olhar para a população dos mais velhos que estão aqui, agora, em todas a parte.
Curitiba foi e ainda é considerada uma cidade boa para se viver e conviver. Espero que continue sendo e que olhe o idoso com atenção e principalmente com ações inclusivas.
  
           













domingo, 26 de fevereiro de 2017

Três Historinhas Curtas porque é Carnaval

O que somos para além do que vamos sendo?
                      " Fazes-me falta" /Inês Pedrosa
                                                             pag.13


No setor de hortifruti do supermercado, talvez por que é Carnaval, de repente olhei os pepinos com olhos da criança que fui. E surgiu minha avó a me passar um pepino recém colhido que eu pegava e lavava na torneira  "de fora" e imediatamente mergulhava no açucareiro, sem enxugá-lo. O açúcar grudava no pepino molhado e a gente ia mordendo e enfiando no açucareiro até acabar.
Não é necessário dizer que o que sobrava do açúcar ficava molhado, grudado e imprestável. Se na época eu tivesse mais "expediente" lavaria tudo, reabasteceria o açucareiro e não deixaria vestígio.
Teria sido melhor para mim e para ela porque nos safaríamos da bronca da minha mãe . Hoje penso que a cumplicidade que tínhamos - minha avó e eu - precisava dessas pequenas infrações.
Então peguei um e disse para a senhora idosa ao meu lado - lembrei da minha avó, nós comíamos pepino com açúcar. Ela sorriu e disse "é muito bom, eu comia também!"
Ganhei meu sábado, ponto pra mim nesse início de Carnaval.
Recordei as fantasias - daí a lembrança - que minha avó costurava para mim, quando pequena. Fui flor, de saia com pétalas de cetim cor de rosa e corpo verde do caule e fui baiana, como fomos quase todas as meninas na época. Muito mais tarde, no mesmo clube, vesti de baiana minha filha mais velha - legítima - porque a vida, nas suas idas e vindas, fez com que ela nascesse em Salvador.

Decidida a a usufruir da calma que o Feriado de Carnaval generosamente oferece à Curitiba, queria fazer coisas que não tem hora para começar e - menos ainda - para acabar. Ler o quanto baste, caminhar, arrumar algumas gavetas - de armários e/ou de alma e me esmerar no fazer nada.
Ligar para amigos queridos que vejo menos do que gostaria também fazia parte da lista de "intenções de Carnaval".

A primeira pessoa para quem liguei me perguntou, o que você vai fazer do seu Carnaval? E eu, já estou fazendo, Uma delas é  telefonar para você. Veja a coincidência, estava com a mão no telefone para ligar e convidá-la a almoçar conosco. Pronto! Planos existem para serem seguidos e para serem mudados, sempre que for necessário. Levo a sobremesa de abacaxi que você adora e vou. E Ela; nem se preocupe com o horário, toda hora é certa quando não temos compromissos para depois.
Ganhei meu domingo, aumentei meu placar.

Tenho dois dias inteiros ainda e, da lista citada acima, ainda não fiz nada. Amanhã - tendo tempo - pretendo seguir o programado. Confirma-se uma impressão que tenho. A vida corre bem quando, não tendo nada para fazer, não temos tempo para nada!

E porque é Carnaval, me aventuro nesses versinhos:


''Fernando Pessoa
Modo de Usar "

Tenho uma amiga chamada Suely
E outra que é Marilena.
Por Suelena atende a terceira.

São diferentes, as três.
São inteiras.

O que têm em comum?
A amizade comigo
E o tamanho da alma
Que em nenhuma é pequena.


                                 







         

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Rebeldia e Coragem

"O medo nos mantém abaixo
das nossa possibilidades."
                  Desamparo /Inês Pedrosa

Caminhando pela orla encontrei uma amiga de uma amiga minha, o que por si só nos credencia para sermos amigas também. Ambas estávamos sozinhas e dois minutos depois, instaladas num barzinho com "chopp em dobro"o papo rolava solto. Ela contou que viera no meio da semana para uma reunião extraordinária do condomínio pois precisavam eleger um síndico, porque o senhor que vinha na função infelizmente não poderia continuar.

Da pauta constavam, também, os consertos e manutenção que o prédio necessita.  Reunião iniciada e a coisa toda deslizou como em um trilho azeitado. Tudo já havia sido discutido  "já que vamos mexer o melhor é fazer tudo o que precisa, afinal temos de preservar o nosso patrimônio". Ela tentou argumentar que seria bom dividir as obras, parte este ano e parte no ano que vem. "A senhora não concorda que temos de zelar pelo que nos pertence?" Típica pergunta de resposta única pensou em argumentar que a questão não era essa, etc...mas desistiu. Fugia de "perguntas pegadinhas" porque não levam a nada e irritam pela má fé.

Urgente uma chamada de capital - chegou-se rapidamente aos valores do rateio - incorporados na próxima taxa do condomínio com base nos orçamentos apresentados.
Passou-se para a eleição do síndico e como não surgiu nenhum candidato a opção foi contratar um profissional. Apresentaram os  três orçamentos de praxe. Dois síndicos e uma síndica. Os valores cobrados variavam bastante e num primeiro momento aventou-se que o Conselho entrevistasse os três e decidisse pelo que melhor atenderia a demanda. Nesta altura da reunião minha amiga já estava em urticárias de ansiedade e queria sumir dali e ir pra praia e tomar uma cerveja gelada porque, por Deus, ela merecia! Sentiu que só estava ali para legitimar decisões das quais não tomara parte e para as quais não fora consultada.

Conversa vai conversa vem, um dos moradores - novo no condomínio - pediu a a palavra e, depois de entoar loas " às inquestionáveis qualidades e imensas capacidades das mulheres" - no assunto em questão achava que um homem seria a melhor escolha. Afinal, observou, será um ano de obras, de peões circulando pelo prédio, e uma mulher teria de lidar com possíveis desrespeitos e talvez até com assédios de natureza sexual.
A esposa, que entrara muda e sairia calada, permanecia de braço dado com o marido e manteve um sorriso congelado de Monalisa, do começo ao fim.  

E ela, a minha amiga, que viera especialmente para esta reunião e que achava que a sua opinião seria considerada, rebelou-se -  indignada - e disse que a mulher síndica queria trabalhar e que certamente saberia se defender sozinha. E que era de um machismo inaceitável não contratá-la por ser mulher. Sua argumentação caiu no vazio. Ninguém nem sequer a ouviu. Decidiu-se entrevistar um só candidato, engenheiro aposentado, que somaria às capacitações administrativas, o conhecimento (necessário?) de engenharia para o melhor desempenho dos trabalhos. Era o candidato que cobrava mais caro.

O síndico, perto dos noventa, já invisível porque deixara de ser útil, permaneceu calado com uma expressão divertida e minha amiga, numa epifania, percebeu três coisas - importantíssimas!

Primeira: O síndico ficou invisível por vontade própria! Na contramão da queixa comum dos que envelhecemos ele, mais velho ainda, usava em seu benefício a invisibilidade inevitável que a idade carrega.
Segunda: Ela reconheceu em si a rebeldia adormecida de onde tirou coragens para as decisões difíceis que a vida lhe impôs.
Terceira:  Se tivermos olhos para ver o que não é dito, uma simples reunião de condomínio pode ser uma aula sobre o comportamento humano.

Foram para casa, lado a lado. Ele assoviando um bolero antigo e ela feliz da vida porque  nunca tinha participado de uma reunião de condomínio tão proveitosa, poucas vezes aprendera tanto em tão pouco tempo.

Minha amiga - eu disse -  excelentes motivos para comemorar!
E ao garçom: mais dois chopps e uma porção de bolinhos de bacalhau, por gentileza.
Dia para guardar na memória.









segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

As Várias Faces Que A Beleza Tem.

"É muito bom falar com os outros
 Sim, mas só quando você fala e há alguém que responde."
                                                      A amiga Genial/pag.99
                                                                    Elena Ferrante"
                                                             
                                                   
                                                   

Dia desses li um texto do brilhante escritor português Valter Hugo Mãe onde ele faz um paralelo entre a feiura que se atribui e a beleza que enxerga num amigo e de como acontecem as coisas do amor para um e para outro. Por ser feio, lamenta, nunca é notado pelas mulheres. Porém, ao contar de si e falar de como sente, expõe uma alma tão plena de delicadezas e sensibilidades que faz com que a gente se apaixone instantaneamente. No entanto, o amigo "galinha" e rude está sempre envolvido com várias moças e as usa para lhe alimentar as vaidades.

Imediatamente lembrei de uma amiga que não vejo há tempo. Da última vez que soube dela estava fora, numa viagem sem data para voltar. Independente e desimpedida é dada a esses sumiços. É daquelas pessoas que quando dizem "que vontade de sumir" já estão com o pé na estrada. Depois de um tempo reaparece remoçada e chega - prenha de si se partilhando toda - e contando do que aprendeu, pois era essa a ideia, reabastecer-se para se repartir. Fico feliz quando ela chega - me considera e, generosa - me situa. Se colocando em si ela me coloca no prumo também. Sem filhos e sem grandes problemas, passa pela vida sem muito desgaste. Não sei a idade dela, mas é aquele tipo "que se cuida" e se trata bem. Não gosto de dizer - de pessoas - que estão conservadas, porque me vem à cabeça grandes vidros de pepinos e beterrabas cozidos em panelões, separados por panos de prato para evitar que se choquem e quebrem no movimento da fervura. Prontos, ficam expostos em prateleiras, garantida a conservância pelo vinagre, ingrediente indispensável da receita. Penso - de pessoas - que, ao se quererem bem, se cuidam, caminham em parques, leem bons livros, fazem exames de rotina sem muita neura e, mais que tudo, buscam e descobrem o que lhes faz bem. Não gosto da ideia de juntar vinagres à gentes. Prefiro os densos e curiosos, que procuram o entendimento de si  para entender seu entorno, mas sabem que - de ideias e sentimentos - é necessário dispensar as conservâncias porque tudo muda e tudo passa.

Pois essa amiga minha, ao chegar como uma lufada de ar fresco, vem com notícias frescas também.
"Vou casar" - ela diz, feliz! Pergunto, curiosa: Quem é o felizardo que vai reter você? E ela - pois saiba que ele ainda não sabe. Cuido das tratativas para o evento sozinha, mas a experiência e o bom senso me alertam que é melhor comunicar-lhe quando as certezas foram maiores do que as dúvidas. Como a conheço de vida toda entendo sua cautela porque já passamos por muita coisa juntas. Nos confortamos e e nos reabilitamos tantas vezes e em tantas situações, num déjà vu que se repete mais do que gostaríamos, que sinto que essa historia de um novo casamento tem todas as chances de não acontecer. Ela argumenta, e eu concordo, que as coisas do amor precisam ser de confiança infinita, de cuidadinhos atenciosos, trocas de gentilezas e claro, da alegria de estar junto.
Sexo, diz ela, acontece e é ótimo, mas sem aquelas urgências da mocidade.
E conclui, definitiva: quero um homem bom para trocar alegrias miúdas e, com sorte, raras felicidades de gala.

Sem dizer nada, lhe passo o texto citado acima "A indelicadeza bonita" e ela decide, taxativa: Vou me casar com ele! Ainda bem que o outro não sabia que estava meu noivo! E virando-se para mim: Viu como é bom não espalhar intenções antes de termos certezas absolutas?
Pergunto: A quais certezas, exatamente, você se refere?











quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Volta Às Aulas

"Nada é mais eloquente do que a ação."
                                             Shakespeare

Chegam mensagens da Escola de Música avisando que as aulas retornam em uma semana. Comunicam o fim das férias coletivas e, atenciosos, enviam lembrete pessoal convocando cada aluno pelo nome alertando-o para um ano de novas cantorias. A reação é imediata. Pipocam confirmações e até dá para sentir a alegria pela expectativa do reencontro. Um dos melhores sentimentos que podemos ter - este, de ser parte de algo bom - demonstra o quanto somos gregários. Eita, coisa boa! Aliás, não sei se oficialmente, mas a interjeição "EITA" foi considerada a mais abrangente por ser a mais versátil. Na alegria, citada acima, à dúvida: Eita, não sei não! Concordando: Eita, então vamos! Ou discordando: Eita, hoje não dá! Tirando o "corpo fora":Eita, não prometi nada. Se incluindo: Eita, pode contar comigo. Vale pra tudo. 
Eita, nóis! é a minha preferida.

O Grupo, heterogêneo. tem em comum o gosto por "soltar a voz" na expectativa de não não fazer feio, mesmo cantando no chuveiro. Querem aprender e melhorar,  mas o "leitmotiv" é o desejo de continuar enxergando possibilidades. Sabem que a rota precisa ser corrigida mais amiúde e que as certezas se dissolvem como bolhas de sabão. Os trajetos são mais curtos, mas não precisam ser mais estreitos, e o discernimento é a ferramenta mais eficaz para continuar bem. Agir é indispensável.

O Regente - paciente -  insiste e não desiste. Incentiva e estimula, cobra a postura, ensina a respirar e a usar o diafragma (fácil fácil) e, acima de tudo, acredita!

Tudo expande. A energia circula e a alegria acontece. Todo mundo fica feliz e todos crescem.
A felicidade não desperdiça tempo nem oportunidade. O melhor da festa é, também, a festa em si.
Condicionar felicidade é a pior coisa que podemos fazer conosco. Somos felizes aqui e ali, na miudeza do cotidiano, no varejo das horas do dia. Felicidade não é algo que podemos acumular para gastar sem reservas num futuro hipotético. Não funciona no atacado. Terminar ou começar qualquer atividade para viver melhor é responsabilidade individual. Ninguém deve ser responsabilizado por "nos fazer felizes".  Sempre é tempo para novos começos, para finitudes indispensáveis e para mudar paradigmas. Vida é movimento, mas também é mudança.

Sempre é Tempo Certo!







segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Entrou Sem Convite

Tropeçou, no meio do caminho entre a sala e o quarto, em uma coisa mole e escura, que não identificou de imediato. De susto, o coração disparou e a vista, na penumbra, não identificou o que era até que a criatura abriu as asas e, apavorada também, voou um voo tonto e torto e entrou quarto a dentro. A reação foi de gritar, histérica, mas o senso prático lhe alertou que pití precisa de platéia. Mais de meia noite e um grito iria - em vez de trazer ajuda - irritar os vizinhos. O morcego se enfiou embaixo da cama e ela fechou a porta à chave, pelo lado de fora, para se assegurar de que por ali ele não sairia. Vai que o cara é iniciado nessas coisas de abrir portas...mas deixou a janela aberta. Ele que fosse sensato e se escafedesse dali.

Tinha de dormir no quarto desocupado e, após um rápido balanço dos recursos disponíveis, viu que a situação não era tão grave. No banheiro tinha sabonete, papel higiênico (ufa) e uma toalha de rosto. Roupas de cama são guardadas no quarto que, nesta noite, era exclusivo do morcego. Travesseiro, quem precisa? Dormiu bem.

Na manhã seguinte foi pedir ajuda ao síndico  que andava cheio de moral porque tinha, dias antes, pegado uma cobra pelo pescoço (sic) bem ao lado do seu carro, na garagem do prédio. Até comentou que se não tivesse entregado a jararaca para os bombeiros, ela poderia dar cabo do morcego. Ah! E quem daria cabo da cobra? Eu, ele disse -  peguei uma vez, pego outra!  Sacudimos lençóis, colcha, arrastamos cama e outros móveis e nada do cara. O síndico, conhecedor desses bichos, decidiu que ele estava preso no tecido que forra o fundo do estrado da cama box, penduradinho pelas patinhas e que de noite iria embora.

A filha sugeriu que ela fizesse um "caminho de frutinhas picadinhas" que atrairiam o morcego e ele sairia do esconderijo. E daí, que faço? Aí você joga um pano sobre ele assim, do jeito que se pega passarinho que adentra pela nossa janela. Fez todo o sentido a sugestão da moça que tem um vizinho inqualificável, que grita impropérios e xingamentos indecentes para todas as mulheres nas madrugadas em que, alterado e bêbado, se acha no direito de ser insuportável. Ela, ao se referir ao homem, afirma que ele é uma pessoa muito deselegante. Daí a dar frutinhas e cobertinhas ao morcego faz todo o sentido. Que a vida a conserve assim.

A situação não se definia e ela decidiu encerrar o assunto. Resolveu que ele havia saído da mesma maneira como tinha entrado e que não existia mais risco nenhum. Além disso, concluiu, como não fora convidado ficou claro que era um simples morceguinho porque os vampiros só entram mediante convite formal.
Negociou com um medo antigo e ponderou:" sensato mesmo foi ter trancado a porta do quarto à chave."





sábado, 14 de janeiro de 2017

A" Beira" - de Dentro pra Fora.

Eu ia para a "Beira"  atrás do meu irmão quando ele ia pras "peladas" com os meninos de lá. Funcionava assim: eu fugia de casa e ele fugia de mim. Tudo o que ele não queria, menino de 10/11 anos, era a irmãzinha de 7 no pé, comprometendo-lhe "a moral" de garoto bom de bola. Eu o seguia, ele me mandava voltar e eu prosseguia. Era bom brincar com a meninada da "Beira".

Fotos em preto e branco - lindas e eloquentes - postadas por membros do "Grupo Antigamente em Rio do Sul", do Facebook, me colocaram lá - na "Beira" da minha infância - e ressenti o prazer de pisar no barro úmido que me acarinhava os pés descalços. E veio o cheiro bom do pão de milho assando nos fornos de tijolos montados fora das casinhas de funilha, que rescendia no ar e se misturava com o batuque da  Escola de Samba  " É com essa que eu vou" do Mestre  Caiscais, porque lembranças são como sonhos, não obedecem cronologia e têm hierarquia própria, calcadas nas importâncias que lhes dão os sentimentos. Brotam - todas juntas - sobrepostas - misturadas.

Dias atrás encontrei minha amiga de vida inteira, a professora Maristela Macedo Poleza - engajada e entusiasmada (acho que entusiasmo é uma ótima palavra para a Maristela) - Coordenadora do Curso de Arquitetura da Universidade do Alto Vale do Itajaí, que me contou de um jornal editado pelos alunos  de jornalismo da UNIDAVI - sobre um trabalho de pesquisa e entrevistas com os remanescentes da antiga "Beira" que ainda moram em Rio do Sul. Me carregou para a casa dela e as horas voaram como devem voar quando estamos felizes e saí de lá, tarde da noite, com um exemplar do jornal que li e reli e me despertou outras lembranças, outras histórias, e que agora, no papel honroso de vizinha da "Beira" peço licença para contar:

Morávamos no "Beco dos Cabritos" rua estreitada logo depois da nossa casa pelas árvores, nativas, que formavam um corredor sombreado onde, no fim do dia, um morador da "Beira" conduzia cabras e cabritos em fila de volta para casa. Não consigo lembrar-lhe o nome, mas me recordo claramente do nome da filha  - Neuza - moça de cabelos compridos e negros que tinha fama de muito braba e geniosa e que trabalhou lá em casa durante um bom tempo. Não me lembro do gênio dela, mas recordo das histórias de assombração com que ela  alimentava  meus pesadelos de criança. Não demorou muito e a nossa rua foi escolhida para ser pavimentada por lajotas sextavadas de cimento, no lugar dos paralelepípedos usados em outras, já pavimentadas.  O "valo" onde corria o esgoto foi canalizado, e a rua ficou linda, larga e conhecida por "Rua da Lajota", apesar de se chamar Rua Prefeito Raulino João Rosar - homenagem ao responsável pela melhoria.
Do "Beco dos Cabritos" passamos, em pouco tempo a moradores da" Rua da Lajota".
Até hoje é chamada assim.

Na época, um dos moradores mais conhecidos da "Beira" era o " Nego Verão" de quem nunca soube o nome verdadeiro. Ele fazia pequenos serviços na redondeza. Cortava lenha para abastecer os fogões, limpava o mato, matava galinha e assim ganhava uns trocados. Quando estava "sem nenhum" aparecia na hora do almoço nas casas onde fazia serviços e ganhava um prato de comida. Na minha, lembro dele sentado em um tronco seco e liso que havia no terreno e me vejo lhe entregando o prato que ele pegava, sempre quieto e que comia em silêncio.

Ele tinha outro apelido, "Goiaba", pela fama, não sei se justa ou não, que tinha de roubar goiabas dos pomares da redondeza. Aliás, roubar frutas era diversão de toda a molecada, pela aventura e pelo risco de levar um tiro de sal no traseiro. Os da "Beira" e os que não eram de lá. Acontece que ser chamado de "Goiaba" deixava o "Verão" fora de si. Ele desandava a correr atrás da criançada e sempre xingava assim: "Goiaba é o que tem no meio da perna da tua mãe", e o bando corria e repetia "Goiaba" e ele repetia a resposta até que desistia, exausto, e a criançada achava aquilo muito divertido.
Eu era proibida de  chamar o "Verão" de "Goiaba"e sempre ficava chateada por não poder participar da brincadeira. Mas como tinha mais medo da minha mãe do que dele, ficava só observando, menina de 7 ou 8 anos.
Quis saber o significado do que ele dizia e minha mãe disse que não era nada." No meio das pernas de todas as pessoas o que tem é o joelho" - ela disse, e me olhou com cara de assunto encerrado.
Da resposta, óbvia, não havia o que questionar, e só quando aprendi o sentido da coisa é que entendi porque as mães se ofendiam tanto, embora eu ache que não era caso de ofender ninguém. Mas eram outros tempos, muitos os tabus e a simples referência às anatomias mais íntimas, com eufemismos ou não, era proibida e ofensiva. Não sei qual foi o fim do "Nego Verão", nunca mais soube dele. Era um homem alto e magro, usava calças brancas, enroladas nas canelas e os cabelos grisalhos indicavam que tinha idade suficiente para não ter nenhuma chance de pegar a molecada ligeira que o provocava e fugia.

O jornal faz referência a um grupo musical com o inspirado nome de " Sambeira" , criado quando a  "Beira  já estava praticamente extinta e que durou 12 anos de sucesso e companheirismo" segundo informou um dos integrantes - José Miguel da Costa. No Estatuto, entre outras, consta a intenção de promover, entre os associados " a prática do lazer". Apesar de tudo ter mudado, de as pessoas terem tomado outros rumos - o que é da vida - o fio condutor que uniu aquelas pessoas continuou o mesmo, invisível como tudo que é essencial.

A "Beira" e sua gente, que batalhava o pão de cada dia com suor e trabalho duro deu para a cidade muito mais do que recebeu dela. Pessoas assim, que não esmorecem nas dificuldades e encontram motivo de riso na dureza da vida sempre me comovem e me ensinam. Ter alegria na adversidade é um dos maiores bens que podemos possuir. Tinha a Escola de Samba do Caiscais e o Salão de Baile do Seu Miguel. Faziam Carnaval, promoviam bailes, criavam felicidade.

 Gostaria de cumprimentar os alunos de jornalismo pela iniciativa que tiveram de reunir e entrevistar os moradores daquela "beira do rio" que nomeou o lugar de tantas histórias e que hoje abriga a UNIDAVI. Se me permitirem um conselho, peço-lhes que no futuro se revisitem e se reconheçam  nos jovens idealistas que foram nos tempos de faculdade. Um pouco de idealismo faz bem a todo mundo e acredito que faça mais bem ainda aos que se dedicam a escrever, contar histórias, narrar os fatos, ouvir e entender pessoas.

Parabéns a todos e lhes desejo sucessos - assim,  no plural - para que vocês os distribuam, ao gosto de cada um, tanto na vida profissional como na vida pessoal.
     
À Maristela, agradeço por ter me dado o jornal e por ter me instigado a escrever essas lembranças.
Foi uma honra.

Crédito da imagem: Antigamente em Rio do Sul









domingo, 8 de janeiro de 2017

Quando Lá Não É Um Lugar

"Navegar é preciso.
Viver não é preciso"
                Fernando Pessoa

O calçadão, de uma quadra, tinha sido reformado. Três paralelepípedos de um vermelho pálido esculpidos em forma de coração e unidos pela ponta formavam o miolo de uma flor de uns dois metros de diâmetro. Em seguida, em círculos que rodeavam o miolo, foram assentados os outros, cubos, no tom cinza claro do granito mais comum na região. Eram tês ou quatro desenhos iguais e depois o pavimento continuava até o final da quadra repetindo desenhos circulares muito bem feitos. O que primeiro lhe ocorreu foi o quanto deve ter sido difícil o trabalho de esculpir pedras de paralelepípedo em forma de coração. A memória lhe trouxe, nítida, a imagem de mãos rudes, calejadas, munidas de marreta e cinzel quebrando com destreza as pedras que iam dando forma ao calçamento das ruas da cidadezinha de onde saíra tão outra e tão jovem que parecia ser de outra vida também, descolada dela.
Além disso, as ruas estavam quase todas cobertas por asfalto novo, avenidas largas de mão única.
A cidade cresceu muito, prosperou, polo comercial que sempre foi e se firmou, também, na indústria de confecção, atividade tradicional em toda a região.

Na verdade só o centro e o  entorno mais próximo - duas ou três quadras - continuava igual no traçado das ruas, nos prédios mais antigos, em alguns comércios que se mantiveram no mesmo endereço e na mesma atividade, bem conservados, com pintura nova e adaptações que lhes davam um ar mais moderno e mais bonito.
Continuou andando, relembrando, vendo a cidade e se revendo a cada passo. Mostrou, para a filha que a acompanhava, o Grupo Escolar e o Colégio de freiras onde tinha estudado, reconheceu a casa de uma amiga daquele tempo em que sonhamos tudo e não sabemos quase nada. Enveredou para o lado onde morava a sua família e deparou com o terreno vazio, com tapumes de construção e foi informada que começaria logo a obra de um edifício residencial no terreno onde existira a casa de onde tinha saído há tantos anos. Penso que ela ainda não sabe o que sentiu naquele momento.

O rio, onipresente e portentoso, com seus chorões a lhe ladear as margens, tinha recebido diversas pontes novas, construídas para aproximar as gentes por prefeitos que acreditam que investir em pontes facilita a vida e aproxima a cidade de si mesma.
Cidade que sofreu com enchentes devastadoras em um passado recente, esta se reconstruiu mais bonita e mais pujante e segue confiante no trabalho e determinação dos seus cidadãos.

Ela tinha ido lá por motivos particulares. Foi fechar um ciclo que precisava de um ponto final.
E ver a cidade renascida de si mesma, ativa e pujante, reconstruída assim  que as águas começaram a voltar ao leito do rio ela pensou  "é isso mesmo, o que temos de fazer é recomeçar"

  

sábado, 31 de dezembro de 2016

Aos Meus Queridos Leitores.....

"Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada."
                           Fernando Pessoa 



Foi por premência e necessidade que comecei a escrever em meados de abril passado. Começaram - as palavras - a dançar ante os meus olhos exigindo uma atenção que eu não estava disposta a lhes dar. Mas elas insistiram, teimosas e impertinentes como uma criança que puxa a barra da saia da mãe a exigir atenção. Fui me arriscando com cuidados e sem saber no que aquilo ia dar. A minha alma andava inquieta e acredito que usou o expediente de me forçar a escrever para que eu desse atenção a ela. E foi com textos tímidos e curtos que fomos nos aproximando e foi desse jeito que fui trazendo-a de volta porque ela, pelo descaso, andava arisca e desconfiada. E assim fomos nos harmonizando - minha alma e eu - e agora estamos como queijo e goiabada.
Nesses tempos de  redes sociais, de conexões 24 h via internet, esquecemos aquela - primeira - que devemos manter com a alma que nos habita.

Uma coisa leva a outra e me vi criando o blog 60 e agora? e comecei a publicar meus textos e receber retorno e - de repente - descobri que tinha leitores. Foi um susto misturado com emoção e, engatinhando como estou nesse ofício de escrever, ainda fico um pouco constrangida quando pessoas me dizem que se sentem afinadas com o que escrevo e compartilham e outras pessoas leem e também reagem.
Reação é a melhor resposta para qualquer atitude que tomamos na vida. Serve para nos estimular e legitima o que fazemos quando é positiva e nos força a refletir quando é negativa. Nos torna visíveis, nós, os que começávamos a nos conformar em ficar na sombra. E me convenço de que temos uma inclinação natural para a luz e que as sombras nunca deveriam nos bastar.

E ela, a minha alma, que começou tudo isso, fica feliz, feliz e me diz: Viu, eu disse que acreditava em você! Agora somos parceiras, escrevemos a quatro mãos. Nos fazemos companhia e nos apaziguamos. Nada tem tanta urgência no tempo de agora. O paradoxo é este: quanto menor o tempo de que dispomos mais cadência e calma nos permitimos. Impaciência é coisa de quem tem tempo.

Bom Ano Novo e que a saúde nos faça companhia todos os dias.

















quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Tempo e as Festas

"Uma parte de mim é permanente;
  outra parte se sabe de repente."
                         Ferreira Gullar


No dezembro que adquiriu velocidade própria e que, numa vertigem, nos colocou lá, no primeiro dia do ano novo em praias cheias de restos e lixos, o que fizemos com os 31 dias do mês passado no automático? Desperdiçamos, no frenesi de gastos e desgastes, as 24 horas que continuaram a compor o dia?

Persigo sentido e quero qualidade para usar o tempo que é meu com alegria. Tomo consciência de mim para sentir o prazer da vida, ali, onde ela acontece. Para conseguir isso me coloco como espectadora nesse afã de shoppings e filas, e me vem uma paz  como nunca senti antes. Quero, neste fim de ano, confraternizar com as pessoas que me importam, com excelência e afeto. Estocar alegria para resgatá-la quando a vida me colocar contra a parede. Ando egoísta eu, e ando exigente. Escolho relações - oh! privilégio! - nas quais confio e que confiam em mim. Despojada de certezas que se esvaíram, trago a alma leve e limpa. Só cabe coisa boa nela. Não sabemos de quanto tempo dispomos, mas podemos fazer o que estiver ao nosso alcance para que este tempo valioso seja gasto com a melhor qualidade possível.
Acho que esta é uma boa definição do que seja luxo.
 

Uma foto postada numa rede social por uma amiga minha me emocionou ao ponto de eu largar tudo o que estava fazendo e escrever, de um  fôlego só, este texto que - espero - estejam lendo... a foto é assim: minha amiga bonita está, junto com o pai de 94 anos, em frente a árvore de natal, linda, montada pela irmã. Estão ótimos, ambos, mas o que me comoveu foi o senhor, digno e firme, orgulhoso em dar o braço à filha, numa eloquente alegria pela festa que vai compartilhar com a família.
Nesse momento, a festa de natal fez sentido.



É o que desejo para cada um de nós neste dezembro. Que a gente possa participar de festas boas e que as pessoas ao nosso redor, aquelas com quem estamos erguendo brindes e dividindo perus e presentes sejam importantes em nossa vida, as que respeitamos porque nos respeitam e que são  necessárias para que sejamos melhores e mais felizes. Parentes ou não. Familiares ou não. Que nos unam os laços invisíveis do amor e da cumplicidade e que o prazer de estar junto seja a força motivadora da nossa alegria. Que não nos sujeitemos - nós, os que aprendemos a dar valor ao tempo que nos pertence - em participar, forçados por conveniências que não são nossas, de festas onde não nos sentirmos acolhidos. Devemos usar, sem parcimônia, o "direito adquirido" que a idade nos concede para escolher o que nos proporciona conforto e diversão.
Feliz Natal! E um Ano Novo mais fraterno e mais justo para todos.