sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulher no Dia a Dia

"Você tem de cometer erros para
   descobrir aquilo que não é."
                     Margareth Thatcher
                                                                        
Dia da Mulher, elevo pensamento e sentimento na intenção das mulheres que lutaram e sofreram e morreram para que todas tivéssemos vida melhor. À elas, respeito e gratidão.

...e penso nas mulheres que fizeram ou fazem parte da minha vida e que, de um jeito ou de outro, me tornaram o que sou. Com algumas aprendi a ser, com outras a não ser. Filha única com três irmãos ao  redor, sentia falta de uma irmã. Teve um tempo em que eu acreditava que, se tivesse um casaco de lã azul marinho com botões dourados e martingale - e uma irmã (nessa ordem) - eu não precisaria de mais nada para ser feliz. Não tive nenhum dois dois e cedo percebi que possuir o casaco era mais fácil do que ter a irmã.  Depois, moça, tive uma irmãzinha que chegou já nascida e que fez a nossa alegria, da casa inteira. A vida flui, as coisas passam... hoje, madura, sei que devo muito do que sou à mãe que tive - que se foi tão cedo - e que foi dela que aprendi a não me vitimizar nunca. Era ereta, a minha mãe. Com minha avó, que passava longas temporadas na nossa casa, aprendi a ser resiliente, a começar de novo. Da outra avó, paterna - esparramada em ternura - com quem convivi muito pouco e, por isso mesmo absorvi tudo o que pude, aprendi que a vida não precisa ser tão dura, mesmo que seja. É preciso olhar em volta, mudar o foco. Sempre funciona.

Com minhas filhas, íntegras e fortes aprendo mais de mim, e me orgulho e me enterneço porque sei que posso contar com elas como elas sabem que podem contar comigo. E fico feliz quando rimos juntas. Rir com os filhos é a confirmação de que acertamos mais do erramos.

E com as amigas, as que a vida separou, mas que continuam tão em mim, porque nossos caminhos se confundem e nem sempre sei se isso ou aquilo de que me lembro é meu ou delas. As que foram surgindo na confluência de interesses, que me cativaram e que cativei e com quem - como a raposa e o principezinho - começo a ficar feliz pela expectativa do encontro e, quando a hora chega, estamos alvoraçadas de felicidade. Com elas gasto a vida sem economia, mas com critério. Não é mais tempo de desperdício.
São muitas as irmãs que tenho. O casaco, faz tempo que não quero mais.

E com a minha neta, com quem aprendo a ser melhor do que eu, desde o primeiro instante em que a vi.









quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Egoísmo e Humildade

Aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo, nem orgulho.
É Amor Próprio.
Charles Chaplin

Não sei quanto o governo economizou por nos dar uma hora a mais de luz natural, mas o verão fez questão de aproveitar quase nada. Segunda feira, já com os relógios nos conformes, ele apareceu todo exibido e com trovoadas de fim de tarde. Pra mim, valeu. Sou fã de horário de verão. Como uma coisa puxa outra lembrei de um dia desses na praia, onde um bando de maduros discutíamos a própria realidade e o que achamos que é viver bem, com as gentilezas que nos permitirmos.
A conclusão geral é que necessitamos ser egoístas, palavra desvirtuada pelo mau uso que se faz dela. Repare nos pecados capitais criados pela igreja católica para facilitar seu trabalho: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça, Vaidade. Profundamente humanos e universais, nenhum deles é sinônimo de egoísmo. Do "Conhece-te a ti mesmo" dos gregos  até o Amai ao próximo como a ti mesmo" que Jesus deixou como um Mandamento Novo, é essencial olhar para dentro e saber de si.

Queremos " pouco" nessas alturas - saúde boa, amigos perto, amores certos e dinheiro - o suficiente para não precisar lembrar dele. E nos divertir. Gente vivida gosta de festa, de riso, de troca de afetos.

Filhos criados, os amamos sem medidas, mas são deles os caminhos que escolheram, e deles os percalços da jornada. De netos, penso que são a melhor definição do que seja eternidade, mas não nos pertencem.
Continuamos a ser "um lugar para voltar" com as portas do coração abertas de par em par. 
Somos donos de nós, e é a quem devemos explicações e paciência. Está aí uma coisa que os jovens não sabem. Precisamos ter uma enorme paciência conosco porque ficamos em nós as 24 horas do dia. Pensa que é fácil? Conhecemos bem os nossos limites.

Aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, a dizer não ao que nos fere ou desrespeita  porque temos coragem de romper paradigmas.
Chegados até aqui, voltamos a ter certezas. Poucas, mas fundamentais.


     










segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Na Praia

"Cuendo calienta el sol
  aqui en la playa
  Siento tu cuerpo vibrar cerca de mí.."
                            Hermanos Rigual *

Vizinhos de areia mudam todos os dias e, se nos quedamos ao sol o dia inteiro, variam no decorrer do período. Gosto de observar essa intermitência de quem chega e de quem sai e perceber as alternâncias da vizinhança.
No guarda-sol ao lado, ouço a resposta da mulher ao vendedor da mega sena acumulada.  "A gente não quer moço, a gente é rico". Chega o haitiano, oferece pau de selfie, e a resposta é " a gente não quer moço, a gente já tem de todas as cores"... alguma dúvida? Suponho que seja para combinar com a capinha do celular.  O som, pequeno e potente, propaga:
 Rapariga, não! Rapariga, não!
 Lava a sua boca com água e sabão!
 Depois piora:
 Faço devagar, faço devagar,
 Faço devagar que é pra ela se apaixonar.

Como diz minha filha, é o cerumano, mãe!

Do outro lado, o pessoal comenta com o vendedor de sanduíche natural que o céu escurece de repente. O moço, com ares de quem sabe o que diz, olha o pretume que se aproxima do continente, depois mira o pretume que vem do mar e determina: eeee...  essa manchinha que vem de lá e se achega da manchinha que vem de cá? nãao, nada de chuva, fique susse!
Eu, que já  juntava cadeira e canga decidi confiar no moço, roupa de marinheiro, com quepe de âncora e com anos de praia. Pode não ter experiência em vagas e ventos em alto mar, pois isso é assunto para marinheiros de outra cepa, mas de claros e escuros na areia ele entende. Fiquei e acertei.  O céu foi clareando, clareando, despontou um azul lá no horizonte, os vizinhos ricos recolheram som e selfie e se foram e a praia clareou também, na areia.

Li um pouco, cochilei outro tanto e quando cheguei à fila do chuveiro para tirar as areias de mim, o moço a minha frente cedeu-me a vez, segurou minhas tralhas e  acionou o chuveiro.

Digo eu pra minha filha, é o ser humano, filha!

Ganhei a crônica - que saiu inteira - e ganhei o dia.

* Consta que a música é do nicaraguense Rafael Gaston Perez que a vendeu ao trio cubano que fez um sucesso extraordinário com ela. A letra original era... quando calienta el sol en Masapacha, cidade litorânea distante 60 km de Manágua, capital da Nicarágua. 
Fonte: El Blog del bolero: Oswaldo Paez


 




sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Sumiço da Sandália

Perco a sandália e
recupero o passo.

Na fila do caixa, quase na minha vez, me vi descalça!
Jesus, clamei! Cadê as minhas havaianas?  Me arrependi no ato. Instantaneamente todo o entorno olhou de mim pra eles - os meus pés no chão - que, diga-se de passagem, deveria ter tido a caridade de se abrir para que eu desaparecesse.
Uns me olhavam de jeito esquisito, outros balançavam a cabeça, apiedados, e sussurravam o nome do alemão. Sabe como é. Ouvir, examinar e investigar para só depois dar o diagnóstico é coisa de médico. Leigo sabe!  Me olhavam com cara de dó. A senhora está bem, onde mora? Tem família? Quer que eu a acompanhe? Fiquei muda, enquanto pensava em como sair dali sem que nenhuma alma bondosa me acompanhasse.

Supermercado cuja propaganda é ser inclusivo é, de fato, uma loja diferenciada. Corredores largos e gôndolas baixas fazem todo mundo se sentir magro e alto. Uma beleza! Da porta de entrada se enxerga o fundo da loja. Nos corredores circulam  - com conforto e sem atropelos -  pessoas com carrinhos de compras, cadeirantes, crianças empurrando um carrinho com uma espécie de mastro com uma bandeirinha na ponta que pode ser avistada de qualquer lugar. Ninguém perde a criançada, nem que queira.Tudo o que eu ansiava era estar num shopping em véspera de natal e desaparecer na multidão.

Reagi! Agradeci a atenção de todos, balbuciei qualquer coisa sobre Setor de Achados e Perdidos, o que se mostrou uma ideia excelente, porque as pessoas se empolgaram com as maravilhas do supermercado e esqueceram de mim. Larguei as compras e me enfiei loja a dentro. Imagina eu chegar no Setor  (não tem e nem caberia ter)  e perguntar se haviam, por acaso, encontrado um par de havaianas branquinhas circulando sozinhas por aí?  

Fiz cara  de paisagem e tentei refazer o trajeto anterior até que avistei, sob uma mesa da lanchonete, o par lado a lado, que alguém havia colocado ali. Como, me perguntei, se eu não estive na lanchonete?  Daí me lembrei! A padaria fica ao lado e o pão ia demorar mais  "dois minutinhos", tempo padrão de padarias em todo os lugares. Não importa há hora que se chegue, sempre faltam dois minutinhos para sair o pão quentinho. Me distraí, o tempo do pão não é o mesmo do relógio e larguei a sandália entre um tempo e outro. Como a fila demora, mas sempre anda, em todos os lugares e analogias possíveis, fui andando e a sandália não me acompanhou.

Refiz as compras e tudo acabou bem. Na saída encontrei um casal de amigos e fiquei aliviada por te-los encontrado na segunda saída, não na primeira. Não sei como explicaria a alguém que conheço o fato de estar descalça no supermercado. Acho que só contando a história inteira, como faço agora. Ficou tão lógico! Não?








terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Outra Primeira Vez

"O tempo é remédio pra tudo...
exceto para a velhice."
                    Henrique Jorge

Lembro da primeira vez que me chamaram de senhora. Entrei numa loja e a atendente, solícita, perguntou. posso ajudá-la, senhora?  Olhei para trás à procura da tal senhora. A moça reforçou o sorriso e repetiu a pergunta. Daquele dia em diante a coisa foi ficando cada vez mais frequente.
É como adolescente, dorme criança e acorda  moça. Quem tem neta sabe. A gente dorme moça e acorda senhora. Com o tempo a pessoa acostuma e esse limbo dura até chegar aos 60 anos.
Daí muda tudo! Entramos no status oficial de idoso! Tiramos A Credencial do Idoso (adoro isso, credencial) e como o nome diz, nos credencia para uma porção de pequenas regalias.
Os jovens não sabem mas, - quem tem sorte - envelhece.
Entre outras coisas o Cartão do Idoso é grande e vistoso, plastificado então, pode servir de *leque* nos dias de calor, Também serve para nos tirar da invisibilidade total, porque um cartão se mexendo no ar deve estar sendo agitado por alguém. No caso o Idoso Proprietário. A gente sacode o Cartão do Idoso e as pessoas nos enxergam!  Uso letra maiúscula porque é um documento importante. Precisa de 60 anos para conseguir.

Lembrei disso porque fui ao supermercado e estacionei na vaga de idoso, a mais perto da escada rolante, mais larga, mais clara. Certo que o ícone é um bonequinho curvado apoiado numa bengala, o que revolta alguns  usuários. Soube que uns inconformados ensaiaram um  movimento para atualiza-lo, o que acho um perigo porque corremos o risco de perder a regalia. Se quisermos um ícone mais descolado, rejuvenescido, alguém pode argumentar que, se não são velhos, não precisam de tratamento diferenciado. Atentemos, pois!

Além disso, já tem lei para uma nova categoria de idoso, o de 80 anos ou mais. Imagino que, se começarmos a reclamar, os nobres deputados alteram a idade mínima oficial de ser idoso. Nada de correr riscos desnecessários. Com a criação do Idoso, fase 2, automaticamente criou-se a categoria dos pré-idosos. o que nos rejuvenesce de cara, de graça, sem risco. É um presente!
A melhor estratégia, a mais esperta  é a de usar o direito adquirido - outra coisa de que gosto, direito adquirido - a nosso favor. Somos velhos quando interessa, caso das vagas especiais, e não somos, quando não nos interessa. É só observar os netos adolescentes que a gente aprende . Eles são bons nisso. Adolescentes nos direitos, são crianças nos deveres.

Têm lugares, porém, onde as espertezas não funcionam. Bancos, por exemplo, não adianta pegar duas senhas - convencional e idoso - na expectativa de usar a que chamarem primeiro. Eles já sacaram a malandragem e puseram um funcionário grudado no totem que expele as senhas e que nos entrega a que nos cabe na nossa mão. O sujeito, olhar severo, acerta sempre, só de olhar pra nossa cara. Aliás, aproveite, porque depois de entrar ninguém mais olha pra você.

Outra coisa que aprendi - mesmo que a gente esteja bem  - é bom lembrar que estamos bem  para a idade que temos, apenas isso. Alguém da nossa faixa etária comenta que estamos bem, acredite, é sincero. Porém, se alguém vinte anos mais novo disser isso, não pense que a pessoa o está comparando a ela. Conta bancária favorece a avaliação. Nada de ilusões.

A vida, enfim, é um aprendizado constante.
Se observe, se ouça e se respeite.
Diga não com decisão e não se importe com quem não se importa com você.
Se cuide, se divirta e faça coisas que sempre quis fazer. Eu estou pensando em voar de asa delta.
Amém!

 Esclarecimento aos jovens:
* leque: objeto que, sacudido em frente ao rosto, gera um ventinho que ajuda a abrandar o calor.
Espécie de ar condicionado portátil. Não causa danos ao meio ambiente.


sábado, 6 de janeiro de 2018

"A Tardinha Cai."

"Navegar é preciso
 Viver não é preciso.
                 F. Pessoa"

 Fernando Pessoa popularizou os versos cuja autoria é creditada ao general romano Pompeu, por volta de 70 a.C. Com a intenção de incentivar os marinheiros, apavorados, a levar uma carga de trigo a Roma durante a guerra, o general bradava "Navigare necesse, vivere non est necesse!"
Eles temiam a imprecisão dos barcos e a precisão do inimigo, mas Pompeu era o temor mais próximo. Claro que ele ficava dando tchauzinho do cais. Jogo duro, o tal Pompeu. Pensando bem, as coisas continuam mais ou menos assim, até hoje. Manda quem pode e obedece quem não tem escolha. No século XIV, o poeta italiano Petrarca mudou a expressão para "Navegar é preciso, viver não é preciso." Fernando Pessoa escreveu seu poema a partir destes versos, destacando que eram lema dos navegadores antigos. Continuam atuais há mais de 2000 anos porque não têm tempo, nem lugar, nem hora - só sentimento. Poesia é assim, como uma luva, se ajusta à alma de cada um.

Aqui, ilustram a primeira vez  - no mar - de uma moça que eu conheço.

Veio de mudança. Mal arriou "mala e cuia" no chão da sala, recebeu uma amiga querida que a encheu de mimos, e com a qual foi passar o Réveillon no veleiro de amigos comuns, onde foi conferir a "precisão" do que é navegar. Narrativas de marear não faltaram e sei que ela temia dar vexame, incomodar os anfitriões, coisa e tal... pois não há de ver que a moça entrou no barco e se sentiu em terra firme? Velejavam - barco adernado, vela estufada - e ela parecia pisar chão de terra batida. E as vagas, então?  E dormir? A cabine lhe pareceu um latifúndio, dormiu o sono dos justos e acordou revigorada. Certo que confiou na dupla experiente que comandava o barco com a presteza de quem sabe o que faz. Reconheceu que a confiança exclui quaisquer temores e que é a desconfiança que nos derruba, mesmo que estejamos presos ao chão. Além disso estavam todos, literalmente, no mesmo barco. E também tem outra coisa, ela se trouxe para ancorar na casa da praia e o barco é uma casa que se leva junto, então foi um reconhecimento imediato.

Passando os olhos por textos que escrevi no ano passado - depois de ter escrito este - notei que usei esses versos para abrir o texto do dia 08/01/2017.  Cabiam lá e cabem aqui.


É a ela, à moça que velejou pela primeira vez, que dedico texto e versos, com votos de que continue a sentir encantamento e entusiasmo pela maravilhosa imprecisão de viver.
E que não deixe de ser curiosa.








sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Feliz Ano Novo!

"Homens não sabem como dizer adeus,
  mulheres não sabem quando."
                                 

É de Rita Lee a afirmação acima e a tomo de empréstimo para tema do último texto do ano.
As finitudes acontecem todo dia toda hora e quase sempre são ordinárias, são necessárias, são corriqueiras, mas como sofremos para aceitá-las! São elas que movimentam a vida e sem elas não existiriam os recomeços.

Os finais felizes das novelas acontecem no último capítulo e não é por acaso. Quando todos os desacertos e desencontros são resolvidos a novela termina. Sem conflito não tem novela, nem romance, nem existência.

Os cartões da Natal de antigamente, aqueles bonitos que enviávamos e recebíamos pelo correio e expúnhamos numa salva de prata,  junto ao pinheirinho enfeitado - quanto  mais cartões recebidos maior o nosso prestígio - costumavam trazer os votos ...um renovar-se de esperanças ... e lembro de mim - quando aprendi a ler - a desejar  um renovar-se de esperanças às pessoas do meu convívio.  Elas achavam graça, me faziam uma graça e eu, sentindo que fazia sucesso, repetia a dose à exaustão. Demorei para entender o porquê do meu prestígio, mas hoje, convencida de que esperançar é imprescindível como respirar e amar retomo aqueles votos e desejo a todas as gentes um Feliz Ano Novo e um renovar-se de esperanças do fundo do meu coração. 

Desejo a todos e a mim também, recomeços, retomadas e reinícios.
Desejo a todos, todas as saúdes e que cada um as gaste como achar melhor, sem economia.
Feliz Ano Novo!







terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Vamos Falar de Dezembro?

"Nem tão plana, nem tão plena."
  Cátia Moraes/Mulherio das Letras - Rio de Janeiro
                   

Dezembro não começa, se apossa. Inocula-se, devagarinho, no início de novembro com o aparecimento das primeiras vitrines de enfeites natalinos, e continua - janeiro a dentro - quando a ressaca chega junto com a fatura do cartão de crédito. Depois, premido por confetes e serpentinas dá lugar a fevereiro. Deve vir daí a expressão "o ano só começa em março". Dezembro não termina, se exaure. É tão intenso que o sinto plural - dezembros. É fim e começo.Tudo se movimenta!  É tempo de restaurantes - bares e afins - lotados. Mês de agenda cheia de confraternizações, encerramentos e fechamentos. Todo mundo corre, se atrasa, não tem tempo... parecemos o coelho da Alice a passar correndo enquanto grita, aflito: Ai, os meus bigodes! Alô, adeus, alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde, é tarde até que arde!

Surgem, em dezembro, dois times, os "Amo Natal" e os "Odeio Natal." Quem faz parte do primeiro enfeita a casa toda. Cozinha, quarto, banheiro, caminha do Pet  - ele inclusive - nada escapa.
O outro time se irrita com tudo - do trânsito à alegria de quem gosta da festa. E tem a maioria, que pendura guirlanda na porta, participa de grupos de amigo secreto e escolhe, com cuidado, os presentes para agradar a quem a agrada. Passado o natal, os times hibernam para voltar, revigorados, no próximo ano. Como gosto não se discute, é uma rivalidade sem sequelas.

É um tempo generalizado de nervosismo e impaciência. Tudo urge, tudo é pra agora. Há de se dar conta de tudo, para que tudo saia perfeito, seja lá o que isso signifique.

Tenho a impressão de que - se aquietássemos um pouco - ouviríamos Ele - o Dono da Festa - a nos soprar ao pé do ouvido "falta um pouco mais de calma, falta um pouco mais de alma."















domingo, 19 de novembro de 2017

Palavras!

"A resposta você encontrará no que
  as palavras não disseram"
              Fernanda C. Racaneli

Monoglota constrangida - não me faltaram condições para aprender outros idiomas - digo, em minha defesa, que era abrir o livro e o pensamento fugia, voava longe, eu não conseguia me concentrar.  Tenho um deficit de atenção seletivo, se isto é possível, porque se o assunto me interessa não me disperso. Não é fácil ser assim. Mas, ser o que se é sempre é difícil. Minha filha me disse outro dia "sabe mãe, deveria ser possível tirar uma semana de férias de si mesmo, uma vez ao ano." Como tenho a felicidade de ter duas, fico em dúvida se devo, para ser fiel aos fatos, citar qual delas disse isto. É a mais velha, no caso. A mais nova é responsável pelo diagnóstico do déficit de atenção se bem que o seletivo, é por minha conta...

Gosto de pensar palavras na nossa língua linda e cantante - pródiga em vogais - que suavizam sons e aparam as arestas das consoantes, tão comuns em outras falas. É preciso usa-las para que continuem vivas e como tudo o que é vivo elas também mudam, caem em desuso, desaparecem. Verdade que andam maltratadas ultimamente, no uso abusivo do gerúndio, no bastante, que substitui o muito, escamoteado, o coitado. No noticiário, o repórter, na beira da rodovia, em véspera de feriadão diz " A via tal está bastante cheia de veículos" ... e a nova e boba mania de  dizer que "fulano não corre risco de morte". Podemos correr risco de vida. De morte não existe risco.

As minhas preferidas são as proparoxítonas porque são sonoras e sofisticadas, tais como libélula, calêndula, lâmpada - Ética! - bela palavra que tem sido constantemente ofendida. E as que terminam em ão, usadas para nomear as abstrações como compaixão, ilusão, perdão. Se fôssemos nos pensar como palavras, a maioria de nós seria paroxítona, pela corriqueiro e pela abundância.

Atualmente ando interessada nas monossílabas. Gosto de som, dom, de tom e do Tom, do com, que agrega, do sem, quando exclui dissabores e do cem que multiplica riqueza. Mas é o não a mais interessante das palavrinhas pequenas, por duas razões: quando quer dizer sim - e aparece em três negativas seguidas - como em Não Nem Nada! expressão de enfática concordância, comum na região onde nasci, o que me faz lembrar de um dentista famoso na cidade. Sempre de terno de linho branco, bom sujeito, amante da boemia, bom de copo e de papo, usava tanto a expressão que ela se tornou sua marca, o apelido ficou maior que o nome. Nem sei qual como se chamava o Não Nem Nada. Morreu numa quarta-feira de cinzas, numa deferência toda especial dela, a ceifadora de almas, que esperou que ele brincasse o carnaval.
A segunda razão é que o uso do Não é considerado rude, principalmente pelas meninas - de ontem e de hoje - que devem ser cordatas e obedientes.  
Muita gente faz coisas que detesta, a vida inteira,  porque não consegue dizer não. É um aprendizado difícil, este de falar  não na ocasião certa, mas com o tempo a gente aprende. Quando digo um não necessário para algo ou alguém, digo sim pra mim.
Dizer não é um ato de coragem



  










quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Tempo Certo

"Cantando eu vivo em movimento
  E sem ser mais o mesmo
  Ainda sou quem era,"
  Maria Gadú/ No Pé do Vento

Criado em 2011, pela Paideia escola de música, o Grupo Vocal Tempo Certo surgiu da necessidade de atender alunos adultos à procura de aulas de canto.
Nos primeiros anos chamava-se Curitibôcas 2, numa referência ao Grupo Vocal Curitibôcas, excelente grupo da escola - conhecido e reconhecido - com mais de 20 anos de estrada. A ideia inicial era que funcionasse como um celeiro de talentos, e os que se destacassem seriam alçados ao Curitibôcas. 

Desde o início sob a regência de André Dittrich, o vocal foi crescendo em número de participantes e como Grupo. Com o tempo foi adquirindo identidade própria e a necessidade de ter um nome que o identificasse.
No fim de 2016, depois de muitas idas e vindas, foi rebatizado com o nome de Grupo Vocal Tempo Certo, numa alusão ao "tempo da música" e ao fato de que sempre é  "tempo certo" de começar    - não importa o quê - desde que nos faça bem. O coral é misto mas, no momento, conta só com vozes femininas. A única exigência é querer cantar.

Entrei no Tempo Certo em  2012 com o objetivo de romper amarras, de sair da minha zona de conforto, eu que não sabia cantar nem no chuveiro.
No começo de 2017, o professor nos comunicou que a direção da escola - e ele também - acreditava que o grupo estava apto para uma apresentação solo, no final do ano. Tínhamos nos apresentado nas festas de encerramento da escola, e junto com o Curitibôcas em algumas ocasiões cantando não mais do que duas músicas, e em um ou outro evento, como convidados. Lembro que, no primeiro convite, fomos cantar num Festival de Corais, no Clube Curitibano. Tão nervosas estávamos que, ao final da canção, ficamos paradas no palco e o professor disse" agradeçam!" entendemos "agora desçam" e saímos em desabalada carreira palco abaixo. Episódio que ainda nos rende boas risadas.

Repertório montado com canções que conhecíamos e outras novas, começamos os ensaios em março e fomos até a primeira semana de novembro num esforço mais do regente do que nosso, porque era preciso que ele repetisse a mesma lição incontáveis vezes, sem perder paciência e fé.
Nos dois últimos meses ensaiamos com afinco e foco, fora do horário normal de aula. O desafio que nos tirava novamente da zona de conforto, nos fez compreender que é superando as dificuldades que vencemos os medos.
Postura adequada no palco," nem tão dura nem tão dançante", segurar corretamente o microfone - tem trocentas maneiras  erradas e só três certas: pertíssimo da boca, dois e até quatro dedos de distância, de acordo, é claro, com o timbre e volume de voz que a canção exige.

O Show foi no dia 11 de novembro e o "respeitável público" aplaudiu com alegria e entusiasmo.
Acredita que pediram bis?